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CONTO: DISTOPIA ANUNCIADA

DE: ANDERSON MAGALHÃES

E RESQUÍCIOS DE FICÇÃO CIENTÍFICA

Em um futuro não muito distante penso em um passado muito presente: Os seres humanos se tornam cada vez mais frágeis em seus antiquados corpos de carne, osso e dor, e cada vez mais assustados com suas gigantescas cidades de asfalto, metal e fúria. A velocidade das vias expressas oprime o pensamento, não há mais tempo para elucubrar, não há mais tempo para gozar se não com hora marcada. Quem abusar ou se desviar é vigiado e punido. Os corpos têm código de barra, controle remoto e entrada USB. As identidades são invenções do Instagram, ninguém mais pode ser infeliz agora, se não foi postado não aconteceu. As telas exigem nossa atenção e devoram nossa consciência do agora, as luzes cegam, as projeções confundem, os comprimidos de Soma anestesiam sem necessariamente aplacar a dor das almas em ameaça de extinção. As máquinas gritam e as fábricas produzem incessantemente para um futuro de fartura e calmaria que nunca chega. O trabalho nos rouba e o Tempo agora tem um soberano, um Big Brother de visão panóptica, eleito por uma maioria muda que forma filas e aguarda o abismo enquanto devora os detritos e escombros de um passado sem data, deixado por ancestrais cínicos e niilistas, que maquinaram maquiavélicos o suicídio coletivo do planeta. Vestimos armaduras automobilísticas e aceleramos queimando petróleo para não sermos alcançados. Erguemos monumentos falocêntricos para celebrar nossa impotência auto imposta e rezamos para que o deus Google diga nosso destino. Embaralhamos nossas memórias para esquecer e fingir neutralidade. Nos conectamos ao todo para que esse seja nada. Não existe mais o fora da Matrix. Reproduzimos o mesmo para que a diferença seja apenas um slogan. O vingador do futuro foi enforcado em uma fábrica no berço do capitalismo em meio a discursos de progresso infinito. Ele voltou e foi crucificado. Voltou de novo e foi fuzilado. Agora vive como indigente em uma região desolada pelo estouro de uma barragem. E assim aguardamos sentados no sofá o apocalipse e as vezes trocamos de canal para não nos entediamos com um fim tão óbvio. Enquanto isso as baratas observam o desfecho do Antropoceno, ansiosas por sua era de ouro na Terra. 

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