CONTO: CASO DE MISTÉRIO NO HORTO DE NITERÓI

Elias arrumava as gavetas do quarto. Sem querer, achou um cordão de crucifixo da esposa, que o fez se lembrar de um fato de nove anos atrás…

Nessa época, Elias trabalhava como entregador de farmácia. Teve uma folga e, contente, resolveu dar um rolé pelo horto botânico de Niterói. Pretendia se manter em forma com uma caminhada. Pôs o seu radinho no ombro, mas, antes mesmo de alcançar o horto, topou com um estranho ser, entre mulher e homem, o que lhe foi difícil precisar na ocasião, já que usava um sobretudo comprido e preto, e os cabelos negros e escorridos, lhe tapavam o rosto, quase por inteiro.

A pessoa disse-lhe então as seguintes palavras:

– Estou entrando na sua vida hoje. Levarei a sua alma comigo. Entendeu?

O rapaz não gostou do “recadinho”. Pensou: “Esses góticos são um bando de malucos!”. Mesmo assim, resolveu dar uma olhada pra trás, assim que o tal ser passou por ele. Só que, do nada, a pessoa desapareceu num piscar de vista. Na sequência, um carro veio muito de pressa, bem na hora em que Elias cruzava a rua. Se não fosse a agilidade em atravessar correndo, teria virado um patê no meio do asfalto. Ainda teve de aturar o xingamento do motorista. Pra piorar a situação, ao continuar caminhando em direção ao horto, acabou atolando o pé num prato de oferenda. Putz! O tênis se encheu de farofa. Isso, contudo, não fez com que desistisse do passeio.

Assim, já na entrada do parque, tratou de ligar o radinho pra que ouvisse o funk da vez. Aconteceu que, coisas mais estranhas continuaram acontecendo nesse fim de tarde. De súbito, um vento fortíssimo tapeou-lhe a cara, fazendo com que um grosso cisco atingisse a sua vista. Foi difícil se livrar da coisa em seus olhos, mas ele não desistiu do seu passeio, de aproveitar o seu único dia de folga, depois de tanto tempo. 

O jovem trabalhador resolveu subir na ladeira do parque, onde costuma ficar vazio. A intenção de subir a parte mais inclinada era justamente pra que a atividade física lhe fosse algo duro, pois assim manteria a boa forma. Só que na subida teve uma sensação arrepiante de uma sombra passar bem do seu lado. Um calafrio subiu-lhe o corpo inteiro, mas pensou lá consigo, de modo sarcástico: “Um anjo passou bem aqui.”. E continuou a subida…

Quando já estava no topo da ladeira, cercado da mais bela vegetação da mata atlântica, ele se deparou com um urubu. Foi só nesse instante, que o forte ventou voltou a soprar suave. Elias nunca havia visto esse bicho assim, tão de pertinho. Achou que o urubu tivesse dado um aspecto misterioso pra paisagem. Quis bater uma foto, só que a ave voou pro alto de um galho. Nossa! Agora mesmo que a imagem tinha ficado irada. Rapidinho, Elias preparou a câmera do celular. Só que, quando voltou a mirar o bicho, quem é que estava trepado na árvore, fitando-o intensamente? Isso mesmo que você está pensando agora: o tal sujeito gótico. Meu, Elias estremeceu todinho. Saiu às pressas dali, dando até com os pés na bunda, de tanto correr.

            Durante três dias seguidos ficou sem dormir, só pensando naquele dia. E durante sete dias, teve os piores pesadelos de sua vida. Em todos eles, a tal pessoa misteriosa, que mal conseguiu ver o rosto, anunciava que levaria a alma dele consigo. 

            Desesperado, Elias pediu ajuda a um pai de santo. Explicou toda a situação e os seus medos e pesadelos. Precisou então fazer um trabalho de despacho forte e, de repente, aquele dia apagou de sua memória por completo. Tudo então pareceu ter voltado ao normal. Tanto que resolveu dar um rolé de novo pelo horto assim que teve uma folga. Enquanto corria, percebeu que o colar de uma menina bonita, branca e dos cabelos negros e escorridos, havia caído no chão. Ela vinha correndo em sentido contrário ao seu. Ele apanhou o objeto e lhe devolveu. Foi assim que conheceu o amor da sua vida, com quem é casado até hoje. Ela se chama Josebel. Na ocasião, ele nem se lembrou do estranho fato que havia vivido um tempo atrás, pois, como disse, tudo apagou da sua mente. Mas, toda a história lhe veio à tona quando, ao acaso, achou o colar de crucifixo da esposa, enquanto arrumava a gaveta dos dois. O colar, devo informar, tinha um aspecto bem gótico…

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