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Contos Ulisses Andrade

CONTO: LIBERDADE VIGIADA

DE: ULISSES ANDRADE

Amanheceu e o frio tomava conta da minha alma, pois meu corpo já havia chegado ao limite da dor. A fome nem era mais tão intensa, tal tamanho meu estômago fora reduzido. Naquele momento dei conta que era hora de partir. Talvez fosse hora de chegar, mas para se chegar necessita um onde. E nós não temos onde. Não temos porquês. Não temos nada. Caminhamos por quilômetros, revezando as poucas garrafas de água que tínhamos. A dor era o sentimento que nos unia. Pela mesma dor éramos irmãos, filhos, pais. Pela mesma dor éramos amigos. Pela mesma dor éramos psicólogos uns dos outros… E em cada ponto feito de encontro mais de nós havia. Muitos em um. Pelo caminho ficavam dezenas já que Deus resolvera quem deveria sofrer menos. Seus corpos eram largados no caminho junto à solidão. Restava-nos apenas agradecer a cessação daquele tormento. Algumas orações em tom baixo, às vezes em silêncio para poupar um pouco de saliva. Não havia lágrimas. Seria muita coragem desperdiçar qualquer estabilidade do corpo. E somos covardes, fugimos. A mente seguia lisa e insana. Emendar um pensamento em outro tornava os passos menos vulneráveis. Passos retilíneos. Passos lentos. Passos determinados. Passos em vão. Em frente, enfim, uma estação de trem. A pulsação de um coração que bate em conjunto, de pés que caminham em compasso, de vontade que vai à frente. É chegada a hora, mas não há trem. Somente olhares furiosos de soldados que cultivam o ódio pelo nada. Pela defesa da nação. Pelo ideal de um governante. Pela ignorância de um povo. Não se aprendeu nada com o horror do holocausto. Nós seguimos em frente em busca de um solo de paz onde possamos viver nossa vida, trabalhar e ganhar nosso pão e dos nossos filhos. E, quem sabe, dividir com outros que precisem mais que nós. Eu tinha um nome, mas esqueci durante o calvário. Talvez eu nem precise dele para ser enterrado como tantos outros indigentes. Eu não fiz a guerra mas me tornei um guerreiro. Pela vida. Não precisamos de sobrenome pois se o temos, depende de qual, morremos. Meu nome é homônimo de tantos outros pelo mundo: Refugiado.

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