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CONTO: O VELÓRIO DE DONA CACILDA

DE: ADRIANO BESEN

Em uma cidadezinha do interior, que prefiro não citar o nome, aconteceu algo bizarro. Uma mescla do macabro com o cômico. O assunto está relacionado ao falecimento de uma senhora, a dona Cacilda. Ela foi uma das primeiras moradoras da cidade; morava em uma casinha velha de madeira caindo aos pedaços. Dona Cacilda era uma pessoa de difícil convivência, ela era mal-humorada, rabugenta, grosseira e criava caso por qualquer coisa. Por esse motivo, não era uma pessoa muito querida na região. Não se dava bem com as pessoas e frequentemente, brigava com os vizinhos ou qualquer um que a contrariasse.

Os parentes de dona Cacilda não tinham qualquer apreço pela velha; por outro lado, ela também não fazia questão de ser paparicada pela família. Ela vivia só, amargurada e de cara sempre fechada. A velhice avançou sem piedade e um dia, de repente, dona Cacilda morreu; ela tinha 102 anos de idade. Ficou decidido que o seu corpo seria velado em sua casinha mesmo. A funerária foi acionada pela prefeitura da cidade que pagou pelo caixão. Os familiares de dona Cacilda, mesmo sem muita vontade, prepararam o velório.

O interessante foi que mesmo diante da impopularidade de dona Cacilda, praticamente todos os moradores da cidade e todos os seus parentes vieram ao velório. Desconfio que o que as pessoas queriam era ter a certeza de que a velha malcriada tinha morrido mesmo. Para velar o corpo, foram retirados todos os móveis da sala da casa e lá, no centro do recinto, sobre pedestais, foi colocado o caixão com o cadáver da dona Cacilda. Algumas velas foram acesas.

As pessoas foram chegando e se aglomerando na sala, ao redor do caixão. O lugar mais parecia uma feira, muitos conversavam alegremente, se escutava gargalhadas, outros bebiam cerveja e uísque, enquanto petiscos eram oferecidos para os presentes. Tinha até música. O velório da dona Cacilda estava mais parecendo uma comemoração; afinal, ninguém suportava aquela velha repugnante. Todas as pessoas ali presentes tinham pelo menos uma história desagradável para contar, onde haviam vivido alguma experiência de atrito com a velha.

O animado velório foi seguindo noite adentro e quando deu meia noite, algo muito estranho aconteceu; o assoalho da sala cedeu se quebrando e todas as pessoas caíram umas sobre as outras. Uma parede da sala também desmoronou sobre as pessoas, rompendo os fios da rede elétrica e deixando todos no escuro total. O caixão virou, derrubando o corpo da velha, que saiu rolando pelos escombros. As velas se apagaram ao caírem dos candelabros. Parecia que a casa ia desmoronar por completo; as pessoas se acotovelavam e se pisoteavam, e muitos caíram sobre o cadáver ou pisaram na velha morta. Foi uma gritaria generalizada; tanto os homens, quanto as mulheres e até crianças, todos estavam apavorados. Muitos choravam de medo.

O que era para ter sido um velório, na verdade, estava sendo uma espécie de festa e de repente, acabou se transformando em um show de horrores. Todos abandonaram o local às pressas, achando que alguma coisa sobrenatural estava acontecendo ali; talvez fosse uma vingança da velha morta. Alguns ousaram dizer que aquilo que estava acontecendo se tratava de um evento paranormal conhecido como Poltergeist. Todos fugiram, deixando o cadáver da velha abandonado no meio dos entulhos.

Somente no outro dia, funcionários da funerária e da prefeitura, criaram coragem para ir até o local recolher o corpo de dona Cacilda e leva-lo ao cemitério. A velha foi enterrada o mais depressa possível. Ninguém quis comparecer ao sepultamento, nem os moradores da cidade e nem os próprios parentes da velha. Todos estavam traumatizados com o que tinham vivido na noite do velório. Queriam esquecer aquela noite de terror.

A casinha de dona Cacilda, que estava quase desmoronando, anos depois, ainda continua lá. Permanece da mesma maneira que foi deixada na noite em que todos fugiram correndo do velório. Ninguém jamais teve coragem de ir morar naquele local. Mesmo os parentes que por lei herdaram a propriedade, se negam a ocupar o espaço. Pretendem vender; mas não tem quem queira comprar também. Estaria o local amaldiçoado pela velha Cacilda? Quem teria coragem de morar naquele lugar? Eu é que não vou me arriscar.

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