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CONTO: O PRISIONEIRO

DE: ALLAN FEAR

Na calada sórdida daquela noite agourenta onde ao longe uma coruja emitia seu canto, aquele tipo estranho caminhava, meio cambaleante pelo beco imundo, de muros pinchados, que fedia a urina.

O homem gemia, rangendo os dentes enquanto sentia aquela aflição maldita que lhe corroía as entranhas. A dor era real, pesada e parecia pulsar em todo seu corpo.

Mais alguns passos e ele avistou um mendigo, sentado, solitário, tragando um rum barato. Era a imagem da decadência, mas o pobre infeliz parecia tirar proveito daquela situação desgraçada. 

O mendigo cuspiu uma maldição quando aquele tipo sórdido veio sorrateiro em meio as sombras e tomou-lhe a garrafa de rum.

Mas o ladrão de garrafas não queria um trago daquela bebida quente, pois quebrou a garrafa contra o muro. Deixando o mendigo furioso. Muitas esmolas foram gastas naquele rum.

O homem sentia-se sufocado, um rugido furioso lhe escapou da garganta enquanto ele segurava a garrafa quebrada, com cacos afiados. A garrafa havia se transformado em uma arma mortal. O mendigo temeu por sua vida miserável e deu um passo para trás.  

Era a hora, ele havia chegado no seu limite, não poderia mais suportar aquela situação opressora. Precisava ser forte, determinado, pois a dor, o ódio e a opressão o haviam deixado insano. Havia chegado a um ponto sem retorno. Ele precisava cometer um assassinato. As vozes em sua cabeça repetiam a palavra “assassinato” como uma cantiga funesta.

Então aquele tipo estranho, perturbado, ergueu a garrafa, mas ao invés de atacar o carente miserável sem teto, ele rasgou a própria garganta, fazendo seu sangue vermelho-brilhante esguichar, sujando o pobre e assustado mendigo à sua frente.

Finalmente ele sentia aquela aflição, aquela dor que pulsava em todo seu corpo fluir por seu pescoço.

Ele se sentia como um prisioneiro naquele corpo, uma prisão sem muros. E a medida que seu sangue fluía, aliviando a pressão, cessando sua dor, ele se sentia liberto à medida que sua visão ficava turva e ele se entregava aquela doce e profunda escuridão que, para sempre, o estava libertando daquela decadente prisão feita de carne e ossos.

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