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CONTO: O JANTAR

DE: ANA ROSENROT

Odete começou a se arrumar cedo, não poderia de forma alguma chegar atrasada, pois seu anfitrião era um homem muito distinto, um verdadeiro cavalheiro, daqueles que são quase impossíveis de encontrar hoje em dia. Ela ajeitou o vestido de seda, olhou-se no espelho e gostou do resultado; escolhera para aquele jantar especial um traje com uma cor diferente, bonita, “cor de carne” (tinha dito a vendedora); seus cabelos louros encaracolados e a maquiagem discreta também estavam perfeitos, sem nenhum excesso, do jeito que ela gostava.

Sentou-se com cuidado para não amassar o vestido enquanto esperava pelo táxi, acendeu um cigarro e começou a relembrar a festa onde se “esbarraram”: uma das intermináveis comemorações na mansão de seu amigo farrista, o milionário Guinho; que andava meio sumido nos últimos dias, talvez entretido com alguma nova conquista.

A festa estava ruidosa e exagerada como todas as comemorações dadas por Guinho; havia muita bebida, comida e gente desinteressante, numa algazarra que estava lhe dando dor de cabeça. Resolveu então fazer um favor a si mesma e ir embora; com muito custo foi tentando abrir caminho em meio a multidão, que dançava um jazz pessimamente executado por uma banda onde os integrantes já estavam bêbados; quando, no tumulto, foi empurrada e deu de encontro com um homem que gentilmente a segurou para que não caísse, seu toque firme, mas suave e respeitoso, chamou a atenção de Odete para o cavalheiro que a salvara de um tombo e ela não pode deixar de notar sua beleza calma e seus penetrantes olhos azuis que a encaravam diretamente, perguntando se ela estava bem.

― S-Sim…Estou sim…Muito obrigada – respondeu Odete, gaguejando.

― Ainda bem…A senhorita estava apressada, pensei que poderia estar em perigo…Nossa, que distração a minha…Esqueci de me apresentar…Eu sou o Doutor…

 A buzina do táxi tirou Odete de seu devaneio e ela se levantou, calçou os sapatos de saltos altíssimos que havia deixado embaixo da cadeira e correu para pegar o táxi.

Cheia de ansiedade, entrou no carro quase correndo, o percurso até a casa de seu anfitrião demoraria mais de 30 minutos, pois sua casa ficava numa parte afastada da cidade e Odete contava os segundos, nervosa, olhando pela janela enquanto a civilização ficava para trás. Novamente ela começou a relembrar aquela festa que “quase” fora um desastre, mas que terminou com um delicioso e cavalheiresco beijo na mão e um convite para um jantar a dois e agora lá estava ela, nervosa como uma adolescente no primeiro encontro. O carro finalmente parou em frente ao portão de uma casa escura e sombria; Odete desceu e nem precisou tocar a campainha, pois seu anfitrião já estava esperando na penumbra, oculto nas sombras; muito galante, ele beijou suas mãos e exclamou:

— Boa noite, senhorita Odete, se me permite dizer, a senhorita está deslumbrante!!

— Boa noite, Doutor, muito obrigada, o senhor é muito gentil!

— Mas, por favor senhorita Odete, vamos entrar, está frio aqui fora… Fiz para a senhorita um prato especial de Guinho, espero que aprecie o sabor.

 “Um prato de Guinho? Que forma estranha de falar” – pensou Odete. E imediatamente um sinal de advertência surge em sua mente…Aquelas notícias horrendas nos jornais sobre o psiquiatra canibal…Dezenas de vítimas…E ele nunca havia sido capturado…E se for ele…O monstro assassino… E se seu amigo Guinho for o “prato principal” da noite…E ela a comensal convidada para um banquete de horrores…Precisava fugir…Mas como?

Odete estava tão apavorada que só conseguia pensar em como escapar com vida das mãos daquele monstro, quando ouviu, atrás de si, uma estridente e chata voz familiar: era Guinho em pessoa (vivinho da Silva), vindo correndo e rindo em direção ao portão, ele a abraçou e disse:

― Olá Odete…Mas que cara é essa? Parece que viu um fantasma?

― A-Achei que tinha visto mesmo…Você! – falou Odete no ouvido de Guinho – Pensei que esse Doutor fosse aquele dos jornais e que “você” seria o prato principal…Quase fiz um escândalo e saí correndo… Fiquei com tanto medo!!!

― Que isso Odete! O Doutor é um filantropo, um homem conhecido por seus trabalhos sociais e ainda por cima o nome dele é Aníbal com “A”; ele é um pediatra dos bons e digo mais: é vegetariano desde sempre…E meu amigo há mais de vinte anos. Agora que já solucionamos a confusão de identidades, deixo vocês dois a sós, pois eu só passei aqui para ensinar ao bom Doutor uma receita de lasanha de berinjela e já vou indo…Bom jantar para os pombinhos… E Odete, querida, por favor, assista menos filmes de terror e cuidado com as notícias! Odete ficou tão envergonhada, que a cor do seu rosto se igualava a “cor de carne” do vestido, mas o Doutor Aníbal (com “A”) simplesmente ofereceu-lhe o braço, que ela aceitou calada, sorriu e ambos seguiram, aconchegados, um belo jantar (vegetariano) os aguardava e a noite era uma criança.

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