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CONTO: DENTE-DE-LEÃO

DE: ANA ROSENROT

Eu estava com muita pressa, tinha centenas de coisas para fazer, inúmeros clientes para visitar e pouquíssimo tempo, andava pelas ruas quase correndo, lutando para me movimentar rápido em meio ao enorme fluxo de pessoas, o coração acelerado e a cabeça doendo devido ao estresse – o grande mal da vida moderna −; quando o vento, que espalhava poeira por todos os lados, fez pousar em meus óculos algo muito interessante: sementes de dente-de-leão.

Peguei uma delas e ao ver aquela sementinha tão linda e aerodinâmica, a penugem branquinha e incrivelmente leve, recordei imediatamente de minha infância, quando colhia uma daquelas bolas brancas e um simples assopro desfazia-se em dezenas de paraquedas imaginários, prontos para viverem incríveis aventuras pelos quatro cantos da Terra.

Pensando bem, somos como as sementes de dente-de-leão, nascemos protegidos por nossa “planta” mãe e pouco a pouco vamos nos desenvolvendo, tentando sair do invólucro natural que nos mantém afastados das intempéries da vida, loucos para expor-se completamente à luz do sol e todos vão se preparando o melhor possível, até o grande momento de alçar voo e dar o máximo de si para pegar os melhores ventos e buscar um local adequado para germinar e crescer; muitas caem no asfalto duro, na terra infértil, sobre os arranha-céus, ficam grudados nas roupas – ou óculos – de alguém, podendo ser novamente levadas pelo vento se forem persistentes, ou simplesmente ficam presas nos desvãos da rua até secarem; poucas encontram o lugar e as condições ideais para se desenvolver com plenitude.

Nós, seres humanos, também somos assim, uns se esforçam e vencem na vida, outros não. O problema é que, ao contrário da semente de dente-de-leão, quando finalmente atingimos nossos objetivos, em vez de florescermos, parece fazer parte da natureza humana o oposto: vamos murchando, perdendo o interesse, ficando estagnados. Eu mesmo, que lutei tanto para alcançar o sucesso e agora vivo estressado por ter tantos clientes e não saber administrar bem meu tempo; estou sempre irritado, nervoso, vazio, sem coragem para tomar novas iniciativas. Mas estranhamente, as sementes que grudaram em meus óculos, reacenderam a chama, o desejo de ir mais longe, de recomeçar, de procurar novos caminhos.

Não é à-toa que no Nordeste Brasileiro essa planta é chamada de “esperança” e deu origem a um sábio dito popular:

“Abre as janelas e deixa a “esperança” entrar na tua casa trazida pelo vento da tarde”.

Devemos deixar que essa semente germine em nossos corações e reinicie seu ciclo natural, para podermos alçar voos cada vez mais longos, mais altos, infinitos, cheios de…esperança.

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