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CONTO: ESPELHO NEGRO

DE: ALLAN FEAR

No silêncio frio da mais negra das noites eu me agarrei a um pedaço fugaz de lucidez e levantei do meu leito.

            Eu cambaleei pela colina cuja névoa fria serpenteava por minhas pernas e voltei para meu lar.

            Eu olhei no espelho em busca de minha face. Mas o cristal recusou-se a mostrar meu reflexo.

            As trevas pareciam dormir no antigo espelho rústico na parede de meus aposentos.

            Onde estava meu reflexo?

            O sabor amargo da incerteza fez estremecer meu ser.

            Então os pedaços de memórias faiscaram em minha mente como fogos de artificio.

            Eu me lembrei da bela morena de olhos verdes que me beijava. Eu vi as presas crescerem rasgando suas gengivas e então ela me mordeu!

            As lembranças ainda me fazem sentir a dor da mordida em meu pescoço. A bela morena sugou meu sangue de forma faminta, roubando minhas forças e fazendo-me estremecer diante de um arrepio estranho e profundo.

            Minha vida se foi com a promessa de seu sussurro de que eu me tornaria imortal como ela.

            É por isso que o espelho não reflete minha face? Vampiros não tem reflexo?

            Mas então um novo pedaço de memória surge pela alcova de minha mente:

            No curto flash de memória borrada, eu vejo um vulto sair das sombras e cravar uma estaca no coração da vampira, para em seguida se voltar para meu corpo, que exalava os últimos suspiros!…

            Trevas, profundas e intensas tal qual a escuridão no cristal do espelho negro. Apenas isso. E não há nada mais em minha mente.

            Estremeço-me diante da fidúcia de que o caçador cravou sua estaca manchada de sangue em meu coração.

            Ergo minhas mãos translúcidas e tenho a certeza de que não sou um vampiro renascido dos mortos, mas sim um fantasma a vagar pelos meus aposentos.

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