CRÔNICA: MÁRIO QUINTANA E O LAÇO

Ao amarrar os tênis, temos duas possibilidades: ou o que fazemos vira um nó, ou vira um laço. O nó segura bem e é difícil desatá-lo, mas danifica o cadarço. O laço, além de não danificá-lo, enfeita o tênis e o segura, de forma mais leve. Às vezes, com pressa, o fazemos tão rápido que ele virá nó. Outrora, o fazemos tão frouxo que na primeira pisada se desfaz.

Assim são as relações que cultivamos. Ao tratar de alguém que não seja eu mesmo, vou cobrar aquilo que não sou, ou aquilo que sou e acho que poderia melhorar. Vou apontar defeitos na área que também tenho. E ao conviver, posso fazer duas coisas: criar uma relação nó ou uma relação laço. A relação nó é aquela que prende, gruda e sufoca. Intolerante e autodestrutiva. Sufoca o amor, gruda na presença e prende com insistência. Ninguém resiste muito tempo, e quem persiste, adoece. Ela danifica o que segura um relacionamento e jamais torna a forma original. Já a relação laço é mais cuidadosa. Tem como verbo principal o “cessão”. É um constante compartilhamento e é o viver com o outro, e não para ou pelo outro. É ter ciência de que não somos donos de ninguém, precisamos deixá-lo voar, mas se ele voltar é porque gostou do lugar. Dar essa liberdade aumenta a atração, confere leveza a relação, dissipa idealizações, ameniza discussões e desobstrui traumas.

Não devemos apequenar a vida, por mais breve que ela seja, fazendo nós no cordão existencial. Talvez não dê para desatá-los. Como diria o doce Mário Quintana: “só deixa de ser nó quando virá laço”.

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