CONTO: SENHORA CENTENÁRIA

No verão de 2017, uma sexta-feira ensolarada, com temperatura de 32ºC, Jurema foi ao mercado fazer algumas compras. Sempre fazia suas compras ali. Porém, naquele dia teve uma sensação estranha, o ambiente parecia estar diferente, tinha algo errado naquele lugar. 

Continuou fazendo suas compras. Sem nenhum motivo especial, por impulso, Jurema olhou para o lado esquerdo do grande salão, onde se encontrava a padaria, e avistou uma pessoa muito esquisita, de costas. Não deu muita importância, mas quando olhou novamente a pessoa já estava ao seu lado, também escolhendo legumes, e começou a falar de seu tempo de juventude. O que era mais que natural para qualquer pessoa idosa, não fossem as referências de datas que não eram coerentes. 

Começou falando que nasceu em 1901 e que o lugar em que se encontravam, onde construíram aquele mercado, no passado era só mato. Disse ainda que antigamente tomava banho no rio Tietê… 

Meu Deus, será que estou falando com um fantasma? ‒ pensou Jurema. 

Engolindo seco, olhou bem para a velha e incoerente senhora e perguntou: 

— De onde a senhora é? Em qual cidade do Brasil a senhora nasceu? 

— Não queira saber, minha filha, tenho muitas histórias para contar ‒ respondeu a mulher, com uma risada misteriosa. 

Quanto mais Jurema tentava descobrir a origem daquela senhora, mais ela se esquivava. Seria, aquela velha senhora, uma bruxa? ‒ refletiu. No tempo da Inquisição, muitas bruxas foram queimadas… 

— Eu me refugiei neste lugar no tempo da Inquisição. 

Meu Deus! Estou, realmente, falando com uma bruxa ‒ pensou. E veio à mente de Jurema todo tipo de feitiçaria. 

— A senhora pode me dizer seu nome? 

— Para quê? 

— Desculpe, senhora Centenária, a senhora veio para cá no tempo da Inquisição, a senhora é uma bruxa? 

— Senhora Centenária? Quem lhe disse que este é o meu nome? Não, não é! 

Ela não disse o seu nome, então lhe dei o nome de senhora Centenária. 

— Então diga qual o seu nome. 

A velha senhora exalava um cheiro forte, não de velhice, mas de algo podre. Na cabeça de Jurema se formavam algumas ideias a respeito dela. Jurema pensou em uma estratégia para tentar descobrir algo. Começou perguntando como era, em 1901, aquele lugar em que estavam. A velha respondeu prontamente: 

— Era um colosso! 

— Quantos anos a senhora tinha quando chegou aqui? 

— Isso não importa. 

— Diga-me, o que a senhora fazia antes de chegar aqui em 1901? Já se passou mais de um século até hoje, a senhora percebe a incoerência? 

Nesse momento, Jurema entrou na fila para passar as compras no caixa e ficou de costas para a velha senhora. Quando se virou para continuar a conversa, ela tinha sumido! 

Jurema perguntou para a operadora de caixa se ela tinha visto uma senhora esquisita, com quem ela estava conversando. A moça olhou para Jurema com cara de espanto e disse: 

— Não há ninguém aqui além da senhora. A senhora está com algum problema? Posso lhe ajudar? 

A operadora do caixa pensou com seus botões: acho que essa mulher está ficando doida ou já é doida. 

Jurema ficou tão envergonhada que não sabia o que fazer. Pagou as compras e foi embora. Ao chegar a casa, pensativa, não queria admitir que viu um fantasma dentro do mercado. 

Ligou para a amiga Renata que, reconhecendo o número de Jurema, atendeu o telefone já dizendo que estava com muita saudade e perguntou se ela estava bem. 

— Eu estou muito bem, Renata. Mas estou aflita com uma coisa e quero sua ajuda. Como você é professora de História, você conhece bem a História de São Paulo? 

— Sim, conheço. 

Jurema contou o ocorrido. Renata imediatamente respondeu: 

— Essa história é muito antiga e dizem que é verdadeira. 

Jurema quase desmaia. 

— Então eu conversei com um fantasma? Ai meu Deus! 

— Jurema, não se preocupe, fique calma. No tempo da Inquisição, Portugal forçou as pessoas que lá moravam e não eram católicas a se converterem ao catolicismo. Aos que se recusavam restava a fuga, ou seriam queimados na fogueira. Muitos judeus vieram para o Brasil com o nome trocado para fugir da morte. Na verdade, aqui era uma densa selva. Aportavam aqui e, para os portugueses, problema resolvido. Se você quiser saber mais a respeito da Inquisição e como alguns judeus vieram para o Brasil, você pode falar com algum rabino, aí sim, você vai receber excelentes informações. Quanto à misteriosa senhora do mercado, acho que você falou com a única bruxa que conseguiu fugir da fogueira. Não me lembro o nome dela. Mas já ouvi muitas histórias dessa senhora, que você chama de senhora Centenária. Todas as vezes que falamos de bruxas, estamos sempre pensando no pior, mas não é bem assim. Fica tranquila, pois ela aparecerá para você outra vez ou outras vezes, talvez ela tenha algo para lhe informar. 

— Deus me livre! ‒ retrucou Jurema. 

— Não é Deus me livre, é fato ‒ reforçou Renata. 

Jurema, então, resolveu fazer uma pesquisa minuciosa sobre bruxas e bruxarias. O material que ela encontrou a deixou muito envergonhada. 

Há alguns séculos, existiam mulheres cervejeiras, mulheres que cuidavam dos filhos e da alimentação; separavam grãos e faziam o líquido para beberam. 

A vestimenta dessas mulheres que produziam cerveja, além das roupas normais, continha um chapéu pontudo e avental e usavam um tacho grande para a preparação do líquido. Quando a cerveja estava pronta, elas colocavam uma vassoura na porta para informar aos clientes que naquela cervejaria já tinha a bebida à disposição. 

Mas, como todos nós sabemos, desde que o mundo é mundo, tudo que acontece de errado na face da Terra tem apenas uma responsável: a mulher… 

Então, a Inquisição continuou sacrificando inocentes, simplesmente porque elas tinham o conhecimento das plantas e a habilidade para manipulá-las. Mas, diga-se de passagem, os maridos e os pais dessas mulheres contribuíram muito para que elas fossem parar na fogueira, não só na fogueira, pois a Inquisição tinha outros meios para sacrificar supostas bruxas. 

Os homens comerciantes começaram a observar que as mulheres estavam se sobressaindo nas cervejarias e tiveram a ideia de travar o seu desenvolvimento, isso acontece até hoje. Será que posso chamar de inveja? 

O fato é que os homens não queriam que as mulheres estivessem à frente de uma cervejaria, com certeza eles não tinham tantas habilidades quanto elas e começaram a boicotar sua produção. Eles passaram a denunciá-las por bruxaria. E deu certo! Silenciaram as mulheres mais uma vez. É imensurável a quantidade de mulheres que foram mortas. 

Jurema ficou pensando que talvez a senhora Centenária tivesse alguma coisa para lhe dizer ou ensinar. Talvez ela tivesse algum segredo que não foi revelado e Jurema teria sido a escolhida. Sentiu muito medo, medo e curiosidade. Ficou ansiosa para voltar àquele mercado. 

Assim, voltou ao ponto de partida, podia ser que ali fosse um portal. Foi lá que tudo começou. Em frente ao mercado, muito ansiosa, adentrou o estabelecimento. Lá, olhou para as operadoras de caixa e viu a mesma do outro dia, a que imaginou que ela fosse doida. Hoje será diferente ‒ pensou. 

Pegou um carrinho e começou a andar. Olhou as prateleiras de cereais, a padaria e foi para o lado dos legumes, pois foi naquele ponto que Jurema travou a conversa com a senhora Centenária. Não a encontrando, dirigiu-se à parte das bebidas. Virou-se para a prateleira atrás de si e lá estava a velha senhora. 

Jurema ficou imaginando como falar com uma pessoa que não sabia se estava morta ou viva, afinal estaria, provavelmente, falando com o espírito dela. 

Seu coração começou a bater mais forte, não sabia o que fazer, mas tinha que enfrentar o desafio. A mulher estava olhando para Jurema com um olhar penetrante. 

— Eu estou aqui porque sei que você veio para me ver ‒ disse. 

Jurema tremeu da cabeça aos pés, logo sentiu muito frio, mas o dia estava quente, temperatura de 30ºC. Ela não abriu a boca. A senhora centenária, então começou a passar informações sobre seu passado: 

— Não tenho muito tempo, estou aqui apenas para lhe dizer que as bruxas existem de verdade, mas não fazemos mal para ninguém. Também preciso informar que você tem o meu DNA, você é a última descendente da nossa linhagem. Vou passar nosso legado para você, quer você queira ou não. Aliás, você já tem nosso legado, precisamos apenas formalizar. Você está falando comigo, mas não posso dizer meu nome. Saí deste plano há mais de cem anos. 

Nesse momento a visão de Jurema escureceu e ela desmaiou. 

Ela acordou em uma cidade do passado, com casas muito diferentes das que conhecia. Eram casas muito feias, pareciam cavernas levantadas em terra plana. Quanto mais olhava para aquelas casas, mais pensamentos sinistros viam à sua mente. Olhou para o céu a fim de observar o que vinha de cima, pois sentia algo pairando sobre seu corpo. Visualizou uma nuvem negra descendo sobre sua cabeça, desviou-se e saiu correndo, não olhou para trás nem para cima, simplesmente correu. 

Quando parou, uma pequena casa, feita de pedras, chamou sua atenção. Era um pouco diferente das outras. Jurema olhou bem para aquela casa, teve a sensação de que já havia morado ali. 

Ela não conseguia sair dali, pois ficou como que presa, admirando aquela casa. Lembrou-se da conversa com Renata e, não contendo a curiosidade, dirigiu-se a casa. Batendo na porta, esperava ser atendida por alguém. A porta se abriu, mas ninguém apareceu. Jurema insistiu, chamou, pois tinha certeza da sua conexão com aquela casa, mas nada de especial ocorreu. 

Novamente na rua, Jurema ficou observando aquele sinistro lugar, mas dessa vez viu algo bem perturbador. Em uma pedra, bem no meio da rua cheia de pedregulhos, viu uma pessoa sentada, de costas para ela. Jurema ficou nauseada com o forte cheiro de enxofre que aquela criatura exalava. Aproximou-se cuidadosamente, quando chegou bem perto a pessoa se virou abruptamente, rindo bem alto. Jurema ficou sem voz, não queria acreditar no que estava vendo: era a senhora Centenária, toda caracterizada de bruxa, com vassoura e chapéu. 

— Eu sabia que você viria, de um jeito ou de outro. 

A senhora Centenária olhou para Jurema de cima a baixo e convidou-a para entrar na assombrosa casa. Jurema quase disse não, mas entrou e ficou pasma com o que viu. 

Dentro da casa malcheirosa, encontravam-se algumas pessoas estranhas, não conhecia nenhum tipo de bruxa do passado, com exceção da senhora Centenária, mas o que Jurema estava vendo dentro daquela velha casa horrorosa só podiam ser esqueletos de bruxas, já mortas há séculos. 

Começou olhando minuciosamente todos os esqueletos, a senhora Centenária a acompanhava e podia sentir certa admiração e entusiasmo na moça. 

Jurema começou a sentir-se mal, olhou pelo canto do olho e viu um esqueleto se mexendo. Sem conseguir acreditar, olhou novamente e percebeu que todos os esqueletos estavam vivos. 

Assustada, tentou caminhar em direção à porta, mas a senhora Centenária falou bem perto de seu ouvido: 

— Você nunca mais vai sair daqui! 

— Como nunca mais sairei daqui? Não tenho culpa de ter essa tal de mediunidade e carregar o DNA de bruxa. 

Com os olhos fechados, Jurema tentava pensar em como sairia dali. 

No hospital, onde Jurema estava internada, médicos e enfermeiros preocupados com o seu estado de saúde, pois ela não reagia ao tratamento. Na recepção, Gleice e Renata, suas duas amigas, estavam desesperadas com a situação. Uma enfermeira perguntou sobre os responsáveis pela paciente Jurema. 

A enfermeira, calmamente, disse às amigas que a senhora Jurema não estava mais entre os vivos. As duas amigas se entreolharam com muita tristeza, se abraçaram e choraram muito. 

No necrotério, um profissional se dirigiu ao corpo para fazer a autópsia. Retirando o lençol, observou que aquele corpo tinha vida, não deveria, em hipótese alguma, estar ali. Jurema levantou-se da mesa, olhou para o legista e disse: 

— Você sabe quem sou eu? 

O legista, tremendo de medo, respondeu negativamente. 

Jurema empurrou o homem para o lado e seguiu em direção à porta. O legista, com os olhos arregalados, viu quando ela, chegando a porta começou a se transformar em uma nuvem preta. O legista fechou os olhos de tanto medo e, quando os abriu novamente, já não tinha nenhuma nuvem preta nem tampouco algum cadáver na mesa daquele necrotério. 

O profissional ficou desesperado, tinha vários anos de experiência, mas nunca havia se deparado com tal situação. Como explicaria o sumiço do cadáver? 

Sua preocupação maior foi interrompida ao ouvir uma voz feminina, vinda da nuvem preta que, novamente, encontrava-se na porta: 

— Não tente se debater, você será meu! ‒ à fala, seguiu-se uma alta risada, sinistra, aterrorizante. 

Todo o espaço ficou totalmente preto. Em pânico, o homem começou a ter falta de ar, ficou roxo, balbuciou algumas palavras incompreensíveis e, por fim, desmaiou. 

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