CONTO: PEDRO E O DEMÔNIO

Morei durante algum tempo em uma cidadezinha muito agradável. Uma dessas cidades pequenas onde todos os moradores se conhecem. Lá era comum eu frequentar todo o comércio local: padaria, supermercado, bar, lojas, posto de gasolina, etc. Uma das primeiras pessoas que eu fiz amizade e gostava muito de conversar, foi com o senhor Pedro, ou simplesmente Pedrão, como era conhecido pelas pessoas do lugar. Nós dois éramos bons amigos e sempre que possível, ficávamos horas conversando. 

Pedrão era chamado assim por ser um senhor alto e forte, musculoso como um gladiador. Apesar de parecer um homem bruto, pelo seu tamanho quase gigantesco, era muito educado, falante, agradável e extremamente simpático. Eu era cliente da sua loja há anos e sempre passava lá para jogar conversa fora e dar muitas risadas das piadas do Pedrão. Ele sempre tinha alguma história engraçada para contar. Eu não sei de onde ele tirava aquelas ideias; era hilariante, a gente ria muito.

Ele era com toda certeza a pessoa mais divertida da cidade. Todos gostavam dele, cumprimentavam e acenavam, como se ele fosse uma espécie de celebridade; e o Pedrão, sempre muito generoso, retribuía o carinho recebido dando atenção a todos. Teve um dia que passei na loja do Pedrão para bater papo e imediatamente percebi que algo não estava bem. Havia um notável clima de baixo astral no ar. Ele estava cabisbaixo, abatido, triste. Parecia estar doente. Ressabiado, eu perguntei se tinha acontecido alguma coisa; ele me olhou agoniado. Eu podia ver a angústia estampada nos seus olhos; então, ele respirou bem fundo e me contou algo inacreditável.

Segundo me relatou Pedrão, algumas noites anteriores ele acordou de sobressalto durante a madrugada e ficou paralisado de pavor com o que estava vendo diante dele. Ele contou-me que sentado na beirada da sua cama estava sentado um demônio, olhando para ele e sua esposa enquanto dormiam. Pedrão me disse que era uma criatura medonha, escura, com chifres e tudo. 

Interrompi a narrativa dele e comentei com Pedrão que provavelmente aquilo teria sido um pesadelo e ele me disse que não; afirmou que tinha absoluta certeza do que tinha visto naquela noite macabra. Ele me contou ainda que ficou estático, olhando aquele ser, achando que era o próprio Satanás diante de seus olhos. Pensou em Deus naquela hora e se esforçou muito para falar, até que conseguiu perguntar ao demônio o que ele estava fazendo ali na sua casa.

A criatura diabólica nada disse; apenas sorriu com cinismo, mostrando seus dentes pontiagudos, se levantou e foi embora saindo pela porta do quarto e sumindo na escuridão da casa. Desapareceu rapidamente nas sombras, deixando um forte cheiro de enxofre. Tremendo e nervoso, Pedrão deu um pulo da cama, acendeu todas as luzes da casa e começou a procurar o demônio pela casa enquanto rezava o Pai Nosso. Com a agitação, sua esposa acordou sem entender o que estava acontecendo; mas Pedrão não disse nada para não assustá-la. 

Pedrão estava à beira de um ataque de nervos; de um colapso. Não podia falar sobre isso com ninguém, pois achariam que ele estava ficando louco. Tentei acalmá-lo e sugeri que a mente humana é capaz de muitos truques; e que talvez ele estivesse sendo vítima de uma dessas inexplicáveis armadilhas da psique. Mas Pedrão parecia em transe. Parecia não estar me ouvindo. Seja lá o que tenha acontecido naquela noite em sua casa, não deve ter sido coisa boa. A conversa acabou repentinamente, quando outros clientes chegaram a sua loja. Pedrão foi atendê-los. Eu me despedi do meu amigo e disse que passaria ali assim que possível.

Dias depois daquela nossa conversa, fiquei sabendo que a esposa do Pedrão ficou repentinamente muito doente; e na sequência veio a falecer. A loja do Pedrão entrou em falência e ele se viu obrigado a fechar as portas. Deprimido, Pedrão vendeu a casa e tudo que tinha e foi embora da cidade. Nunca mais ouvi falar do meu amigo. Tudo aconteceu muito rápido, de maneira muito estranha. Como se Pedrão tivesse sido enredado por uma terrível maldição. As pessoas na cidade não entenderam o que tinha acontecido, mas eu sabia que tudo tinha relação com a visita maldita que Pedrão havia recebido em sua casa naquela fatídica noite. 

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