CONTO: CRÔNICA DE UMA EXISTÊNCIA SEM SENTIDO

Sacolejando no assento do ônibus me lembro de quando eu ainda tinha um carro. E igualmente me lembro da felicidade do meu irmão quando dei as chaves para ele e o recibo assinado. Ele precisa do carro para levar as crianças para a escola.

Eu não preciso mais do meu carro. Eu não preciso de nada.

Meu irmão. Lembro das tardes em que jogamos bola juntos no quintal, no verão. Talvez essa lembrança tenha aflorado por que está calor, o sol está quente. Sinto o suor nas minhas costas, escorrendo pela minha coluna, umedecendo minha pele.

O dia está lindo. Lindo. Céu azul, crianças brincando. Tudo tão perfeito.

Desço no meu ponto e passo no mercadinho, perto de casa. Os estranhos gentis sorriem uns para os outros nos corredores, entre as gôndolas.

Eu sorrio para todos de volta. Vejo uma mãe com uma criança na fila. A criança quer um doce que ela não pode comprar. A criança entende e fica em silêncio, olhando para o doce. Eu compro o doce e alcanço eles na calçada. Falo com a mãe, que aceita o mimo para o filho, embora insista que não precisava.

Sei que não precisava. Mas eu tinha aquele trocado ali e não ia usá-lo para nada. Espero que o menino se lembre disso um dia e dê um doce para outra criança quando ele tiver um trocado.

A vizinha me para. Está feliz. As suculentas que dei para ela estão lindas e ficaram ainda mais lindas porque o filho trouxe um tronco de madeira onde ela equilibrou os vasinhos. Claro que eu quero ver e minha sacola é leve, não pesa. Posso segurá-la indefinidamente sem cansar.

Mas cansa. No fim, sempre cansa.

E depois de elogiar as plantas, o capricho dela e o esmero do filho eu me vou.

Abro a porta e deixo a chave na mesinha a direita. Deixo a chave onde antes tinha uma samambaia.

Gosto de plantas, mas dei a samambaia.

Como dei também as suculentas.

Plantas não sofrem se a gente as dá para uma outra pessoa que também goste muito de plantas.

Elas não se sentem abandonadas ou traídas.

É diferente com os animais. E olho automaticamente para a poltrona da Holly.

Claro que ela não está mais lá.

Estou cansada.

Mas nunca tive coragem de dar a Holly, como dei minhas plantas ou como me desfiz do meu carro.

E claro que eu não poderia deixar ela sozinha.

Então eu fiz um trato comigo mesma, que enquanto eu tivesse a Holly, eu carregaria todas as sacolas.

Mesmo pesadas, eu não iria descansar. Não quando a Holly dependia de mim e vinha me lamber com aquela língua áspera. Não enquanto ela precisasse de mim para alimentá-la e aquece-la.

Ás vezes eu penso se foi por isso que a Holly foi a cachorra mais bem tratada da história mundial.

Será que eu me enganava? Será que eu mentia para mim?

Reflexões de uma existência completamente sem sentido.

Eu servi meu suco de laranja que trouxe do mercado, estava bom. Doce e gelado.

Fui para o meu quarto, olhei as prateleiras onde antes tinha livros.

Mas livros foram feitos para serem lidos e com certeza a essa hora eles estavam na mão de algum adolescente.

Vou para o banheiro, quero tomar um banho. O cheiro do meu banheiro, antes, era bom. Cheirava flores. Como meus sabonetes e meus shampoos. Mas hoje não sinto nada.

Faz muito tempo que não sinto nada.

Só cansaço, e dor.

Além disso, não sinto mais nada.

Tiro minha roupa sem olhar para o reflexo no espelho. Hoje não. O dia está lindo demais para isso.

Tomo meu banho, aprecio o aroma de orquídeas do meu sabonete. A textura cremosa na pele. Faço bastante espuma e deixo ela um tempo no meu corpo antes de entrar novamente na água morna e deixar ele escorrer pela minha pele. Estou com a cabeça baixa e vejo a espuma escorrer pelo piso. Fui eu que escolhi esse piso e ele é marrom. Sempre apreciei os veios que parecem madeira e agora vejo a espuma escorrer por eles.

Não levanto a cabeça. Não me esfrego. Não faço nada. Só olho para o chão até a água se tornar novamente totalmente transparente e então desligo o chuveiro e saio do box , enrolada numa toalha.

Não tenho qualquer pressa.

Mas estou tão cansada.

Meu corpo dói, respirar dói.

Viver dói.

E já faz tanto tempo que convivo com a dor. Estou mais que acostumada.

Vou para o meu quarto, paro em frente ao espelho. Respiro fundo e penso na minha decisão. Penso na dor.

A dor… você é uma velha conhecida. Me fez companhia muito tempo. Minha única companhia. Decido olhar as cicatrizes nos meus braços, nas minhas panturrilhas, nas minhas costelas. 

Nos meus pulsos.                      

Minha imagem refletida no espelho.

Marcas que a dor me trouxe. Minha fiel amante, em que tantas vezes me perdi, sedenta pelo seu alívio luxuriante.

Sim, você me trouxe alívio muitas vezes.

Mas hoje me despeço. Hoje, você me terá pela última vez.

A ponta do picador de gelo na mesa de cabeceira está afiada o suficiente. Pressiono no meu braço, vejo o sangue rubro e morno surgir. Pressiono mais uma vez, nas pernas agora. Coxas. Panturrilhas. De um lado, do outro, esquerda e direita. 

Alguns são mais profundos, outros mais superficiais. Todos sangram. Todos doem.

Oi velha amiga. Amada amante. 

Me olho no espelho, os braços paralelos ao corpo. Fios de sangue escorrem pela minha pele nua. Pareço adornada de fitas de seda vermelha. Conto. São 13 fitas vermelhas. 

Sei que poderia me deitar mais uma vez. Esperar e acordar. Repleta de dor, e aguardar as cicatrizes sararem meu corpo.

Mas me sinto cansada. A alma não cicatriza. Há tempos. Anos. Vidas. Existências. 

E já não me resta mais nada.

Quinze me parece um número adequado. Ímpar, mas correto.

Já tenho treze. O fim de aproxima.

Pressiono o picador sobre meu peito e vejo um novo fio de sangue surgir. O último que irei ver em mim.

Vou para o meu quarto, me sinto úmida e grudenta. 

Me deito de barriga para baixo e posiciono o picador na parte macia da minha garganta.

Fecho os olhos, tomo impulso e recebo minha amante em meus braços. Pela última vez.

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