Conto: Não jogue água fervente no meu jardim

Eu preferi não saber delas. Acreditei que desconhecendo a história, não me envolveria e estaria protegida, de alguma forma. Não que eu não quisesse me doar, não que eu não estivesse disposta a oferecer o melhor de mim. Só queria me proteger um pouco, além dos banhos de ervas e das orações, das tentativas de meditação e dos pensamentos positivos. Queria oferecer algo limpo. O meu eu flor, com minhas flores, ervas e conhecimentos. Compartilhar para somar. Elas eram meu teste. O teste do meu sonho. Um sonho que poucas vezes coloquei em palavras, poucas vezes deixei sair do meu coração. Um sonho que eu ainda não terminei de pintar dentro de mim. Um sonho que está sendo construído junto comigo. Um sonho que talvez precise de mais gente sonhando junto, mas que ainda não encontrei com quem compartilhar, ainda não surgiu no mundo alguém com quem eu possa falar e brilhar. Fazer acontecer. Vocês saberão do meu sonho, mas ainda não. O que eu quero que saibam é que eu tentei. Tentei me manter distante. Tentei ficar protegida em mim, isolada. Mas ele me pegou. O sentimento que pega todas elas. Não é tão simples quanto o medo, nem tão palpável quanto a ansiedade. Não é tão primário quanto a raiva, e nem tão complexo quanto a insônia. É um pouco de todos eles misturados. Mas não bem misturados, batidos com fouê, por uma mão preguiçosa. Uma mão que não deu ponto, que simplesmente jogou os ingredientes e confiou que a natureza agisse. Ela age, e nem sempre é para o bem. Deixar as coisas fluir é uma encruzilhada. De olhos fechados, nem sempre se acerta. E mante-los abertos é difícil. É o lado mais difícil. Relances e piscadas mostram que tem algo de errado. Em alguns casos dão o empurrão da aceitação, do reconhecimento. Em raros a coragem de sair. Em mais raros ainda a força para não voltar. Em muito mais raros ainda, o esquecimento.

Não que sejam necessários. Dá pra seguir sem nada disso. E com esse sentimento maluco, de bolo mal feito, vira e mexe surgindo, falando no cantinho do ouvido “ainda estou aqui”, nas horas mais improváveis e indesejadas. O que é necessário é a rede. O apoio. Mulheres. Pares em quem confiar. Falei isso para elas hoje. Uma chorou. A outra não esboçou a verdade, mas eu sei que pensou, sei que algo dentro dela assimilou o que eu disse. Nós dançamos. Uma dança tosca. Talvez se fossemos dez, seria mais bonita. Mas eu dei o meu melhor. E mesmo sendo três, representou a vida. Não éramos uma tríade perfeita, não consegui enxergar as três fases da deusa, não consegui me sentir conectada com as duas. Só com uma delas. Não uma conexão amorosa, nem mesmo afetuosa, mas de reconhecimento. De fazer parte da mesma teia, do mesmo todo. Estamos conectados com tudo e todos, mas alguns elementos estão mais distantes. Estar entre elas me fez pensar. Pensar em mim, nas minhas crenças, nas minhas expectativas, no meu sonho, que horas parece tão distante, horas parece possível, outras impossível, horas me dói e me faz arder por dentro, horas me aquece e me faz ter fé. Viver isso com duas partes distintas, com dois universos diferentes, me fez abrir portas fechadas, fez partes de mim juntarem cacos, fez os conhecimentos espalhados encontrarem liga e se fazerem um, mesmo longe e aparentemente desconectados. A vivência de um concreto simples me possibilitou compartilhar. Consegui transcrever, com palavras. Não para elas. Nem para as mulheres que convivo, e que talvez um dia sonhem comigo, mas para mim. Para uma parte de mim que está acordando, que eu ainda não me sinto confortável com sua presença, uma parte nova, florescendo. É tipo aquela praga de jardim que mal nasce e já espalha sementes. Não tem nem dois centímetros de altura, mas está ali carregada de pequenas bolinhas que caem no solo e se espalham. Mal dá tempo de piscar os olhos e elas se integram e fazem parte do jardim. Eu sou essa erva daninha, nesse jardim errado do mundo. Consegui plantar sementes. Espero que não venha ninguém com água fervente matar as minhas flores recém plantadas.  Meu jardim de ervas daninhas vai florescer.

Não sei se você já parou para observar ervas daninhas. Elas não são feias. Algumas têm pequenas flores. Outras são frágeis, e algumas têm raízes profundas. Todas se espalham rapidamente. Elas são férteis. Flores são bonitas e cheirosas, mas ervas daninhas se disseminam numa proporção que me encanta. Eu me sinto um pouco erva daninha. O mundo é bonito como uma rosa, e claro que tem sua graça, mas as rosas tem espinhos, que machucam. Pétalas são cheirosas e frágeis. Os caules grossos e com espinhos não conseguem protegê-las. O vento, a chuva e os animais as fazem serem fluidas e não permanentes. Já as ervas daninhas, estão próximas do solo e só uma mão humana atenta e precisa as retira dali. Não é tão simples. Precisa saber diferenciar e ter disponibilidade para ficar rente ao chão, com os olhos focados nos detalhes. É muito revolucionário. A revolução das ervas daninhas. E pode vir sentimento de bolo mal misturado junto, pode vir o que quiser vir. Nem água quente mata erva daninha. Rosas e amores perfeitos morrem com a quentura. Erva daninha não. 

Ervas daninhas e flores convivem bem. Com o tempo, erva daninha transforma flor em par. A flor perde o cheiro e um pouco da fragilidade. Fica mais rija. Os espinhos se tornam parte do cenário, aprende-se a desviar deles. As pétalas caem, mas outras nascem. O cheiro volta. E tudo circula. Tudo convive. Rápido, devagar, no tempo que for. Tudo circula. 

Fecho os olhos nesse circular. Aceito ser uma erva daninha. Aceito conviver com as flores, e com seus espinhos. Mas não venha jogar água fervente nas minhas flores. Quero crescer, sem ser vista, para esconder as flores, para que elas sejam parte do cenário e não chamem tanto a atenção, para que elas possam florir e despetalar-se, no seu tempo, protegidas pelas ervas não tão daninhas assim. Os espinhos, ficam por ali, mas já não vão mais machucar, não vão sangrar. E a água quente vai servir somente para o chá.

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2 comentários em “Conto: Não jogue água fervente no meu jardim

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