CARTA AOS MEUS BISNETOS

Olá! Quem vos escreve é seu bisavô. Provavelmente vocês não me conheceram, estou aqui em 2020 escrevendo para lhes contar algumas coisas. Eu também não conheci meus bisavós! E um dos meus avôs morreu antes de eu nascer. Só vi uma foto dele quando eu já tinha completado 45 anos. As coisas eram bem diferentes no passado, não havia muitas fotografias, registros, internet, quase nada em termos de memórias. Alguns tinham televisão, mas nem era o caso dele, talvez. Enfim, vou falar de mim: eu estou levando uma vida de conduta lícita, moral e ética, pensando em vocês. Nossa atualidade é bem interessante e complexa, as comunicações são feitas em tempo real, sabemos o que acontece no mundo todo em alguns minutos. Vivemos tempos difíceis, vemos nosso País ser sucateado, a pobreza aumenta a cada dia (há vários anos seguidos); não vi tempos tão difíceis em toda a minha vida (estou com 50 anos hoje). Falta saúde pública para as pessoas, não se tem amor à vida, ao próximo e a quase nada, a não ser ao dinheiro. A corrupção tomou conta de tudo, todo mundo quer levar vantagem, pobre povo que o faz para perder menos. Existem pessoas em condições subumanas de vida e quase ninguém liga! Pessoas passando necessidades básicas, morrendo em corredores de hospitais à espera de tratamentos. Existe uma classe culpada de tudo isso, ela se chama “políticos”. Mas pasmem, são eleitos por nós mesmos, à custa de falsas promessas. Em sua maioria, quase absoluta, são seres que não devem ter se originado em nossa terra, tratam-se de pessoas sem escrúpulos que roubam a cada dia o sonho da vida, de uma vida mais justa. Embrenham-se em viagens luxuosas com regalias de sheiks. Esbaldam-se em bebidas e comidas importadas, festas, carros extravagantes, mulheres e por ai afora. Banham-se em piscinas com maravilhosas cascatas cristalinas enquanto muitos não têm água potável para beber. O consumismo tomou conta do mundo. Poucos desfilam com altíssimas riquezas e muitos o fazem com suas riquezas falsificadas. Não há ética, desde o gari de rua que cobra propina para levar um material tóxico ao primeiro terreno baldio que encontrar até as grandes empresas que compram as leis e a (des)ordem. É o País da carteirada (forma de se apresentar mostrando algum documento que dê autoridade para se burlar as leis), da famosa frase “você sabe com quem está falando?” e da lei da vantagem. Não importa se alguém será prejudicado, importa em levar vantagem de alguma forma, qualquer que seja. Na minha humildade e simplicidade caminho alternando em usar a mesma calça por dias seguidos e lavá-la somente aos finais de semana. Não é importante. Mas sigo de arma em punho (no caso minha caneta – ou melhor, o teclado do meu computador) lutando por um País melhor. Mesmo que em desvantagem, não abro mão da ética. Nem dos meus valores. Sigo os bons princípios morais a mim ensinados. Estudo algumas horas todos os dias. Sou passado pra trás muitas vezes, mas isso não muda minha trajetória. Prezo o meio ambiente e defendo as minorias. Defendo os animais e toda a forma de vida. Mas somos poucos. A grande maioria fala, mas não age. Como se diz no meu tempo (talvez por ai no futuro ainda restem alguns bordões do passado) “falar até papagaio fala”. Aliás, vou explicar “papagaio”: Uma ave verdinha, muito bacana, domesticada. Vítima de tráfico de animais, provavelmente vocês não a conhecerão, talvez só por fotos, pois vamos destruir quase toda a natureza e as espécies. E sabe por quê? Tudo pelo dinheiro. Já desmatamos grande parte do planeta e acreditem, todos por aqui sabem que necessitamos das árvores para respirar. Temos uma área que é considerada “o pulmão do mundo”, mas aos governos (daqui) não interessam preservá-la. Destruí-la, em nome do progresso é mais rentável. E traz muitos mais votos. Amazônia é como a chamamos, talvez a vejam em mapas aí no tempo de vocês. Provavelmente impressos com papéis vindos dela, serão as últimas lembranças… Afinal, os prédios e as piscinas necessitam de espaço. As churrasqueiras de carvão. E nosso bel prazer de carne, seja ela de qualquer espécie. Um dos motivos para devastar a Amazônia, envergonhado, lhes digo: espaço para criar cada vez maiores rebanhos de gado e continuarmos a carnificina da qual somos orgulhosamente (?) um dos líderes mundiais – a matança cruel, desnecessária e indiscriminada de animais, que padecem dia após dia, até a hora de seu descanso final. Quanto mais rara for a carne, mais cara. Praticamos crueldades com gansos (outra ave que talvez não venham a conhecer) – os engordamos exaustivamente para produzir uma iguaria intitulada de “foie gras”. Uso verbos na primeira pessoa do plural, não porque eu consuma esses produtos, mas porque faço parte dos covardes que apenas são contra. Eu não destruo árvores, pelo contrário, tenho até plantado algumas, mas nada faço para combater a destruição. Sou culpado também. O que posso escrever a vocês é sobre a minha indignação pela nossa incompetência em proteger o mundo que ficará para as futuras gerações. E pedir as mais sinceras desculpas além do perdão de vocês.

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