CONTO: UMA SIMPLES VIAGEM (PÓS-PANDEMIA, É CLARO!)

 Tudo na vida pode ser observado por variados ângulos. Meras questões de perspectivas e de pontos de vista. A mesma história pode ser vivida de modos distintos, narrada e concluída sob várias óticas.

          Uma simples viagem ao Japão – simples? – pode ser encarada de formas bem peculiares e pode criar diferentes expectativas.

          O otimista planeja a viagem dos sonhos, da vida: um grande amor estará à sua espera no país das cerejeiras; as tradições nipônicas o surpreenderão a ponto de não desejar voltar; imagina-se retornando como um falante fluente de japonês e trazendo os ideogramas na ponta do lápis. Para ele não há perturbações que o tirem do prumo. Otimista ou sonhador?

          O pessimista acredita numa péssima viagem. A comida insossa, o hotel minúsculo e o metrô lotado. Sem falar naquele alfabeto indecifrável. Já embarca contando os dias para a volta, por isso, da língua, só sabe o sayonará (adeus). O arigatô (obrigado) se recusa a aprender, já que acredita que nada de bom haverá para agradecer.

          O acomodado se sente cansado só de pensar. Afinal, um voo de mais de 24 horas, com várias conexões, noites mal ou nada dormidas é uma experiência por demais exaustiva. Sem falar no jet leg, ave maria! E conhecer todas aquelas cidades do roteiro lhe parece uma tortura chinesa, ou melhor, japonesa.

          O ansioso planeja arrumar a mala com um mês de antecedência. Leva na bagagem uma farmácia que quase o faz ser preso por tráfico de medicamentos e vestuário para as quatro estações – afinal, o tempo pode virar de repente. Checa 500 vezes se o passaporte está em dia, sai para o aeroporto pelo menos 48 horas antes do voo e só relaxa quando… Quando?

          O trágico não vislumbra o retorno e sequer a chegada. Seus pensamentos catastróficos anunciam uma trombose do viajante seguida de uma embolia fatal, uma queda do avião no meio do mar, ou até uma colisão com outra aeronave. Caso sobreviva a estas intempéries, do tsunami não escapa.

          O displicente vai de qualquer jeito: sem reservas de hotéis e apenas uma mala de bordo que mal dá para suprir a necessidade semanal de uma viagem que vai durar vinte dias. A comunicação será exclusivamente por gestos, já que nem o inglês ele arranha, e o pingo de ienes que poderá adquirir, mal dará para o pão e o leite – que as pesquisas não feitas sobre a cultura o fazem acreditar serem a base da alimentação oriental.

          O preocupado, ah… este já planejou, calculou gastos e riscos, fez planilha, tudo em seu lugar, reserva feita, roteiro traçado, kit de sobrevivência a terremotos providenciado. Na verdade, acha mais viável nem viajar. Não é o momento econômico adequado, o dólar nas nuvens, a recessão… É preciso que se guarde dinheiro para alguma eventualidade futura, nunca se sabe.

          Quem está certo? Quem está errado? 

          Experimente trocar de posição e ocupar o lugar do outro. Verá que ele tem razão. Muda-se a perspectiva, muda-se a visão. E no final, todos vão para o Japão.

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