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CONTO: A VOZ DO VENTO

DE: LORRAYNE SARAIVA

O fino vidro de minha janela não é capaz de aguentar uma forte ventania. Quando o vento se põe a gritar, e a soprar violentamente árvores, muros e latas de lixo, encolhida na velha cadeira de balanço, temo que a casa inteira possa destruir-se, como se fosse feita de papel, e então sair voando pelos ares.

Mas há algo que, jamais revelei a ninguém; em parte porque estou convencida de que se trata apenas de minha imaginação, e pois temo ser considerada insana: eu converso com o vento.

Não me lembro de como começou, quem sabe em minha primeira infância onde eu alimentava meu gracioso espírito catando conchinhas na beira do mar. Sei apenas que, em dado momento, tornou-me perfeitamente compreensível a voz do vento; o que ela queria, o que dizia, do que se lamentava.

Percebi que eu era a única que poderia entender aquele idioma inumano. E isto, à princípio assustou-me. Hoje em dia, porém, me agrada de uma forma suave, e eu me sinto delicadamente especial.

Houve uma época em que, eu e o vento tínhamos agradáveis colóquios por horas. Conversávamos sobre nascimento e morte, e sobre tudo o que acontecia no meio. Eu falava sobre minhas experiências, sobre os que tinha amado, os que tinha odiado, e sobre os que haviam me ferido; doce e compreensivo como um irmão, o vento me ouvia, dispunha-se a dar-me conselhos, e até algumas piadas e anedotas me contou.

É claro que, como conversávamos amiúde, não tardou até que as primeiras brigas e discussões surgissem; mas até nossas desavenças eram calcadas em carinho e cuidado. O vento e eu sempre fomos muito cúmplices.

Mas eis que segui minha vida, arranjando emprego, um marido, e outros amigos: esses de carne, osso e carteira de identidade. E acabei por deixar o vento um pouco de lado. 

Mas sei que ele sempre esteve comigo: em meu casamento, no momento da festa, uma forte ventania quase fez voar as cadeiras e mesas da recepção. Assim também foi quando Cecília, minha primeira filha, nasceu; uma ventania quase pôs a cabo as barracas da feira em frente à maternidade. Quando consegui meu primeiro emprego foi igual: um forte vento me saudou na entrada da empresa, em meu primeiro dia.

E eram nesses momentos, onde meu velho companheiro se fazia notar, que eu sabia que apesar de nosso distanciamento inevitável e natural, ele estaria sempre ali. Sempre em minha vida. Sempre em meu caminho.

Hoje sou uma velha. Uma anciã de profundas rugas em uma tez rosada, e enormes bolsas debaixo da opacidade de meus olhos. Meu marido faleceu há muitos anos, mas Cecília vem com frequência visitar-me trazendo os meninos, meus netos.

Um dia, Daniel, o mais novo, veio sentar-se em meu colo, e com certa timidez, disse que precisava muito contar-me algo. Não me fiz de rogada, e perguntei logo o que era. “Um recado do vento para a senhora”, disse em tom de confissão, “Ele disse que já está na hora de você ir encontrá-lo pessoalmente.”

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