CONTO: O MISTÉRIO DO CARNAVAL DE 93

Algo muito louco aconteceu no carnaval de 1993. Se bem que, quando se é adolescente, quase tudo parece ser muito louco. Mas nesse carnaval especificamente, o sobrenatural estava presente, e cheio de tesão. Explico melhor contando a história. Lembro-me que no carnaval anterior, em 1992, meus amigos e eu resolvemos sair vestidos de mulher. Foi muito engraçado. Parecíamos mais umas barangas remelentas. Todos que olhavam para nós morriam de rir; éramos a turma de barangas simpáticas e divertidas mais populares daquele salão.
Alguns amigos não tiveram coragem para se vestir de mulher e foram conosco sem fantasia, mas todos nós estávamos pulando o carnaval de maneira sadia. As garotas ficavam interessadas, nos achavam engraçados… Ou melhor, “engraçadas”. Naquela noite de carnaval, todos que estavam vestidos de mulher se deram bem. Cada um de nós passou o fim de noite muito bem acompanhado. Muito beijo na boca e sexo ao ar livre. Costumávamos ir namorar na praia que ficava próxima do salão do baile de carnaval. Era uma putaria do bem. Cada um com a sua garota, escondido entre as pedras do costão, sob a luz da lua.
Os amigos que não tinham se vestido de mulher, coincidência ou não, voltaram sozinhos para suas casas, após o baile de carnaval. Isso gerou uma “teoria” na nossa turma de amigos. Passamos a acreditar que, no carnaval, aquele que fosse vestido de mulher, conseguiria companhia para passar a noite. Naquela época, com os hormônios fervilhando, a nossa meta era namorar e se divertir. Só se falava em beijar na boca e transar com alguém. Ficou combinado que no próximo carnaval, toda a turma iria vestido de mulher. E dessa vez, todos concordaram que iam, até os que não tinham coragem. Ninguém queria ficar de fora, ou ficar para titio.
Quando o carnaval de 1993 foi chegando, foi pura excitação para a nossa turma de amigos. Todos fazendo planos e contando o que iam fazer, e para onde levariam as garotas e tal. Cada um providenciou roupas de mulher com suas mães, irmãs, amigas, etc. Lembro-me que a minha mãe é quem me emprestava suas roupas: vestido, sutiã, meia calça, mini blusa, sapato, bolsinha e peruca. Traje quase completo, pois eu só não usava calcinha. Por baixo da saia, eu usava bermuda.
A verdade é que ficávamos ridículos vestidos de mulher e era isso que chamava a atenção de todo mundo, principalmente das garotas. Acredito que elas achavam aquilo sexy; um bando de caras engraçados dando em cima delas. Eu imagino que aquilo, provavelmente despertava fantasias eróticas. Ótimo, era exatamente isso que nós queríamos. Nós éramos uns tarados vestidos de mulher, tipo lobo em pele de cordeiro. Éramos movidos pelo desejo, mas era no carnaval que, vestidos de mulher, entrávamos definitivamente no “cio”.
Quando a noite de carnaval finalmente chegou, toda a turma já estava preparada, motivada e ansiosa pelo baile de carnaval de 1993. Esse carnaval seria muito especial para mim, e inesquecível. Naquela noite, a turma se reuniu na minha casa, antes de seguirmos para o salão do baile. Assim que todas as “damas” da luxúria se fizeram prontas, com todos os retoques de maquiagem e figurino devidamente feitos, seguimos focados em pular o carnaval e fazer amor gostoso.
Dizem que a origem da palavra carnaval vem das antigas culturas pagãs e o seu significado teria relação com festividades onde a ideia seria se afastar da carne. Mas em algum momento do tempo e da história, aconteceu o inverso e o carnaval passou a ser visto como uma festa que remete ao pecado carnal; a festa da carne. Para jovens libidinosos que éramos em 1993, essa interpretação da festa era perfeita. Não tínhamos cérebros; tínhamos um emaranhado de pervertidos hormônios unidos de mãos dadas. Era o sedutor fantasma da puberdade.
Chegando ao salão de baile, já fomos logo entrando apressados. Não queríamos perder tempo. O plano era que cada um localizasse uma bela garota para tentar conquistar durante a folia da noite. Era cada um por si, e sendo assim, entrávamos no meio da multidão que brincava o carnaval. Música alta, marchinhas, mulheres bonitas, perfumadas, corpos se insinuando… Era o templo da perdição.
A noite ia passando e não levou muito tempo para que eu avistasse algum amigo da turma passando perto de mim já agarrado com alguma garota. Nós éramos “caçadores” do prazer e também encarávamos aquilo como uma competição. Ninguém queria ficar para trás e terminar sozinho em uma noite de carnaval, sem dar sequer um beijinho. O baile estava animado e prometia. Eu seguia no meio da multidão, no embalo, tomando o meu cuba-libre.
De repente, eu reparei uma garota parada em um canto do salão, me olhando e sorrindo. Ela estava com outras garotas, mas só ela me olhava. Inicialmente, achei que ela não estava olhando para mim, pois tinha muita gente ao redor. Ela era a garota mais linda daquele baile de carnaval. Não era possível que eu estivesse com toda essa sorte. Ela sorria para mim, como se estivesse me achando muito engraçado. Bom, eu estava engraçado. Eu era um magricela vestido de mulher.
Resolvi abordar a linda garota. Fui até ela e me apresentei, disse o meu nome e perguntei o dela. Ela me disse que o nome dela era Morena. Nossos olhares já não conseguiam se desviar. Algo estranhamente prazeroso estava no ar. Como se fosse uma paixão arrebatadora. Eu já estava sob o efeito do cuba-libre e sem perder tempo já fui pedindo um beijo… E ela me agarrou. Beijo bom; gostoso, quente.
Nós dois nos agarramos no canto escuro do salão e não nos desgrudamos mais. Os beijos e as carícias foram incendiando e antes que pegasse fogo no lugar, convidei a Morena para irmos ao meu local secreto; a praia, que ficava próxima de onde estávamos. Ela topou na hora. Eu disse que antes precisava avisar alguns dos meus amigos que estavam espalhados pelo salão.
Depois de procurar no meio daquela aglomeração carnavalesca, encontrei alguns dos amigos da minha turma e avisei que eu estava indo para a praia com “a minha garota”, e me despedi deles dizendo que nos veríamos no dia seguinte; ou quem sabe mais tarde, caso eles também levassem suas garotas para a praia. Não perdi muito tempo e saí com a Morena pela mão. Era uma noite de lua cheia e céu estrelado; aquele momento estava mais que perfeito.
Chegamos à praia, no meio das pedras do costão, onde tínhamos um esconderijo perfeito para um casal transar. A Morena parecia possuída e foi logo arrancando a roupa dela, e a minha. Ela não permitiu que eu usasse camisinha. Achei estranho que ela dizia o tempo todo que queria ter um filho meu. Não usei camisinha, mas tomei o máximo de cuidado possível para não acabar me tornando pai de um filho com uma garota que eu tinha conhecido alguns minutos antes.
A morena era gata demais. Ela parecia ser bem mais nova do que eu; porém, se mostrava infinitamente mais experiente. Era uma garota perfeita, que lembrava uma linda atriz de novela. Ela me deixou tão loucamente excitado, que nós passamos aquela madrugada toda transando. Lembro que eu já estava praticamente apaixonado, pensando em pedi-la em namoro. Comecei a fazer perguntas sobre a vida dela, para conhecê-la melhor, e estranhamente, ela desconversava.
Quando faltava pouco para amanhecer, ela me disse que precisava ir embora, e pediu que eu a acompanhasse até em casa. Comentou que morava perto e poderíamos ir caminhando até lá. Nós dois saímos de mãos dadas, como um apaixonado casal de namorados. De repente, não aguentei e perguntei se poderíamos nos encontrar novamente, e estranhamente, ela desconversou.
Eu não queria parecer um cara chato, grudento. Não queria que ela me achasse um bobalhão apaixonado. Cheguei à conclusão que momentaneamente, já estava de bom tamanho saber onde ela morava; pois assim, eu poderia voltar para vê-la alguns dias depois. Após sair da praia, andamos alguns minutos e entramos por uma rua escura, poucas casas. Morena me disse que morava quase no fim da rua, mas faltava pouco para chegar.
Assim que chegamos à frente da casa de Morena, achei o local sombrio, mas não comentei; não queria ser deselegante. Talvez a garota fosse de família economicamente humilde; nada contra. Mas a verdade é que a velha casa posicionada nos fundos do terreno, cercada de árvores e sem iluminação pública, se destacava na paisagem. Cenário típico de um filme de terror. Só era possível notar que a casa era habitada por causa de uma tímida lâmpada acesa.
Morena me deu um beijo apaixonado e entrou me parecendo apressada, ou preocupada. Enquanto ela se dirigia para casa, eu disse quase gritando que gostaria muito de encontra-la novamente. Ela não disse nada e entrou na casa. Voltei caminhando para minha casa; estava em estado de êxtase. Sentia uma mistura de alegria, paixão e satisfação sexual. Aquele encontro lascivo tinha sido inesquecível.
Voltei para casa como se estivesse entorpecido. Lembro-me de ter chegado à minha casa com o sol já raiando. Cheguei só de saia; havia perdido a peruca, a mini blusa, o sutiã, a bolsa, os sapatos, etc. Minha mãe ia me matar por isso; tinha perdido as coisas dela. Mas toda aquela aventura valeu muito a pena, foi especial e eu não conseguia parar de pensar naquela garota chamada Morena.
No dia seguinte, eu não parava de pensar na Morena. Eu estava agoniado e precisava vê-la novamente. Quando o final da tarde chegou, não aguentei; peguei a minha bicicleta e fui até a casa da Morena. Quando cheguei lá, fiquei ainda mais surpreso. O lugar me pareceu mais macabro do que me parecia na noite anterior. A casa tinha um nítido aspecto de abandonada; assombrada. Confuso e desconfiado, me arrisquei a chamar por Morena, mas ela não apareceu; aliás, ninguém apareceu.
Percebi que ia passando um senhor na estrada, provavelmente um vizinho. Cumprimentei educadamente o homem e perguntei sobre os moradores da casa e sobre a moça chamada Morena. O homem arregalou os olhos, e parecendo assustado, me disse que naquela casa já não morava ninguém há alguns anos. Ele me disse que a casa foi abandonada pela família depois que a filha chamada Morena morreu em uma noite de carnaval. Nesse momento, eu gelei dos pés a cabeça. Tive que pedir para o homem repetir o que me disse; achei que não tinha ouvido direito. O homem confirmou.
Fiquei dias em estado de choque, sem entender o que tinha acontecido. Eu já tinha escutado histórias de terror assustadoras como essa, mas viver uma… É muito traumático. Até hoje, lembro-me daquela excitante noite de carnaval que passei ao lado da bela Morena. Teria eu curtido uma noite do carnaval de 1993 ao lado de um fantasma? Só de pensar naquilo me dá calafrios… Mas que foi uma noite prazerosa demais, isso foi. Aquele fantasma tornou o meu carnaval inesquecível.

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