CONTO: MÃE CHEIRA A AMOR

          “Nunca quis ser mãe!”. Os olhos em lágrimas e a voz entrecortada por soluços emolduravam a exclamação de Joana.

          A sala de paredes verdes e móveis brancos encontrava-se na penumbra. Uma temperatura amena trazia à memória a lembrança dos campos que percorria, ao final dos dias, em tardes de outono, quando ainda era criança. À sua frente, Doutora Sâmia, óculos de grau, cabelos presos em um coque, a ouvia com atenção.

          Frequentava aquela sala há mais de seis meses e sentia que finalmente desenhava-se, em sua mente, o resultado de tantos meses de dedicação. A frase veio em resposta às muitas indagações que lhe cozinhavam o cérebro. “Nunca quis ser mãe!”. A voz agora saía em um misto de certeza e alívio.

          Em um relacionamento estável com Paulo, a primeira desculpa foi o trabalho. Como os dois conciliariam suas carreiras em ascensão com os cuidados de que uma criança necessitaria?

          Estabilizados financeiramente, os empregos em tempo integral ditavam as regras. Eram absorvidos de maneira tal que se tornava impensável dividir o espaço das horas com a atenção a um filho. Mesmo com a possível estrutura de amparo que seus recursos lhes disponibilizariam obter, concordavam na inaptidão para a maternidade de pais dedicados a jornadas que, muitas vezes, incluíam os finas de semana.

          Viagens de férias se intercalavam com as atividades laborais. Viagens nas quais os dois se perdiam pelo mundo em uma liberdade alucinante. 

          O tempo corria e, aos 40, apesar de todos os avanços da medicina, tinham medo de uma gravidez. Procuravam por sites na internet que corroborassem seu temor e se jogavam nas informações que apregoavam dificuldades em levar uma gestação a termo de forma confortável, mesmo que a maioria dissesse o contrário. Imbricavam-se nos artigos que estipulavam porcentagens cada vez mais altas de ocorrência de distúrbios genéticos à medida em que os óvulos envelheciam. Não optaram pelo congelamento deles. Preferiram acreditar em páginas que desaconselhavam o procedimento.

          O tempo foi passando e implacável bateu à porta do casal, que se fechou para qualquer tentativa de uma aventura materna. Não havia a possibilidade da adoção. Não para eles. Estava fora de seus planos. Com certeza, não seriam capazes de se enveredar por esse caminho.

          Joana começou a se sentir culpada por ter adiado tanto e por não ter tentado. Contraditoriamente sentia-se também culpada por não se arrepender de não ter tentado. Sua cabeça girava. Cobrava-se a cada pensamento. Julgava-se incompleta por não ser mãe e, ao mesmo tempo, completa e realizada, feliz com sua individualidade. Gostava de sua companhia. Gostava da companhia de Paulo. Ambos se bastavam. A família cobrava. O mundo cobrava. O universo conspirava contra a sua paz, jogando-a em um redemoinho de ansiedade.

          Seis meses de terapia e o insight: “nunca quis ser mãe! Mãe cheira a amor. Não sinto em mim o cheiro do amor maternal. Seremos apenas Paulo e eu. É suficiente para mim! Não há mal em não cheirarmos a pais”.

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