CONTO: LIBERDADE

Cristina não aguentava mais. Estava exausta. Já oferecera sorvete, chocolate, brinquedo. Nada parecia adiantar. Duda não parava de chorar. Nunca batera no filho, mas chegou a ameaçar. Nem isso! O choro aumentou até.

As pessoas no ônibus olhavam feio. “É, imagina aturar isso todo dia”, Cristina pensava, sendo denunciada por suas olheiras. O marido trabalhava o dia todo. Só chegava à noite e era recebido com festa. Durante o dia, era ela quem tinha que aguentar as manhas, as crises de choro… Decidira trabalhar em casa pra poder ficar perto do filho, porém só conseguiu ficar ainda mais exausta com as infinitas interrupções.

Queria contratar uma babá, mas o pai era contra. Pra ele, era fácil. Por que não trocava com ela então? Também pensou em pedir a ajuda da mãe, porém ela dizia que não queria mimar o menino. A verdade é que ninguém queria aquela responsabilidade. Sobrava pra ela, mãe de primeira viagem, já desesperada.

Eduardo era uma criança difícil, se é que existem crianças fáceis. Tinha um temperamento terrível! Não podia ser contrariado que soltava o berreiro. E Cristina não sabia por que era assim, pois sempre tentou lhe impor limites, não cedia a todas as vontades do filho, como muitos pais. Ela não sabia mais o que fazer. Pensou até em pedir ajuda a um especialista. As crianças começam a frequentar um psicólogo cada vez mais cedo. Vivemos numa época de neuróticos. Mas, bem, se fosse resolver o problema…

As pessoas só sabiam palpitar, só que ninguém ajudava de verdade. Arranjavam as soluções mais óbvias: “Coloca de castigo”, “Tenta distrair com algum jogo”, “Dá recompensas por bom comportamento”. Como se ela já não tivesse tentado de tudo! 

Por isso, estava esgotada. Já passara muito dos seus limites. E, aquele dia, no ônibus, foi a gota d’água. Primeiro, entrou numa espécie de transe. O choro agudo de Duda, os olhares incomodados dos outros passageiros, tudo parecia tão distante… É como se ela não estivesse mais aqui, nesse plano. Que engraçado. Por alguns segundos, chegou a se sentir em paz. Mas o filho a puxou de volta à realidade ao gritar “Mãe!” e segurá-la pela manga da blusa.

Então, Cristina se desesperou. Sem pensar, deu o sinal e saltou correndo do ônibus. A criança não conseguiu alcançá-la, nem teve tempo para levantar do assento. Continuou chorando, mais ainda, sem a mãe.

Cristina pegou outro ônibus de volta pra casa. Era sábado, mas o marido estava viajando a trabalho. “Foda-se o passeio no shopping!”, pensou. “Eu só quero sossego”. Chegou em casa e tomou um longo banho de banheira. Que delícia! Finalmente tinha um tempo só pra si. 

Claro que logo em seguida viriam a culpa e a preocupação com o filho. Será que ele conseguiria voltar pra casa? Encontraria pessoas de bem que o ajudassem? Tomara que sim. Mas, antes, precisava cuidar de si. Depois do banho, tirou uma boa soneca. E se Duda nunca mais voltasse? Sabia que o pânico logo se instalaria ao considerar essa possibilidade. No entanto, por um momento, uma breve fração de segundo, desejou nunca mais ver o filho e poder ter sua vida de volta.

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