CONTO: NATAL NA ONCOLOGIA

O ano não estava sendo dos melhores, mal havia começado e as coisas estavam dando
errado, era uma noite chuvosa, havia trabalhado o dia todo, cheguei em casa, tomei um banho e
comi, meus pais ainda não haviam chegado, o que era normal, já que constantemente davam
plantão no hospital, ele era médico e ela enfermeira, trabalhavam juntos, e foi assim que se
conheceram. O relógio já marcava nove da noite, o sono já me tentava, lavei a louça do jantar,
coloquei meu pijama e fui dormir, quando fui acordada pela campainha que tocava
insistentemente, coloquei meus chinelos e fui atender, ao abrir dei de cara com um policial,
naquele momento uma tragédia não se passou por minha mente, até que o ouvi falar.
 Senhorita Renata?
 Sim, sou ela, em que posso ajudar policial?!
 Gostaria que me acompanhasse, preciso que reconheça os corpos!
 Reconhecer os corpos? De que corpos está falando?
 Houve um acidente, o carro perdeu o controle em uma curva e ambos estão
mortos, o motorista e a passageira.
Quando ele pronunciou as últimas palavras, já não pude mais conter as lágrimas que
rolavam por meus olhos incontrolavelmente, o restante é apenas um borrão em minha memória,
dizem que nosso cérebro é programado para apagar lembranças tão dolorosas, acredito que o
meu trabalhou bem, já que não me lembro de reconhecer os corpos, nem de nada depois disso,
foi como se eu apenas estivesse ali, durante o velório e até no enterro, minha ficha não havia
caído, até que entrei novamente em nossa casa e fui inundada de lembranças e a certeza de que
nada mais seria igual, não teria mais seus sorrisos, nem as longas conversas sobre como
gostariam de tirar férias e os planos para tirarem, mas nunca realmente faziam, já que o trabalho
lhes consumia um tempo grande.
Meus parentes me visitavam, para ter certeza de que eu não cometeria nenhuma
loucura, mas os meses foram passando e eles foram dando cada vez menos importância, em
junho comecei a me sentir cansada, os enjoos mal me deixavam comer, era difícil levantar para
trabalhar, então fui ao médico, que pediu uma bateria de exames, os fiz e descobri o câncer, a
notícia me pegou de surpresa e levou o pouco de esperança que eu ainda tinha.
Tudo aconteceu muito rápido e eu me sentia cada vez menos no controle, era apenas
uma expectadora de minha própria vida, logo começaram as sessões de quimioterapia, eram
longas e cansativas, me sentia debilitada, as ânsias me fizeram perder o apetite, e logo estava
magra, meus cabelos caíam cada dia mais. Em uma das sessões estava de olhos fechados, pois
não conseguia mantê-los abertos.
 Olá, eu sou a Laura, e você?

 Sou a Renata! – Disse abrindo lentamente os olhos.
 Você está bem?
 Só um pouco cansada disso, e você?
 Estou com um pouco de medo, é minha primeira sessão.
 Não se preocupe, vai dar certo!
Laura sorriu e se calou, eu não continuei a conversa, estava exausta, só respondi por
educação, alguns dias se passaram e nos encontrávamos em todas as sessões, começamos a
conversar mais, e aqueles momentos se tornaram mais agradáveis, dividíamos a mesma dor, um
mês depois já éramos amigas, trocamos telefones e nos falávamos todos os dias.
Em setembro ela me disse que a quimioterapia estava surtindo efeito, e que o médico
sugeriu a cirurgia, a apoiei e estive ao seu lado, o dia chegou e eu estava lá, segurei sua mão até
que a levassem para o centro cirúrgico, esperei lá fora até que acabasse, mas nunca acabou,
horas depois o médico se sentou ao meu lado na sala de espera e eu já sabia o que diria, mas
mesmo assim me agarrei ao vestígio de esperança, ele me olhou nos olhos e disse que sentia
muito, mas minha amiga sofreu uma parada cardíaca e uma grave hemorragia que a levaram a
óbito. Estava sendo um ano realmente terrível para mim, era o terceiro luto que eu enfrentava,
sem contar a minha própria doença. Depois da notícia me encaminhei até a capela do hospital,
nunca fui muito religiosa, ainda mais depois de tantas coisas ruins, mas me ajoelhei e falei com
Deus um pouco, depois me sentei no banco e fiquei ali, chorando por horas, senti que estava
sendo observada, e olhei para trás dando de cara com um moço me olhando, limpei as lágrimas
e me virei envergonhada, ele veio até mim e se sentou ao meu lado.
 Sabe, acredito que tudo tem um propósito, acredito que nada é tão ruim que não
possa ser solucionado! – Disse me estendendo um lenço.
Peguei seu lenço, mas não concordava com ele, estava revoltada com tantas coisas
ruins, não aceitava o fato de estar tudo acontecendo comigo, e em tão pouco tempo, era injusto,
o universo estava mesmo me testando.
 Obrigada, mas diga por você, não tenho muitos motivos para lutar!
 Eu também não deveria ter, duas semanas atrás recebi a notícia de que tinha
dois meses de vida, que meu câncer não tinha cura, isso me deixou destruído, mas fui pesquisar
e descobri que esse hospital tem um tratamento experimental que pode me salvar, então vim até
aqui. Eu podia ter simplesmente desistido, apenas me despedir, e aproveitar o pouco tempo ao
lado dos meus familiares, talvez ter feito uma viagem e morrer de uma maneira diferente da
esperada, que é na cama de um hospital, de uma maneira dolorosa e triste, mas quem decide a
hora de entregar a toalha sou eu, e vou lutar enquanto ainda houver uma única chance, vou me
agarrar a ela, cansei de ter pena de mim mesmo e lamentar cada vez que a vida me derruba.

Eu realmente não esperava por isso, quando o olhei de perto notei as olheiras, e os ossos
salientes, assim como os meus, lutar contra essa doença era difícil e exigia muito do corpo. Me
surpreendi com aquele homem, e mais ainda com sua vontade de viver, em seu lugar apenas me
trancaria no quarto e choraria até chegar a hora de fechar os olhos para sempre.
 Me sinto envergonhada agora!
 Sinto muito se disse algo errado.
 Não disse nada errado, disse exatamente o que eu precisava ouvir, obrigada por
isso moço.
 Pode me chamar de Noah, e não precisa agradecer.
 Sou a Renata, prazer em te conhecer, acho que vamos nos ver por aqui então.
Depois da conversa nos despedimos e fui para casa, mas não pude deixar de pensar em
suas palavras e naqueles olhos verdes tão profundos e cheios de esperança, começamos a nos
ver nos corredores do hospital, ele estava internado e eu ia às sessões de quimioterapia,
conversávamos por horas e fomos ficando próximos, eu comecei a vê-lo como homem, e acabei
me apaixonando, mas mantive em segredo.
Logo meu médico sugeriu a cirurgia para a retirada do tumor, fiquei receosa no começo
ao me lembrar de minha amiga, mas aceitei o tratamento, era uma oportunidade a mais de
tentar, no dia marcado estava entrando na sala para me preparar para a cirurgia quando Noah
veio ao meu encontro no corredor, segurando uma rosa-vermelha, ele já havia iniciado o
tratamento experimental, que o havia deixado sem cabelos e ainda mais debilitado, mas mesmo
assim ele veio até mim, com a rosa em uma mão e o pedestal de soro em outra.
 Noah, você veio, obrigada.
 Renata, quero que saiba de algo antes de entrar nessa sala – disse me entregando
a rosa.
 Pode dizer.
 Eu não planejava me envolver com ninguém, muito menos em um momento
como esse, e você sabe bem o quanto é um momento delicado, mas aconteceu, e me apaixonei
por você, só queria que soubesse disso, afinal se tem uma coisa que aprendemos a valorizar é o
tempo, e não vou deixar isso para amanhã. Agora você tem mais um motivo para lutar.
Meu coração se encheu de alegria e meus olhos de lágrimas, ele também gostava de
mim, eu o abracei e o beijei, nosso primeiro beijo, a enfermeira limpou a garganta para chamar
minha atenção, o deixei ali e fui para a cirurgia. Não sei quanto tempo durou, apenas que abri
meus olhos e senti muita dor, o médico logo entrou.
 Renata, está se sentindo como?
 Com dor!

 É normal, já que acabou de passar por um procedimento cirúrgico. Mas pode
ficar tranquila, foi um sucesso e conseguimos retirar o tumor sem problemas.
O médico só esqueceu de mencionar que com o tumor retirou uma de minhas mamas, o
que não estava nos meus planos e me deixou muito para baixo, não que eu fosse a louca da
beleza, mas era parte de mim, algo para o qual não estava preparada, porém, não me deixei
abater, eu ainda tinha minha vida, perdi um seio, mas isso poderia se resolver mais para frente,
já minha querida amiga não teve a mesma sorte que eu, então apenas me senti grata pela chance
de viver mais um dia.
Alguns dias se passaram e não tive notícias de Noah, o que me preocupou, mas preferi
não pensar o pior. Recebi alta, semanas depois iria para casa, mas precisava vê-lo pelo menos
por um instante, fui até seu quarto em mais uma tentativa, mas ele não estava lá, e nenhuma
enfermeira me informou sobre nada, disseram que não podiam dar informações sobre pacientes
sem que eu tivesse algum grau de parentesco. Depois disso voltei em busca dele, no hospital
algumas vezes, mas não obtive resposta alguma. Os dias se passaram, eu estava triste por não ter
notícias dele e, ao mesmo tempo, feliz por estar curada daquela doença, na véspera de natal, fui
até o hospital para agradecer aos médicos e levar presentes, me receberam bem e estavam
felizes com minha recuperação, eu era mais uma vitoriosa, pois todos que iam até aquele
hospital lutavam por suas vidas, era quase meia-noite quando fui até a capela e me sentei
naquele mesmo banco, falei com Deus, para agradecer pelo meu milagre e pela oportunidade de
ter conhecido pessoas maravilhosas durante o tempo em que estive em tratamento, pessoas que
me apoiaram e acreditaram que eu era capaz de sair dessa, ouvi passos e me virei, ele estava ali
com um terno preto, parecendo uma pessoa completamente diferente, e com uma rosa na mão,
me levantei e corri até ele o abraçando, ele me levantou do chão e me deu o beijo mais doce que
já recebi na vida.
 Meu pequeno anjo, me desculpe por sumir, tive momentos difíceis, mas estou
melhor e vim atrás de você. Aqui estão os resultados dos meus exames, do tratamento
experimental, e gostaria que abrisse comigo.
Eu assenti, e nos sentamos em nosso banco, ele abriu o envelope e as lágrimas tomaram
nossos olhos, era nosso milagre de natal, o milagre na oncologia, o tratamento havia surtido
efeito e ele teria mais uma chance de viver, a notícia encheu nossos corações de alegria e
esperança, fomos realmente agraciados, pois, tantas pessoas passaram e passam pela ala
oncológica do hospital e morrem no meio do tratamento, ou até desistem de lutar e se entregam
a doença, mas nós escolhemos seguir em frente, apesar de tudo, acreditamos que
conseguiríamos e tudo deu certo, tivemos perdas pelo caminho, mas não podemos desistir, cada
uma dessas perdas nos mostrou o valor da vida, o valor de acreditar, que cada amanhecer é uma
nova chance, de ser alguém melhor, de tratar os outros bem, e dizer a quem amamos o quanto
são importantes em nossas vidas.

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