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CONTO: OREMOS

DE: ALLAN FEAR

1

Eu olhava para meu reflexo no espelho e apenas a feiura me encarava de volta.

            Meus pais queriam que eu fosse uma garota alegre, mas até meu sorriso era triste. Meus olhos expressavam uma melancolia profunda que habitava em minha alma.

            Eu cresci seguindo os passos de outras pessoas, tentando me enturmar, ser uma garota normal.

            Os garotos não gostavam de mim. Zombavam da minha pele pálida como um fantasma.

            Eu tentava me bronzear, mas o sol me queimava com seu fogo terrível.

            Nas paredes minha sombra parecia me observar.

            O soprar do vento parecia sussurrar frases sórdidas em meus ouvidos.     Mas eu tentava ignorá-las. Eu tentava ser normal na sociedade de sorrisos falsos.

            As trilhas incertas da minha vida estranha me conduziram para um convento.

            Eu me senti bem dentro do hábito, sua cor negra me agradava. Fiz meus votos e tornei-me uma freira.

            Mas as orações eram para mim um suplício. A hóstia queimava minha língua e o terço me causava alergia.

            Na parede de meu quarto a cruz pendia de lado até ficar invertida.

2

A noite as trevas pareciam possuir meu corpo, brincando com meus desejos e fantasias proibidas.

            Mas eu lutei contra a tentação de satanás.

            Eu disse não ao diabo e seus anjos caídos.

            Eu honrei meus votos. Fui uma serva do senhor. Deixei-me ser a ovelha e fui guiada.

            Eu não sucumbi diante do pecado que profanou muitas de minhas irmãs, fazendo-as abandonar o hábito e se entregar aos prazeres da carne.

            Eu orei, mesmo que as palavras ditas queimassem meus lábios.

            Por fim o dia chegou, e no auge de meus 65 anos, uma doença fatal ceifou-me a vida.

3

Tão logo desencarnei e meu cadáver, que tombado ante a imagem do arcanjo Miguel, eu vi com mais clareza e o céu se abriu diante de mim, fazendo sua luz brilhante cegar-me.

            Dos céus um anjo desceu ante o som das trombetas e clarins e arrebatou-me em espírito com vossa luz radiante.

            Fui levada ao céu dos eleitos onde jardins inefáveis se estendiam vastamente.

            Mas diante da presença de Deus fui dizimada por sua luz terrível, e então, enquanto minha alma era desintegrada, eu soube que aquele não era um lugar para mim.

            Eu compreendi em meu tormento pavoroso que eu era um ser das trevas que reneguei minha essência sombria.

            Agora era tarde demais para arrependimentos, afinal a luz, que tanto busquei para mim, não representava minha salvação, e sim a perdição eterna uma vez que quando as trevas se tornam luz, sua essência é completamente perdida…   

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