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CONTO: TEMPESTADE

DE: GABRIELA LEÃO

A chuva está vindo.

Não faço nada no momento. Deito no chão, sob o tapete que colocamos no meio da sala e fico olhando pela janela. Esperando. Desse ângulo, não consigo ver prédios, nem postes, nem fios, nem nada que me lembre do resto da humanidade. Deitada assim, só o que consigo enxergar pela janela é um pedaço céu. 

Está escurecendo. 

O azul está ficando escuro, a nuvem negra se aproxima. Trovão. Parece que vai ser pesada. Melhor assim, chuva leve não me diz nada. Chuva leve é aquela que não atrapalha quando precisamos fazer alguma coisa banal, como: comprar pão, levar o cachorro para passear ou pegar ônibus. É normal, de todo dia. A chuva pesada não se deixa ignorar. 

Os primeiros pingos batem no vidro. 

Eu tinha fechado a janela. Ficou abafado. Mais um trovão. O som me envolve e o barulho da chuva chega com força. No último temporal, estávamos deitados juntos. Mas não tenho tantas memórias assim de você na chuva. Não são várias cenas que chegam à minha mente com nós dois debaixo d’água. Não é por isso que penso em você. 

É que sempre gostei de dias de chuva, mas tem que ser daquelas chuvas fortes, que dominam tudo. 

A água me abraça, mesmo que eu esteja protegida por um teto. O barulho, os pingos no vidro da janela, nas folhas da árvore que chega até o nosso andar. Os trovões. Todos eles me preenchem, e, se respirar profundo por um momento, desapareço. Sumo, e chego em casa. Não o apartamento onde estou, outro lugar, outro lar. 

Tento alcançar o vidro.

Do chão, onde estou, não consigo nem com o braço esticado. A luz é embaçada do lado de fora, alaranjada, cortesia dos poucos postes da rua. As nuvens negras controlam todo o céu que posso ver. Mas está longe, não é suficiente. Preciso de mais. Em dias comuns, que te vi e sei que verei novamente no dia seguinte, posso só olhar a chuva. Recentemente ficamos tão ocupados. Cada um com suas próprias tarefas.  

Abro a janela.

Coloco as mãos para fora, ficam encharcadas em poucos segundos. Venta, e a água acaricia meu rosto. Invade a sala, mas o pior que vai acontecer é molhar o tapete. Eu preciso do contato, do abraço ainda mais forte e carinhoso. Preciso escutar mais alto. Apoio no parapeito da janela, o rosto inclinado para fora, só um pouquinho. Eu ignoro a vertigem, vale a pena ignorar vertigem. 

Uma trovoada. 

Chuva forte é algo que merece ser admirado. Os pingos batem ainda mais pesados em tudo que encontram pelo seu caminho, bagunçam meu cabelo, o barulho me preenche, e nada passa pela minha mente, só sinto. Inspiro fundo seguidamente. Por alguns segundos não escuto nada além da água. Fecho os olhos, não estou mais aqui. É por isso, ela me leva até você. 

A chuva.

O vento forte, bate gentil no rosto. No fim de tudo, somos apenas pingos de chuva para o universo, mas somos. A chuva me diz que faço parte disso. Está me dizendo que pertenço, que aqui é meu lugar. 

E por isso me lembro de você. O seu abraço, encostar a cabeça no seu peito, respirar fundo, sentir o seu perfume, seus braços me apertando de volta.  Estar em casa. 

Com a tempestade.

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