Categorias
Poesia Stéphannye Cascas

POESIA: PARALISIA

DE: STÉPHANNYE CASCAS

Não é de dia que ela vem.

Agora com os pensamentos desanuviados

e os olhos bem abertos, 

é a luz morna da manhã que me contém.

A dor no corpo é recente

como se fossem mil facas 

perfurando e rasgando 

os contornos da minha mente 

O que o café pode oferecer eu já sorvi,

agora é esperar.

A cafeína faz seu trabalho,

eu a vejo desaparecer enquanto sorri 

Há sete meses ela me visita,

há sete meses desperto em puro terror

da voz e das mãos odiosas,

em volta da minha garganta que grita 

Como retomar a rotina normal?

Se preciso lutar no meu descanso,

se meus olhos fechados

é o leito deste animal?

O trabalho da vida miserável já não existe, 

o dinheiro dos buracos pútridos do colchão se foram, 

A ideia de família está morta,

e as baratas pegajosas é o que persiste. 

Mas esta será a última noite que isso vai continuar. 

Não me importo com meu corpo

ou minha salvação, 

ela que pegue, que retalhe, que beba meu sangue até se fartar

A menos que eu consiga ficar de olhos abertos,

a menos que eu espanque e expulse o sono, 

a menos que a terra não gire e noite não chegue, 

são os únicos golpes certos. 

Com meus olhos fixos na parede mofada, 

os estalos da casa prenunciam a noite, 

as larvas de mim se aproximam 

e assisto a carne da minha cadela ser devorada. 

Me encaminho até o quarto

com passos lentos e irregulares, 

me jogo na cama que range 

chorando pelo fim do meu ato 

Fecho os olhos sabendo o que vem. 

Chegue mais perto, demônio lindo,

deixe-me ouvir seus passos, 

mas ouço meu medo também. 

Mal a inconsciência me atinge, 

assisto sua silhueta surgir na porta, 

peitos, pernas e bunda, 

que mulher do diabo me aflige!

A volúpia dentro de mim cresce, 

ao ver sua pele pálida e branca, 

olhos negros, 

mamilo rosa que entumece. 

Os cabelos negros já me tocam a cara, 

lá de cima ela me olha,

encaixando suas coxas, 

enquanto meu coração quase para. 

Sua boca vermelha se abre 

mas não há humanidade nela, 

uma língua de cobra sai 

com algo viscoso que arde.

Seu sexo fétido devorará meu membro,

em questão de segundos,

sem hesitar, 

penso no prazer e na morte que entro.

Assisto meu reflexo nos seus olhos

A unha pontuda e comprida

me atravessa a goela, 

enquanto esperneio e choro. 

Ela sabe que essa será a última noite. 

Tomou minha família,

minha sanidade,

já vejo a morte com sua foice. 

O amanhecer não chegará 

nem o sofrimento,

nem o pulsar, 

nem a vida para desbravar.

Ela não vem de dia, 

é a noite que a carrega

enquanto me extirpa fatalmente, 

percebi que agora é que dormia.

Deixe uma resposta