CONTO: O RIACHO

Acho que eu devia ter no máximo sete anos; estava passando o feriado − como sempre fazíamos −, no sítio de meus avós e estava fazendo o que mais gostava naquele tempo: andar descalça dentro do riacho.

Sabia que levaria a maior bronca da minha mãe se fosse pega, pois ela havia me proibido de fazer aquilo, por considerar a brincadeira boba e perigosa. Não que eu corresse um sério risco de me afogar, já que o riacho não tinha mais que um palmo de profundidade, mas ela temia que eu me machucasse com alguma coisa cortante ou perfurante, que eventualmente poderia haver na areia que lhe cobria o fundo.

O problema é que eu não conseguia resistir à sensação deliciosa de caminhar naquela areia fria, enquanto o movimento da água − geladíssima − massageava meus pés, as flores que nasciam na margem, perfumavam tudo ao redor, era tanta cor e tanta luz, que minha imaginação corria solta, criando milhões de aventuras.

Naquele dia em especial, o lugar estava lindo, havia chovido a semana toda e agora o sol brilhava novamente, criando reflexos coloridos no fundo do riacho Eu queria aproveitar cada segundo, antes que alguém sentisse minha falta ou que minhas primas mais velhas − e muito chatas − chegassem, tomando conta de tudo e querendo dar ordens; o que sempre acabava com as minhas brincadeiras. Então, andei para o lado mais afastado, onde as árvores ocultavam a visão do riacho e afundei os pés na areia com vontade… Foi quando senti uma dor repentina, um cutucão na sola do pé direito e percebi imediatamente que estava ferida; fui pulando num pé só e sentei-me na margem, para poder ver o que tinha realmente acontecido, fiquei em pânico quando vi o que era: um caco de vidro estava fincado dentro da carne do calcanhar e eu não conseguia puxá-lo para fora, nem podia ter noção do seu tamanho, pois somente uma pontinha estava visível.

Mesmo sem ter nenhum sangue saindo, fiquei morrendo de medo e quis gritar por ajuda, mas como queria a todo custo evitar um castigo pela desobediência, fiquei quieta apesar da dor; saí do riacho, andando o melhor que pude, calcei minhas sandálias, fui para dentro da casa dos meus avós e passei o restante do dia sentada, assistindo televisão; o que fez com que todos estranhassem, pois quando eu ia ao sítio, não parava quieta nem por um minuto e naquele dia até as provocações das minhas primas – como elas eram chatas −, eu aguentei calada; várias vezes me perguntaram se eu estava bem e forçosamente eu mentia que sim.

À noite, na hora de dormir, quase não consegui chegar até a cama, a dor era tanta, meu coração dava a impressão de bater no meu pé – que estava cada vez mais inchado -; eu sabia que precisava fazer alguma coisa, mas continuava relutante em pedir ajuda; foi quando ouvi a porta do quarto abrir-se suavemente e vi minha avó aproximar-se, segurando sua enorme caixa de primeiros socorros − minha velha conhecida −, sentar-se na beirada da cama, segurar meu pé delicadamente, examinar o local, pegar uma pinça grande na caixa, arrancar o caco de vidro num único puxão, limpar o sangue, aplicar merthiolate – o que doeu mais − e colocar um pequeno curativo; livrando-me finalmente daquele tormento.

Fiquei ainda mais feliz por saber que não sofri sozinha, pois minha avó e eterna cúmplice me observou o dia todo e esperou a hora certa para salvar-me, como sempre.

Depois, ela levantou-se, deu-me um beijo na testa e me fez prometer nunca mais fazer aquilo novamente e minha aventura descuidada no riacho, se tornou mais um de nossos muitos segredos. É claro que eu cumpri a promessa com prazer, pelo menos até o feriado seguinte.

Como sinto saudades desta época especial; hoje, após tantos anos, não existem mais meus avós, nem o amor verdadeiro, ou aquela cumplicidade desinteressada, que deixamos de encontrar quando nos tornamos adultos; o riacho secou e a realidade muitas vezes assusta; mas minha infância viverá para sempre, escondida bem no fundo da minha alma, que jamais deixará de ser criança.

Para Maria Inês.Do livro: “O Primeiro Baile e Outros Contos

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