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CONTO: A CONFISSÃO

Por: Ana Rosenrot

Cineasta/Escritora/Editora-chefe da Revista LiteraLivrehttps://www.facebook.com/anarosantanarosenrothttp://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot
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O que escrevo aqui, não é somente uma carta de despedida, ou o depoimento de um homem bêbado e louco, mas, também, minha confissão. Não posso mais viver com o peso da culpa pelo crime terrível que cometi: eu matei a minha amada esposa Annabel. Não importa que a polícia tenha declarado sua morte como acidental, ela morreu por minha culpa e agora eu vou me juntar a ela na eternidade, antes que o inferno me alcance.

Quando tiverem terminado a leitura, saberão exatamente tudo o que aconteceu com Annabel e onde encontrar o meu corpo, peço, por favor, que enterrem este cadáver inútil numa cova sem identificação, pois, não mereço ser lembrado por ninguém.

Eis os fatos:

Conheci Annabel no velório de um tio distante. Eu nunca fora muito ligado aos meus familiares maternos, portanto, não sabia da existência de Annabel, minha prima de segundo grau. Ela tinha 18 anos e era linda: alta e loira, olhos de um verde brilhante, reluzentes como folhas molhadas pela chuva e cada movimento ou gesto que fazia, possuía uma delicadeza e uma suavidade cativante; sua voz melodiosa e sua inocência tocaram meu coração.

Me apaixonei imediatamente!

E mentalmente, fiz planos para tornar a minha casa mais habitável e digna de tão preciosa moradora. Nasci e cresci no velho casarão da família de meu pai, uma casa enorme e imponente, com um lindo bosque na frente e um pântano lamacento e escuro nos fundos, uma das únicas propriedades próximas às montanhas Fragosas. Nem por um minuto, pensei que poderia estar me precipitando, eu tinha certeza de que Annabel seria minha esposa, nosso destino estava traçado.

Nos casamos três meses depois e eu, que vivia numa solidão deprimente, vi minha vida se encher de luz e alegria. Annabel era o ser mais adorável que já existiu, estar em sua companhia, receber seus carinhos, me deixava pleno de felicidade.

Mas, como descobri da pior maneira, a felicidade é uma grande ilusão e a nossa linda história de amor rapidamente se transformou num pesadelo.

Comecei a notar que Annabel se levantava da cama várias vezes por noite, ela abria a porta, saía e depois de algum tempo voltava e se deitava novamente; no começo, pensei que ela devia sofrer de insônia e como não queria me incomodar, deixava o quarto sem ao menos acender as luzes. Somente fui perceber que havia algo de errado quando a chamei em voz alta e ela não respondeu, saindo normalmente do quarto, como se não tivesse me ouvido, então, acendi as luzes, esperei que ela voltasse e honestamente, eu não estava preparado para o que vi: minha esposa entrou e parou bem ao meu lado na cama, me olhando, sua respiração ofegante parecendo um tipo de rosnado, foi quando percebi, horrorizado, que seus olhos não possuíam mais cor ou pupila, eles estavam totalmente brancos e tremiam violentamente; sua figura, ali parada, com aqueles olhos, o rosnado, os cabelos desgrenhados e a camisola longa e branca, parecendo uma mortalha, nunca mais saíram da minha mente.

Não sei quanto tempo ficamos ali, parados, até que ela simplesmente se deitou, fechou os olhos e sua respiração voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido.

Saí da cama imediatamente e me tranquei na biblioteca, eu precisava me acalmar e pensar sobre o que tinha presenciado. E só podia haver uma única explicação plausível: Annabel era sonâmbula.

No dia seguinte, encontrei Annabel na cozinha, com as criadas, preparando o café da manhã. Ela agia normalmente, como se nada tivesse acontecido, mas eu não conseguia sequer olhar para ela, sei que isso é injusto e ridículo, mas acontece que eu era um tolo supersticioso e acreditava que a pessoa sonâmbula estava possuída por um demônio, que usava seu corpo enquanto dormia para fazer o mal; “aquilo”, que caminhava pelos corredores, não era a minha esposa.

Depois daquela noite, passei a evitar Annabel que, em vão, tentava falar comigo, me chamava, batia à porta da biblioteca até se cansar e desistir. Nessas ocasiões eu podia ouvir seus soluços enquanto se afastava correndo, para chorar no quarto.

Na minha mente ignorante, Annabel era um monstro. Cheio de receios e sem coragem para enfrentá-la e descobrir se ela tinha conhecimento do seu “estado”; comecei a passar o dia todo fora, cuidando dos negócios e quando voltava, me trancava na biblioteca, onde passava as noites bebendo, afogando meus temores em álcool; eu queria esquecer, dormir, encontrar uma solução, mas sabia que nada adiantaria e de madrugada ouvia os passos do monstro andando pelo corredor, descendo as escadas, abrindo a porta e saindo para a escuridão. Isso durou umas duas semanas, se repetindo noite após noite e por estranho que pareça, uma mórbida curiosidade tomou conta de mim e então passei a segui-la para saber onde ela ia e isso se tornou uma obsessão. Utilizando um pequeno lampião, eu ficava de longe, vendo Annabel caminhar pela frente do casarão, passar pelo jardim e se dirigir ao pântano, onde ficava parada, olhando para o nada com aqueles olhos brancos e vazios por um longo tempo, até que simplesmente voltava, entrava e ia para a cama.

Mas tudo mudou naquela noite fria e fatídica: como de costume, Annabel saiu e eu a segui, ficando a uma certa distância para que a luz do lampião não a acordasse; ela caminhou normalmente até a margem do pântano, só que, em vez de parar, continuou andando, seus pés afundando na lama fétida; as águas escuras do pântano foram rapidamente envolvendo seu corpo, ela não acordava e nem tentava resistir. Assustado, corri para salvá-la, só que, ao me aproximar, vi seus olhos brancos e ouvi o terrível rosnado, agora transformado num gorgolejo gutural por causa da água que engolia, então estaquei e fiquei ali, tremendo, apenas observando enquanto ela se afogava, seus cabelos loiros ondulando na lama até afundarem por completo. Como se despertasse de um pesadelo, ao ver que seu corpo tinha sigo sugado por aquelas águas fétidas, mergulhei no pântano, arrastei Annabel para a margem e em vão, tentei ressuscitá-la, gritando seu nome, batendo e sacudindo seu corpo, mesmo sabendo que ela já estava morta.

Acordados por meus gritos de desespero, os empregados vieram correndo e me fizeram largar o corpo de Annabel e já desfalecido, me arrastaram para o casarão e chamaram a polícia.

Não me recordo de nada referente ao inquérito policial (só mais tarde fui informado que a morte foi considerada acidental), porque a friagem daquela noite, o choque emocional e a sujeira da lama, me deixaram de cama por duas semanas, com febre altíssima e delírios. Também, para a minha tristeza, não pude ir ao enterro de Annabel, a mulher que eu maltratei com minha indiferença e ignorância, descumprindo meus votos de amá-la e protegê-la até que a morte nos separasse. Ela agora jaz numa tumba fria, em sua cidade natal, naquele cemitério antigo e horrível, próximo ao mar.

No início, enfrentei o luto com dignidade, mas, pouco a pouco, a culpa foi me consumindo e novamente me entreguei ao álcool, que ingeria com os barbitúricos para os nervos que o médico me receitou. Abandonei os negócios e passei a viver trancado na biblioteca, bebendo até apagar. Meus empregados foram embora e o casarão se tornou um lugar sujo, frio e infestado de ratos.

Numa noite, despertei com um estranho som vindo do corredor: era um barulho de água escorrendo, como quando você tira um casaco encharcado e a água vai caindo no chão; me aproximei da porta, toquei na maçaneta e foi aí que eu ouvi um rosnado alto e gorgolejante, como se um monstro estivesse se afogando e me afastei imediatamente. Mesmo aterrorizado, eu sabia: Annabel tinha voltado para me buscar… Olhei para o chão e vi uma água escura entrando por baixo da porta; um líquido grosso e com cheiro forte de decomposição, aquilo foi me deixando tonto, me sufocando, até que perdi os sentidos.

Acordei na manhã seguinte acreditando que os acontecimentos da noite passada   eram somente pesadelos, provocados pelo excesso de álcool e barbitúricos. Assim que abri a porta da biblioteca e espiei para fora, descobri que estava errado: havia uma trilha de lama fétida que seguia pelo corredor e terminava no jardim.

E aquilo voltou a se repetir por incontáveis noites, eu vivia em pânico, não comia, não me banhava, estava entregue ao medo e ao desespero e sabia que não podia mais viver daquele jeito e então, tomei uma decisão: quando ela viesse novamente, eu me entregaria.

Aguardei ansioso o momento da chegada de Annabel e lá pelas três horas da manhã, pude ouvir seus passos enlameados subindo as escadas, e como sempre, ela ficou parada na porta, esperando.

“Espere aí, minha amada, logo estarei com você!! Seremos felizes na morte!”– digo bem alto, assustado com o som da minha voz, há tanto tempo muda de desespero.

Agora, me despeço como um homem livre.

Não peço que me perdoem, só que me esqueçam, minha história não merece ser contada! Até nunca mais, Annabel me aguarda!

Assinado: Augusto Lee


”Ah! bem me lembro! bem me lembro!

         Era no glacial Dezembro;

Cada braza do lar sobre o chão reflectia

         A sua ultima agonia.”

O Corvo – Edgar Allan Poe

2 respostas em “CONTO: A CONFISSÃO”

Conheço o trabalho da autora. Contista por excelência. O universo abordado no contexto da narrativa, foi comovente.

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