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CONTO: O SONHO

DE: ADAM MATTOS

Claudinho tinha onze anos e sonhava ser jogador de futebol. Palmeirense fanático, não perdia um jogo sequer do Palmeiras na televisão e tinha os pôsteres emoldurados de campeão da Copa do Brasil de 2015 e o de Campeão Brasileiro de 2016 — os dois títulos que ele havia visto o time conquistar — na parede. Claudinho tinha uma irmã mais nova, de nove anos, com quem ele brincava de driblar pela casa, sob protestos dela e da mãe, que temia que ele quebrasse alguma coisa. Ele queria um dia jogar no Palmeiras, mas o seu maior sonho mesmo era conhecer o Allianz Parque, sentir a emoção da torcida, gritar “Meu Palmeiras, Meu Palmeiras” durante o Hino Nacional. E o menino não falava em outra coisa, estava inclusive juntando dinheiro em seu porquinho para ajudar a pagar a viagem.

Claudinho morava em Londrina, seu pai era policial, e a mãe médica, portanto, a falta de dinheiro não era o impeditivo para que seu sonho se concretizasse. Sempre que ele pedia aos pais, os dois prontamente diziam “um dia a gente vai, meu filho”, mas esse dia nunca chegava. Os pais não eram ligados em futebol, então não davam importância a obsessão do garoto. Com muito custo, ele os convenceu a assinar o programa mais barato de sócio torcedor do time para que ele pudesse contribuir com a sua paixão. Quando os pais, ou qualquer um, perguntava a ele de onde vinha esse amor todo pelo Palmeiras, ele costumava dizer que não escolheu o Palmeiras, mas que o Palmeiras o escolheu, e complementava com uma frase de Joelmir Beting: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”. As pessoas riam e achavam bonitinho, mas não levavam a sério o amor que ele sentia pelo time, e isso o frustrava profundamente.

Certo dia, Claudinho acordou cedo, arrumou uma trouxinha de roupas dentro da sua mochila da escola e saiu escondido, ele iria para São Paulo de carona, e chegando lá, contaria a sua história para alguém do estádio e eles o deixariam assistir a um jogo. Ele quebrou seu cofrinho, contou as moedas, tinha cento e cinquenta e três reais e alguns centavos, entrou escondido no quarto do pai, e pegou da carteira dele mais duzentos reais. Com essa quantia ele achava que dava para comprar comida e o que precisasse para chegar até lá, e se desse sorte com as caronas, poderia até, quem sabe, sobrar dinheiro para um ingresso.

Ele desceu pelo elevador com a mochila nas costas às cinco da madrugada, passou despercebido pelo porteiro, que dormia, e seguiu andando a pé em direção à avenida principal, onde iria pedir carona até a rodovia. De lá, ele tentaria, com algum caminhoneiro, ir até São Paulo. Se ninguém o levava a sério, ele iria sozinho.

Ele tinha passado uns quarenta minutos sozinho, no escuro, com o polegar em riste em busca de uma carona, quando um carro em alta velocidade veio em sua direção e parou abruptamente, quase derrapando à sua frente. Ele conhecia aquele carro. Quando o motorista desceu, ele reconheceu o seu pai se debulhando em lágrimas, seguido pela sua mãe, chorando compulsivamente. Eles correram em sua direção e o abraçaram forte, como se não o vissem há uma década.

— O que você está fazendo aqui, filho? — perguntou o pai, soluçando.

— Estou indo pra São Paulo assistir a um jogo do Palmeiras.

A mãe deu um grito de espanto, enquanto o pai começou a rir de nervoso, ainda chorando.

— Filho, não dá pra você ir pra São Paulo de carona. Você ficou maluco?

— É o único jeito. Ninguém me leva a sério, só ficam me enrolando. E se eu morresse sem nunca ter visto o Palmeiras jogar?

Aquela frase tocou o coração do pai, que ainda, sem largar o filho, fez uma promessa.

— No teu aniversário de doze anos, daqui a um mês, vamos todos pra São Paulo. Eu prometo. Vamos comemorar lá, nós quatro, assistindo a um jogo. Que tal?

— Sério??? — perguntou o menino, dando pulinhos de alegria.

— Sério — respondeu o pai.

A semana seguinte passou uma maravilha. O alívio de ter achado o filho em segurança foi tão grande, que os pais nem pensaram em puni-lo, muito pelo contrário, iam acabar de uma vez por todas com aquela obsessão que tinha se tornado conhecer o mais belo estádio do mundo, como o filho costumava se gabar.

Depois de alguns dias, o pai chegou a casa com um envelope na mão e perguntou direto para o filho:

— Sabe o que tem aqui?

— O quê?

— É o teu presente de aniversário.

Claudinho, sem se conter, correu em direção ao pai, deu um abraço e pegou o envelope da mão dele. Assim que ele o abriu, viu quatro passagens aéreas, ida e volta para São Paulo, e quatro ingressos para Palmeiras X Grêmio para dali duas semanas. O garoto não sabia o que fazer de tanta alegria. Ele abraçava o pai, a mãe, a irmã, que não sabia direito o que estava acontecendo, corria pela casa gritando que ia ver o Palmeiras de perto, que iria conhecer o Allianz Parque. Sem dúvida, aquele era o dia mais feliz da sua vida.

Os dias que se sucederam foram só de alegria na família, Claudinho até ajudava nas tarefas de casa, ia para a escola sem reclamar, fazia as lições da escola e obedecia aos pais como se fosse um anjo.

Quando faltava menos de uma semana para a viagem, o pai de Claudinho chegou esgotado do trabalho — tinha feito uma perseguição a bandidos e uma série de papelada burocrática para preencher —, tirou o casaco e o coldre com a arma, colocando-os em cima da mesa e foi direto tomar banho. A mãe estava na cozinha preparando o jantar quando o garoto e a irmã viram a arma e resolveram brincar de polícia e ladrão.

— Eu sou a polícia e você é o ladrão — disse Claudinho.

— Nada disso, vamos no par ou ímpar.

— Ae, ganhei. Eu sou a policial e você o ladrão — disse a irmã de Claudinho.

Ela pegou a arma, tirou do coldre e saiu correndo pela casa, apontando a arma para o irmão. Foi então que um disparo aconteceu e Claudinho caiu no chão, ensanguentado, já sem vida. O tiro atingiu a nuca do garoto.

Os pais foram correndo em direção ao barulho e encontraram o filho morto no chão e a menina chorando com a arma aos seus pés. Todos se ajoelharam em volta do corpo sem vida do menino e choraram.

O pai foi detido pela polícia, mas logo foi liberado, ia responder ao processo em liberdade. A mãe e a irmã eram duas zumbis, não falavam, não comiam, não faziam nada. Claudinho foi cremado e as cinzas colocadas em uma urna na estante da sala.

À noite, olhando para as cinzas, o pai falou:

— Nós ainda vamos levar o Claudinho ao jogo.

— O quê? — disse a mulher

— Nós vamos levar as cinzas do Claudinho ao jogo — disse e começou a soluçar de tanto chorar.

No dia do jogo eles deixaram a filha na casa dos avós, pois agora não tinha mais sentido levá-la, afinal, não era nenhuma comemoração e ela estava muito abalada com o que tinha acontecido. A menina não tinha falado uma palavra sequer desde aquele fatídico dia. Eles embarcaram no avião e partiram rumo a São Paulo. Chegando ao estádio, colocaram as cinzas do filho dentro de um saco plástico e o pai o colocou dentro da cueca, para passar pela revista. Quando estava para começar, o pai pegou o saco, foi o mais próximo que pôde do gramado e espalhou as cinzas do filho no Allianz Parque, o lugar que o filho mais quis conhecer em vida, mas que agora ia viver na eternidade.

12 respostas em “CONTO: O SONHO”

Essa paixão pelo Palmeiras eu já vi em um “guri” que conheço bem , e que teve a felicidade que o Claudinho não conseguiu ! Bela narrativa Adam ! Parabéns !

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