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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: COR DE SOLIDÃO

DE: LORRAYNE SARAIVA

Ninguém imagina que algo importante possa acontecer numa quinta-feira. Velórios, suicídios, batizados, casamentos, são coisas relevantes demais para pertencerem à um mero resto de semana. Todo mundo sabe que sábados são feitos para comemorar aniversários, e domingos, para lamentarmos a morte daquele tio doente, que ninguém nem lembrava mais que ainda estava vivo.

Mas não às quintas-feiras!

Eu estava acordada, naquela madrugada, quando ouvi o som estridente da ambulância perfurar o silêncio profundo daquelas horas. Em minha defesa, eu estava com insônia – e não cuidando da vida da vizinha! Sabem, eu sou uma solteirona, mas também tenho vida!

Bem, está certo, talvez eu também estivesse prestando um pouco de atenção em Hanna, a vizinha, mas eu não era a única! Todo mundo prestava atenção em Hanna, em seu longo cabelo loiro, em seu sorriso aberto, descarado, em seus olhos cor de solidão. Hanna sustentava uma perfeição milagrosamente imperfeita. E nós, moradores veteranos da vizinhança, quase nada sabíamos sobre sua vida. Exceto, que ela era meio francesa, e vivia sozinha. Sua casa era a última da rua; modesta, de tijolinhos vermelhos, ficava exatamente em frente à minha.

Hanna era um sopro de vida entre nós, e ainda que fosse bastante calada, era generosa com seus sorrisos. Via-se que bebia pouco café; os dentes imaculadamente brancos, eram um pouco tortos, mas ela parecia não se importar. 

Ela gostava de conversar com o carteiro, que com frequência lhe levava a correspondência antes de passar pelo resto da vizinhança. É claro, ele também havia sido enfeitiçado por aquela medusa nórdica. Assim como o Sr. Melvin, da casa 3. Um professor tarado que devia ver em Hanna a garotinha que ela havia sido um dia. Ah, e havia também o veterano de guerra, Hoffmann, que mesmo sem um dos braços, sempre se esgueirava e apertava sua bunda quando a via. E Nora, sua esposa, que fervia de raiva quando pegava as travessuras do marido. E, não posso me esquecer do dono da casa que ela alugava, Sr. Martin. Todos apaixonados. 

Na boca miúda, especulávamos sobre seu passado: uma enfermeira, aeromoça, aristocrata rebelde, espiã? Em nossa imaginação, Hanna havia salvado soldados nas trincheiras, inventado a cura de doenças, cruzado o Atlântico a nado. Porém, na realidade, ela chorava antes de dormir, todas as noites. 

Eu a via por minha janela, dia após dia, e por isso já a considerava uma espécie de amiga. Estava fascinada. 

Eu dizia que estava acordada quando ouvi as sirenes de ambulância. Estava preocupada desde as primeiras horas da manhã, ao notar que uma quietude estranha pairava sobre a casa de Hanna. Não a tinha visto se levantar para tomar café, e nem arrumar a cama. De repente, depois do almoço, ouvi vozes alteradas vindo de lá. Então, corri para a janela, e vi um vulto deixando a casa de Hanna. Ele saiu pela porta dos fundos, e desapareceu no quintal do lado oposto ao meu. Hanna subiu de volta para o quarto, e atirou o abajur no espelho da penteadeira. Eu o vi explodir em milhares de pedacinhos, como diamantes voando no ar, estrelas cadentes se desprendendo do firmamento. Tremendo, ela se abaixou e pegou um dos cacos do chão. E, para minha surpresa, aproximou-se da janela, e olhou diretamente para mim. Um pedido de socorro, pensei. Mas, antes que eu pudesse pensar em algo, ela fechou as cortinas, e eu me senti uma invasora descarada de privacidade.

Muitas horas depois, os paramédicos arrombaram a porta da casinha de tijolos, e a invadiram sem piedade. Havia algo de brutal naquele resgate, algo de extrema violência sobre a atmosfera mítica que pairava ao redor de Hanna. 

Ansiosa, de pé na janela, vi quando os mesmos homens de antes voltaram empurrando uma maca. Deixei escapar um grito de pavor, e não consegui conter meu pranto. A conclusão da perícia foi suicídio. Hanna foi encontrada nua na banheira, com os pulsos cortados. 

O amargor daquele evento foi tão grande para mim, que decidi me mudar. Simplesmente era muito doloroso, olhar para a sala azulada, o quartinho rosa, a caixa de correio de Hanna, e não a ver! Em um mês, arranjei outra casa, a dez quilômetros dali. 

Eu ainda pensava em Hanna todos os dias, mesmo que os vizinhos tivessem começado a esquecê-la.

Antes de ir, pensei em me despedir. Fui até sua casa, e toquei a campainha. O Sr. Martin abriu depois de um tempo, e me convidou para entrar. 

Era tudo tão estranho, como estar dentro de um programa de TV! A casa de Hanna ainda estava ali, decorada à sua maneira, com seus móveis, suas coisas. Sentei-me no sofá, enquanto Martin foi até a cozinha buscar chá para nós. Olhei para minha janela, e vista de longe, minha casa não parecia minha, e a sensação de estranheza aumentou. 

Ao voltar com nosso chá, Martin e eu jogamos uma desconfortável conversa fora. “Ela era uma ótima inquilina”, e “Sempre amável com todos.” Em pouco tempo, aquele papo nos cansou, e eu pedi para ir até seu quarto. Martin estranhou meu pedido, mas não se pôs em meu caminho. Sentindo fortemente a presença de Hanna, algo me guiou até lá. 

A singeleza do quarto me comoveu. Parecia o quarto de uma garotinha. Aos pés da cama, os restos do espelho quebrado ainda estavam lá, espalhados por toda parte refletindo o fim de Hanna. Abaixei-me e peguei um caco pontiagudo. Antes que eu me cortasse sem querer, o larguei. Mas, ao ficar de pé, vi o contorno luminescente de Hanna aparecer em cada pedacinho de espelho. Senti um forte arrepio, e uma vertigem. Sem conseguir lidar mais com aquilo, murmurei “adeus”, e deixei a casa. 

Hoje, os ecos daquela terrível quinta-feira ainda são ouvidos dentro de mim, mesmo após vinte e cinco anos. Nunca mais tive notícias de mais ninguém daquela vizinhança. Provavelmente, estão todos mortos, ou beirando os noventa anos. Sim, eu sei que estou acabada também, e que posso não me lembrar onde guardei minhas chaves, ou se tomei meu remédio, mas lembro de Hanna. Perfeitamente. Lembro de sua distante meiguice, e de seu esdrúxulo fim. Até hoje, sonho com os cacos do espelho refletindo a face de Hanna. E a face, envolta pelas brumas do meu inconsciente, mexe a boca e fala algo que não consigo ouvir. Um nome, uma acusação!

Hanna, você se calou para sempre? Oh, se eu não fosse tão velha, e tão covarde, eu poderia confessar que, na verdade, eu a matei, em um surto que não sou capaz de explicar. Me perdoe, e não me persiga mais! Há duas formas de contar uma história: falsamente e mais falsamente. Quem poderia dizer…?

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