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Day Morais Poesia

POESIA: AMIGA

No canto mais escuro a vejo, tão amiga, tão querida, mas não a convido para entrar.

Ela sabe, não bate, já vem íntima como velha amiga que é.

– Fique mais um pouco, me conte outra história – eu digo – mas ela nada diz.

– Por favor então vá – digo enfim buscando forças para me libertar.

Fui tola, lhe dei munição para ficar e me intimidar. Imponente, fria, escura, é sempre assim quando ela vem me visitar.

Fique um pouco mais, escuridão, como a velha amiga que é…

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Dadá Amadeu Poesia

POESIA: VIDA

Leve como passo descalço de menina;

Sincera como primeiro beijo na pracinha;

Rápida como voo na classe executiva;

Árdua como criar sozinha a única filha.

E ainda caímos na armadilha

De tentar competir com sua velocidade,

De agarrarmo-nos à falsa mocidade,

De pensar poder vencê-la.

Enganamo-nos.

E só o notamos

Quando estamos

Sufocando.

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Leslie Liandra Poesia

POESIA: O AMOR PARA MIM

É o som da sua voz 

e o cheiro do perfume que acompanha o seu caminhar. 

É o brilho do seu sorriso

e a chama em seu olhar. 

É o aconchego do seu abraço, o refúgio dos seus braços 

e sua delicadeza na forma de me tratar. 

É o “boa noite” antes de dormir 

e o “bom dia” ao acordar.

É a simplicidade dos seus atos 

e do fato de você se importar. 

É o carinho em um beijo na testa 

e a ternura em, de fato, me beijar. 

É a sensação de ter você por perto e ser a razão de eu me apaixonar.

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Hanna Carpeso Poesia

POESIA: DÓI MENOS ESTAR SÓ DO QUE VIVER ESSA CONFUSÃO

Suas lembranças ainda me assombram

Como esquecer tantos desvarios?

Paixão que consumiu nossas almas

Deixa no fim a sensação do desvio.

E mergulhar no luto a cada dia

Sobreviver à saudade e a dor

Esperar cada minuto do tempo

A libertação desse furor

Desejo que tudo termine em paz

Que o tempo tenha compaixão

E cure esta crucificação

Nem que seja com a solidão.

Dói menos estar só do que viver essa confusão.

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Contos Paula Nogueira Terror

CONTO DE TERROR: ESCURIDÃO

Acordei no meio da noite e como de costume coloquei a cabeça pra fora do beliche para conferir se meu irmão mais novo ainda estava na cama, e para minha alegria ele estava. Nosso trato era que quem acordasse primeiro dormia do lado de nossa mãe no quarto dos nossos pais. Desci a escada do beliche tomando o maior cuidado para não acordá-lo, só o fato de conseguir o lugar ao lado da minha mãe no dia do meu aniversário era muito gratificante, não que meu pai fosse uma pessoa ruim, ele até mimava demais a gente, é que nada se compara ao calor de uma mãe, a forma como ela nos aconchega em seus braços, a gente se sente seguro de verdade.

E na pontinha do pé eu fui até a porta, o quarto iluminado pela luz de um abajur era aconchegante, mas eu não via a hora de estar na cama dos meus pais, então sem pensar muito sai do quarto, quase me arrependi na mesma hora, a escuridão que me cercava era claustrofóbica, pesada, o silêncio absurdo preencheu cada parte do meu corpo, mesmo assim decidi seguir o corredor, me segurando nas paredes até a porta do quarto dos meus pais. 

Estava fazendo um frio absurdo, meus pés descalços tocavam com cautela o piso frio, nem mesmo o breu impedia que eu visualizasse minha respiração saindo pela boca como uma fumaça. “Psiu”, meu corpo travou, eu só consegui pensar que devia estar com muito sono, ignorei o barulho e apertei o passo até o quarto dos meus pais. Antes mesmo de colocar a mão na maçaneta ouvi um novo chamado, agora um pouco mais alto. Nossa cozinha ficava de frente para a porta, e mais ao fundo ficava a lavanderia, o barulho vinha de lá. 

Meu desespero cresceu desenfreado, ouvi meu nome vindo de dentro da escuridão, minha garganta secou e com força segurei a maçaneta da porta, mas antes de conseguir fazer qualquer outro movimento ouvi meu nome, em alto e bom som, meu corpo paralisou, “ Paula, tenho um presente pra você”, a voz parecia ser de mil almas falando ao mesmo tempo, em volumes e tons diferentes, “ estou aqui por você”. Entrei em choque, meus olhos não piscavam, e em meio a escuridão eu vi, tremi diante do ser que se arrastava na minha direção, meu corpo num transe sufocante, não conseguia tirar os olhos daquilo, era grande, e cada vez que tentava se levantar ficava ainda maior, o escuro já não era mais tão escuro quanto aquilo que se aproximava de mim. 

Meu corpo suava e tremia inteiro, tentei abrir a porta mas nada aconteceu, entrei em pânico quando percebi que estava trancada. Minha respiração que até o momento era totalmente irregular agora travou em minha garganta, meu medo cresceu a limites extremos quando a criatura abriu os olhos, um tom amarelo vivo me hipnotizou, “ não fuja de mim criança, tenho algo pra você”.

Um cheiro insuportável de enxofre misturado com carne podre invadiu o ambiente, minhas narinas arderam como brasa. A criatura pareceu começar a cantar, um canto demoníaco, meu corpo amoleceu, uma tristeza absurda me inundou, fui tomada por um sentimento de desistência absurda, não senti mais esperanças de que a porta atrás de mim pudesse se abrir e minha mãe me puxar pra dentro, naquele momento só existia eu e aquela criatura a minha frente, aqueles malditos olhos amarelos. Chorei calada, ainda em transe pelo movimento gatuno daquela criatura, o corredor diminuindo cada vez mais, senti meu braço amolecer e soltar da maçaneta, pendendo ao lado do meu corpo. Era impossível desviar os olhos, minha atenção se fincou no andar lento da criatura que clamava pelo meu nome em um milhão de vozes. Meu coração gelou ao sentir o toque asqueroso em meu calcanhar e em segundos me levou ao chão, me puxando para perto dela. O canto se transformou em gritos malditos e o medo disparou meu coração, como se ele fosse explodir dentro do peito, seus gritos alcançavam tons cada vez maiores, fazendo meus ouvidos sangrarem, o suor escorrendo e se fundindo as minhas lágrimas, as mãos da criatura subindo pelas minhas pernas.

“Meu amor, não tenha medo”, paralisei ao ouvir a voz de minha mãe, olhei para trás e vi meus pais saindo da escuridão, parando no batente da porta. Soltei gritos desesperados de socorro mas me calei quase de imediato quando vi seus olhos amarelos, como as da criatura a minha frente. “A gente está aqui com você”, disse meu pai, ambos exibiam um sorriso tão grande que quase rasgava os cantos de suas bocas, uma felicidade doentia, e lá do fundo de suas gargantas começava uma gargalhada ácida. 

Eu sabia que não adiantava mais lutar, me rendi ao abraço da criatura, o hálito quente e fedido enchia meu rosto, e ao abrir a boca senti uma pressão descer pela minha garganta, a criatura mantinha a boca aberta perto da minha, e sem aguentar mais vomitei uma bile negra, o mesmo cheiro de azedo da criatura agora também emanava de mim.

“Agora você é minha”, a criatura enfiou sua mão gelada dentro do meu peito e retirou meu coração como se não fosse nada, uma dor sufocante eletrizou todo o meu corpo e cai de joelhos diante dela, ela que agora seguiria sem saber o porque. A criatura mastigava meu coração, a carne fresca em suas mãos, pingando sangue, o meu sangue, no topo da minha cabeça. Palavras que eu não compreendia saiam da boca dela enquanto entregava os restos de carne para meus pais, que devoraram como se fosse a maça do jardim do Éden. 

Ouvi os gritos de meu irmão abafados pelo choro, eu me perguntei porque ainda estava consciente, mas apenas da mente, porque me vi encaminhando em direção ao meu quarto e dividindo a carne do coração de meu irmão junto com meus pais.