CONTO: DE SULTÃO A EXU

Numa tarde, chegou sorrateiramente um mensageiro do palácio trazendo um recado de minha mãe, informando que minha esposa estava enferma, não se alimentava e nem falava mais. 

Meu coração deu um sobressalto! Não sei como atravessei aquele deserto, tal era meu desespero! Uma viagem longa de muitos dias e noites. Na porta do palácio, o cavalo caiu morto de tanto cansaço e eu morto por dentro de tanta dor.

Pior fiquei quando entrei no meu aposento e lá estavam minha mãe, Iismhir-On e as outras esposas cuidando de Ayesha. ou do que sobrou dela, definhada e sem brilho nenhum no olhar.

Ela sorriu com seus lábios descorados quando me viu, tocou minha mão com a ternura de sempre e nada falou. Fechou seus olhos para sempre… Apenas esperou que eu chegasse para me ver pela última vez. Chamei por ela, pedi para que não se fosse, porque eu estava ali para ficarmos juntos e nos amarmos como sempre. Mas ela estava inerte. Chorei muito, como nunca em minha vida.

As mulheres, assustadas, foram saindo do quarto, apenas minha mãe ficou e disse que não havia outra explicação para a morte dela a não ser que morreu por amor.

Eu estava completamente fora de mim e me deitei ao lado do corpo frio de Ayesha. Acariciei sua pele, seus cabelos e fiquei ali, chorando e balbuciando versos que saíram do meu coração:

“Teus cabelos dourados são como fios de ouro, mais preciosos que todo o tesouro que tenho;

Teus olhos são como duas estrelas azuis que cintilam e brilham na escuridão da noite;

Tuas mãos delicadas é como o dedilhar de um instrumento com sua música envolvente;

Teus dentes a perfeição e a brancura do marfim do mais robusto elefante;

Teu colo apetitoso mais que um banquete repleto dos alimentos saborosos e inebriantes;

Tua pele branca como a neve do mais intenso inverno, tão lisa, mas tão fria como a morte”.

Não sei precisar quanto tempo se passou, que chorei e fiquei ali abraçado ao seu corpo rígido. Só voltei ao meu normal quando minha mãe tocou meu ombro e pediu para que voltasse à realidade, pois o corpo dela iria começar a cheirar e havia necessidade de a preparar para o funeral. Acompanhei o ritual fúnebre calado e a carreguei até a pira. Somente saí dali quando nada mais restou. Voltei ao aposento vazio, ao lado da cama. Seu enfeite de cabelos, agora com as flores secas… Estava tudo acabado. Deitei-me ali e, novamente o desespero me abateu. O cansaço tomou conta de mim e eu sonhei: era Ayesha vindo ao meu encontro! Não estava pálida, mas a pele viçosa e linda. Ela me abraçou, saudosa! O sol me acordou com um peso enorme na cabeça. Corri até o jardim, mas, não havia mais flores, apenas galhos, folhas e flores secas…

Certa manhã, me levantei com muita dificuldade, fui ao pequeno jardim e, em meio aos galhos secos, vi um galhinho verde, num cantinho. Coloquei água nele… Os dias foram passando e percebi que ele começou a brotar. Era como se Ayesha estivesse ali, cuidando dele e de mim. Era uma nova vida surgindo, mas a saudade dela me consumia e me desesperava. Mas, muito fraco que estava, não me levantei mais para molhar a plantinha recém-nascida, que morreu de vez. Aliás, o jardim todo morrera, como eu havia morrido por dentro.

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