CONTO: O CASEBRE DA TRILHA

A sabedoria popular diz que o insólito encontra-se nas minúcias ignoradas do dia a dia. Foi assim que aconteceu comigo numa fase de distração, em que me deslocava pro horto botânico de Niterói a fim de fazer minha corrida rotineira, mantendo a sanidade físico-mental.

         Há uma trilha, bastante conhecida por quem pratica esporte no horto, que passa por uma escola municipal, algumas casinhas e galinheiros. Apesar disso, é um ambiente praticamente deserto. Os esportistas transitam muito depressa por ali, enquanto a maioria das famílias e demais visitantes nem chegam a pisar nessa parte por medo de assalto e outros tipos de violência. Mas no meu caso, sempre corri tranquila por ali. Geralmente, eu não só ignorava a paisagem, como também estava sempre ouvindo músicas em meu celular. Entretanto, sabe como é a memória humana, sobretudo, quando somada à intuição que nos guia e protege. No fundo, andava vendo alguns fatos curiosos que ocorriam por ali há um tempo, ainda que não estivesse dando a mínima importância pra isso.

         Sempre que passava por lá, batia o olho num pequeno casebre, cujo teto foi tomado por trepadeiras, mas eu sempre acabava desviando a atenção pro mundo cibernético, encaixotado em meu móvel. Às vezes, ficava refletindo sobre a vida e como ela é injusta, irônica e, por ora, engraçada…         Algo que não pude ignorar, por mais que eu quisesse, foi o fato da casinha ter o número 13 como referência. Olha, tenho que te dizer, há uma sombra neste bosque, onde a árvore-mãe possui cabelos de finos cipós a se moverem ao sabor do vento e da minha coragem de seguir adiante por essa trilha.

         Sobre o 13, segundo a superstição, diz-se que tal número representa o azar no destino da pessoa, pois estaria ligado ao fim da vida, tal qual poderia sugerir a carta do arcano da morte, cujo número é 13. Por outro lado, muitos o associam ao estado de renovação, final de ciclo e, portanto, início de uma transformação. Tendo visto isso, vamos ao caso que presenciei, certamente, mais palpável do que todo esse misticismo, muito embora bastante difícil de digeri-lo.

         Ouvia Ramones enquanto corria, quando vi, de relance, uma velha muito velha. Aliás, era a mais velha do que todas as velhas que pude ver em minha existência, ainda que em frações de segundos. Ela era tão pequena como um botão, além de corcunda, caminhando lento, com a ajuda de uma bengala. Talvez, houvesse mais rugas do que a superfície lisa, que sempre nos resta na tez. Também pude observar que trajava uma manta sobre as costas, apesar de estar bastante quente no dia. Mas até aqui tudo bem, pois dizem que os anciães sentem muito frio, devido às suas peles finas.

         Quando eu a vi, ela abria o casebre e entrou nele. Ao final da trilha, a uns 50 metros dali, pausei um cadinho sobre uma pedra, pois havia malhado muito. Tomei uma água e, sem qualquer pretensão, retomei a trilha e me deparei, durante o trajeto, com uma jovem loira e pequenina, saindo do casebre. Só que este era tão minúsculo, que não deveria ser confortável pra ninguém se manter ali, ainda mais se tratando de duas pessoas, isto é, a velhinha e a moça loira. Mas até aqui, tudo bem. No cotidiano, é tão comum assistirmos a um entra e sai desenfreado nos bancos, nos transportes públicos, nas lojas etc. Nada me abateu nesse momento, mas como se pode observar, a situação ficou gravada em minha memória, provavemente pra que se conectasse a outros eventos vindouros, que já já te conto.

         Passado uma semana, e lá fui eu de novo pelo mesmo trajeto de sempre. Na ocasião, eu corria quase parando, pois me sentia esgotada com o exercício. De repente, vi a velhinha agachada, com certa dificuldade, porém com muito entusiasmo, procurando algo no meio da moita, de frente pro casebre. Lembro-me que nossos olhares se cruzaram, por acaso. Tive a sensação de ter a vista rasgada com o incômodo que provocou aquela troca de olhares. Mas, como meu foco era outro, ou seja, apenas me exercitar, continuei o que fazia.

         Antes mesmo de eu chegar ao fim da trilha, uns insetos estranhos, que até então nunca havia me confrontado, começaram a me atacar, de modo que fiquei desconcertada, golpeando em vão com a minha pequena bolsa pra todos os lados. Acabei derrapando com a bunda na lama. Fiquei puta da vida e retornei. Pra minha surpresa, uma mulher muito alta, encorpada, com cabelos compridos e lisos saía do casebre, às pressas. Não pude ver seu rosto, mas duas coisas me deixaram intrigadas: a primeira foi a curiosidade que me deu em saber quem seriam essas mulheres que entravam e saíam da pequena casa, como se fossem moradores, sendo que isso me parecia ilógico, pois não cri que houvesse coerência em viver naquele cúbiculo. Se fosse um morador de rua, eu até entenderia, já que essa parcela social acaba se sujeitando a situações muitas vezes até piores, mas não me pareceu o caso, principalmente desta última. Aliás, este já é o segundo fato que me incomodou: o que fazia ali uma mulher tão bem arrumada, sendo que as pessoas que costumam frequentar o horto vão de roupa esportiva? Só que no caso dela, usava salto enorme, calça jeans apertada, uma blusa de boate e bolsa social.

         Ainda ouvindo música, resolvi segui-la um pouco, só por curiosidade mesmo. Eu me recordo muito bem que a misteriosa mulher estava a uns dois metros de distância de mim. Pra minha surpresa, na primeira curva, ela simplesmente desapareceu, feito poeira ao vento. Deus, onde será que ela se escondeu? Mas não dava tanto tempo pra isso. Pensei comigo: ando tão distraída, que me tornei incapaz de seguir alguém em menos de cinco minutos. Depois disso, meu telefone tocou. Era meu pai, pedindo que eu voltasse rápido pra casa, porque estava acontecendo um problema em família.

         Os dias foram passando e os afazeres da vida foram me distanciando do esporte. Até que um dia, quando me sobrou um tempinho na agenda, fui malhar no horto. Eu nem me lembrava mais da situação de outrora, porém, como de praxe, percorri as trilhas conhecidas e a do casebre também. Antes de passar por esse local específico, a minha internet falhou. Guardei meu aparelho e fui correndo devagar, ouvindo os ecos da natureza oa redor.

         Súbito, escutei o som de fadas vindo da mata úmida e escura, que geral ignora. Eu não bem sei até hoje se são fadas mesmo, mas com certeza são elementais, porque já presenciei uma situação com forte indício. Só que não vou detalhar muito agora sobre essa experiência, pois tenho a intenção de contar com minúcias esse caso estranho que me correu há uns anos no Campo de São Bento, em Niterói, mais adiante. Dessa forma, as “fadas” começaram a se manifestarem com uma intensidade aguda e crescente, a medida em que me adentrava pelas bandas do casebre. Parecia até um forte grito de alerta. Teimosa e um tanto desdenhosa, segui adiante, ainda que o coração começasse a pulsar cada vez mais forte. Provavalmente, me dizendo “não”.

         As horas já se aproximavam por volta das 16h quando topei com a loira baixinha que havia saído, certa vez, do casebre. Quer dizer, na hora, não me liguei tanto quando ela passou por mim. O problema foi que, em seguida, passei pelo casebre. Estava vazio. Não, não. Sei que pensou que eu iria comentar sobre a morena alta da última vez. Realmente, não havia uma alma viva ali, embora tivesse ouvido o som do galo, ao longe, por um instante, além do grito das fadas, que mais pareciam vir da minha memória pra fora do que o contrário. O dia escurecia rápido, ao passo que a minha coragem se apagava cada vez mais, fazendo-me tremer as pernas por algo que não sabia bem ao certo no que daria.

         Bem, como disse, nada aconteceu. Apenas um vazio se ecoava no casebre. Segui adiante, quando, de supetão, apareceu-me no caminho, adivinhe quem: ela mesmo, a velhinha corcunda! Só que ela vinha muito rápido na minha direção. Não estava normal isso, ainda mais pra quem usa uma bengala. Não sei se foi meu medo, coisas da imaginação, sabe, mas tive a impressão de que ela flutuava, só que quase arranhando os pés no solo. Seu rosto anunciava um sorriso ansioso, que se ampliava junto à rapidez dos seus olhos vermelhos e brilhantes. Mano, aproveitei meu fôlego esportivo pra meter o pé dali o mais ligeiro possível. Só que, de novo, topei com o casebre, que me convidava a espreitá-lo, sob seu silêncio e mistério. Antes, olhei pra trás e vi que a velha já nem estava mais pelas redondezas. Ou ela foi muito rápido em seu senil passo e eu a perdi de vista ou fez mágica mesmo. Por que não? Nada se aproximava do normal naquele dia.

         Foi então que ousei ir até casebre. Senti um frio na barriga, que me incitava a enfrentá-lo, apesar do perigo. A casa, meu deus, não tinha cheiro. Então enfiei a cara pela pequena janela da porta e espiei o negrume mais profundo que se há no mundo. Olhe, não tô mentindo, eu juro por estes dois olhos que a terra há de comer! A extensão das trevas tem meio metro quadrado, sabia? Entretanto, meu caro, aconteceu algo inesperado: uma fonte de luz surgiu no recinto, como um arco-íris da maldição. O fenômeno deixou-me tontinha. Tirei rápido a cara dali; porém, ainda assim, continuei desconcertada. Pra piorar, senti insetos picando-me as costas, como se quisesse me desequilibrar até as últimas consequências. Será que é assim que as borboletas sofrem quando saem do casulo? Essa invasão de arco-íris invandindo todos os sentidos?

         Quando as coisas começaram a se normalizar, fui me arrastando pra fora dessa trilha. Estava tonta e com a vista embaçada. Sei muito bem que um cara que passou por mim, em sua distração egocêntrica, normal do dia a dia, né, deve ter achado que eu estava apenas sem fôlego de tanto correr. Só que não era isso. Eu estava passando mal e tudo o que eu precisava era sair dali o mais rápido possível.

         Lembro-me que passei pela moça da água de coco, mas não parei por nada. Ninguém ali me soava confiável. Na minha fraqueza, achei justo que pegasse uma condução pra voltar pra casa. Andei, andei, pois nem me lembrava mais onde ficava o ponto de ônibus. Pra quem não sabe, há alguns ônibus de Niterói em que alguns assentos ficam um de frente pro outro; e não, ordenados em fileiras, como de costume. Por acaso ou não, eu me sentei numa dessas cadeiras, em que você fica de frente pra outro passageiro. Esfregava e esfregava os olhos irritados. Ao mirar quem estava diante de mim, quase tive um treco: a velha do casebre. Ela carrregava consigo um pacote de ovos e sorriu pra mim quando eu olhei pra ela. Cara, eu me levantei, dei sinal e desci da condução. Não tinha mais condições de suportar o insólito em minha vida.

         Em casa, busquei me distrair com assuntos do trabalho, da política, da arte etc. Só que, pra minha má sorte, nesta noite e em algumas outras, sonhei com a velha do casebre. Tive de acender velas diariamente por uma semana pra que eu obtivesse a proteção celestial necessária. Sei quer fui salva pela invasão do cotidiano, que nos consome como vela chorosa as horas do dia.

         Depois de um tempo, voltei a frequentar o local, sem medo, porque sempre cruzo o dedo ao passar por ali, além de confiar na força da minha espiritualidade que tanto rezei. O único problema, no entanto, é que adquiri um mal crônico da vista. Meu médico disse se tratar de moscas volantes, que aparecem com o desgaste natural da retina. Bem, eu confio na ciência, é claro. Mas sei não…

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