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Adam Mattos Contos

CONTO: PAULO E LIZA

Paulo estava andando pela rua, cabisbaixo, pensando nas perdas que sofreu na vida. Primeiro, quando criança, seu cachorro Pitty fugiu de casa, causando-lhe um sofrimento igualável a perda de um familiar, depois, quando era um pouco mais velho, tinha uns dezessete anos, seu pai o abandonou, deixando-o sozinho com sua mãe. Quando adulto, morava sozinho e tinha a sua independência — um bom emprego, uma namorada que amava — sua mãe faleceu abruptamente, de um ataque cardíaco fulminante, deixando-o praticamente órfão. E Meses depois, em um dia que estava com uma enxaqueca lancinante, saiu mais cedo do trabalho e encontrou a namorada na cama com outro homem. Sua reação foi apenas de chorar ao ver os dois se vestirem e saírem da casa, nesse dia a namorada saiu para sempre da sua vida. Dois anos depois, quando já tinha quarenta e dois anos, depois de uma crise arrebatadora que assolou o país, ele foi demitido por conta da contenção de despesas. E era nessa situação em que Paulo se encontrava agora, andando pela rua, sem perspectiva e pensando em como a vida tinha sido injusta com ele até então. Ele precisava do que os americanos chamam de um break, uma pausa, que algo bom acontecesse para que a vida voltasse a ter sentido.

Distraído, ele acabou trombando com uma mulher que vinha apressada na direção oposta carregando uma pilha de papéis, derrubando-os no chão. Paulo imediatamente pediu desculpas e começou a ajudar a moça a recolhê-los, foi então que seus olhos se encontram e eles pararam de súbito. Algo aconteceu ali, nem ele e nem ela sabiam explicar, mas era como se já se conhecessem há muito tempo. Quando terminaram de recolher todos os papéis, ele prontamente se apresentou:

— Me chamo Paulo, muito prazer.

— Sou Elizabete, mas pode me chamar de Liza. O prazer é meu.

— Olha, me desculpe o atrevimento, mas isso não acontece comigo com frequência. Você poderia me passar o número do seu telefone?

Liza sorriu e prontamente pegou o celular dele, anotou o dela e disse:

— Me ligue. Vamos sair qualquer hora para tomar uma cerveja.

Paulo se despediu e continuou andando, ouvindo os passarinhos cantarem. A vida parecia bela novamente, tudo aquilo que vinha o deprimindo agora parecia apenas uma lembrança longínqua de um passado distante. Ele era feliz novamente. Uma mulher linda, que aparentava ter uns vinte e poucos anos, tinha se interessado por ele. Ele não via a hora de ligar e marcar para sair com ela.

A semana correu normalmente, Paulo não tinha muito o que fazer, já que estava desempregado. Mas isso não o deprimia mais, ele não via a hora de chegar quinta-feira para ligar para Liza. Chegando o dia, ele ligou:

— Alô?

— Alô, Liza?

— Isso, quem fala?

— É o Paulo. A gente se esbarrou na rua, tá lembrada?

— Ah! Oi, Paulo, claro que sim. Tudo bem? Achei que não ia me ligar mais.

— Desculpe, é que a semana foi corrida. Mas, e aí? Topa aquela cervejinha no sábado?

— Claro, topo sim. Para onde você quer ir?

— Tem um barzinho no Batel, o Shadow, que eu gosto muito. Conhece? 

— Conheço sim, já fui algumas vezes, também gosto de lá.

— Que tal a gente se encontrar lá às sete da noite? O que acha?

— Por mim está ótimo.

— Maravilha, marcado então. Um beijo e até lá!

— Um beijo. Até.

Paulo desligou o telefone e mal podia se conter de tanta alegria, tinha conseguido um encontro com uma mulher linda, depois de tanto tempo.

Sexta-feira foi ao cabeleireiro para cortar o cabelo e fazer a barba, saindo de lá foi direto ao shopping comprar uma roupa nova para o encontro. Ele comprou uma calça de sarja branca e uma camisa social preta para combinar com o seu sapato, gastou quase toda a sua economia, mas valeria a pena.

Chegando o grande dia, ele se arrumou, passou o perfume Carolina Herrera 212 quase no final, e foi para o bar às seis da tarde para ir tomando umas cervejas, assim, quando ela chegasse, ele estaria um pouco mais desinibido.

Às sete e quinze da noite Liza chegou ao Shadow e já o avistou de longe.

Meu Deus, como ela é linda, ele pensou. A sensação de que já a conhecia se tornou mais forte. Era o destino falando mais alto, só podia ser.

Eles se sentaram à mesa e começaram uma conversa, que fluía como se já fossem velhos amigos. Ela contou que era advogada recém-formada e estava trabalhando em uma firma de renome em Curitiba. Paulo não teve coragem de dizer que estava desempregado, não ainda, afinal, ele queria conquistá-la primeiro, por isso disse que ainda estava trabalhando em seu antigo emprego, fora isso foi supersincero com ela, pois parecia que podia confiar naquela estranha completamente. Dessa vez o cupido tinha agido da maneira correta e ele achava que finalmente tinha achado a mulher certa.

Eles ficaram no bar até uma da madrugada, quando ele a convidou para ir ao apartamento dele, convite esse que foi prontamente aceito. Lá chegando, abriram uma garrafa de vinho e começaram a se beijar. Ela relutou por um instante dizendo que nunca tinha ido para a cama com alguém na primeira noite, mas que aquele não era um encontro comum, ela sentia algo diferente e sabia que ele também sentia. A coisa foi esquentando e foram para a cama, fizeram amor e, no final, ele arriscou um “Eu te amo” para ela, que, assustada, retribuiu a gargalhadas “Eu também te amo”. Os dois estavam vivendo a história de amor da vida deles.

De manhã, quando ela estava tomando banho, ele viu a carteira dela aberta em cima criado-mudo ao lado da cama e deu para ver o RG. Algo que ele não sabia ao certo o que era o fez pegar o documento dela. Seu coração parou por um segundo quando viu o nome do pai dela, Joarez Silvério Stroberg de Azevedo, foi então que entendeu imediatamente o motivo de tanta afinidade. Ela era a sua irmã.

Conto que integrará o livro: Devaneios de uma mente perturbada”

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Adam Mattos Poesia

POESIA: O TAMBORILAR DO CORVO

O tamborilar de algo lembra uma cantiga
Remete-me aos lúgubres vazios…
Como era mesmo aquela música antiga?
Acho que era do Vivaldi com Hugo Emil

Mas esse é um concerto de violino alegre 
E por que essa lembrança me faz tremer?
Mesmo que de tudo eu abnegue
Nunca deixarei de sofrer

Acho que finalmente entendo os corvos do holandês
Eles estão fugindo, mas sempre voltam. 
Com a mesma rapidez
Que os achaques do passado me afetam

Eles voltam por não ter escolha
Assim como nossa mente insiste no pensamento cruel
Nunca um sentimento impoluto abrolha
Como os corvos, presos para sempre por um pincel.

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Adam Mattos Poesia

POESIA DO LIVRO: ALMA EM PEDAÇOS

A distância é uma chaga que derruba

Uma pessoa saudável até então

Não há uma só que não sucumba

A terrível dor de uma separação

Quilômetros de distância são sentidos

Na alma de quem verdadeiramente ama

Essa dor a que somos submetidos

Nos deixa doentes, às vezes até de cama

Nem os mais fortes suportam tranquilamente

Quando quem amam está tão distante

E se pegam esperando ansiosamente

O reencontro espetacularmente excitante

Pois quando este finalmente acontece

Uma explosão se espalha pela mente

E uma fagulha de paixão enaltece

Todos os nossos sentidos plenamente


“Um Deus sensivel

«Manda repouso á dor que te devora

«D’estas saudades immortaes.

«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»”

O Corvo – Edgar Allan Poe

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Adam Mattos Contos

CONTO: O SONHO

Claudinho tinha onze anos e sonhava ser jogador de futebol. Palmeirense fanático, não perdia um jogo sequer do Palmeiras na televisão e tinha os pôsteres emoldurados de campeão da Copa do Brasil de 2015 e o de Campeão Brasileiro de 2016 — os dois títulos que ele havia visto o time conquistar — na parede. Claudinho tinha uma irmã mais nova, de nove anos, com quem ele brincava de driblar pela casa, sob protestos dela e da mãe, que temia que ele quebrasse alguma coisa. Ele queria um dia jogar no Palmeiras, mas o seu maior sonho mesmo era conhecer o Allianz Parque, sentir a emoção da torcida, gritar “Meu Palmeiras, Meu Palmeiras” durante o Hino Nacional. E o menino não falava em outra coisa, estava inclusive juntando dinheiro em seu porquinho para ajudar a pagar a viagem.

Claudinho morava em Londrina, seu pai era policial, e a mãe médica, portanto, a falta de dinheiro não era o impeditivo para que seu sonho se concretizasse. Sempre que ele pedia aos pais, os dois prontamente diziam “um dia a gente vai, meu filho”, mas esse dia nunca chegava. Os pais não eram ligados em futebol, então não davam importância a obsessão do garoto. Com muito custo, ele os convenceu a assinar o programa mais barato de sócio torcedor do time para que ele pudesse contribuir com a sua paixão. Quando os pais, ou qualquer um, perguntava a ele de onde vinha esse amor todo pelo Palmeiras, ele costumava dizer que não escolheu o Palmeiras, mas que o Palmeiras o escolheu, e complementava com uma frase de Joelmir Beting: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”. As pessoas riam e achavam bonitinho, mas não levavam a sério o amor que ele sentia pelo time, e isso o frustrava profundamente.

Certo dia, Claudinho acordou cedo, arrumou uma trouxinha de roupas dentro da sua mochila da escola e saiu escondido, ele iria para São Paulo de carona, e chegando lá, contaria a sua história para alguém do estádio e eles o deixariam assistir a um jogo. Ele quebrou seu cofrinho, contou as moedas, tinha cento e cinquenta e três reais e alguns centavos, entrou escondido no quarto do pai, e pegou da carteira dele mais duzentos reais. Com essa quantia ele achava que dava para comprar comida e o que precisasse para chegar até lá, e se desse sorte com as caronas, poderia até, quem sabe, sobrar dinheiro para um ingresso.

Ele desceu pelo elevador com a mochila nas costas às cinco da madrugada, passou despercebido pelo porteiro, que dormia, e seguiu andando a pé em direção à avenida principal, onde iria pedir carona até a rodovia. De lá, ele tentaria, com algum caminhoneiro, ir até São Paulo. Se ninguém o levava a sério, ele iria sozinho.

Ele tinha passado uns quarenta minutos sozinho, no escuro, com o polegar em riste em busca de uma carona, quando um carro em alta velocidade veio em sua direção e parou abruptamente, quase derrapando à sua frente. Ele conhecia aquele carro. Quando o motorista desceu, ele reconheceu o seu pai se debulhando em lágrimas, seguido pela sua mãe, chorando compulsivamente. Eles correram em sua direção e o abraçaram forte, como se não o vissem há uma década.

— O que você está fazendo aqui, filho? — perguntou o pai, soluçando.

— Estou indo pra São Paulo assistir a um jogo do Palmeiras.

A mãe deu um grito de espanto, enquanto o pai começou a rir de nervoso, ainda chorando.

— Filho, não dá pra você ir pra São Paulo de carona. Você ficou maluco?

— É o único jeito. Ninguém me leva a sério, só ficam me enrolando. E se eu morresse sem nunca ter visto o Palmeiras jogar?

Aquela frase tocou o coração do pai, que ainda, sem largar o filho, fez uma promessa.

— No teu aniversário de doze anos, daqui a um mês, vamos todos pra São Paulo. Eu prometo. Vamos comemorar lá, nós quatro, assistindo a um jogo. Que tal?

— Sério??? — perguntou o menino, dando pulinhos de alegria.

— Sério — respondeu o pai.

A semana seguinte passou uma maravilha. O alívio de ter achado o filho em segurança foi tão grande, que os pais nem pensaram em puni-lo, muito pelo contrário, iam acabar de uma vez por todas com aquela obsessão que tinha se tornado conhecer o mais belo estádio do mundo, como o filho costumava se gabar.

Depois de alguns dias, o pai chegou a casa com um envelope na mão e perguntou direto para o filho:

— Sabe o que tem aqui?

— O quê?

— É o teu presente de aniversário.

Claudinho, sem se conter, correu em direção ao pai, deu um abraço e pegou o envelope da mão dele. Assim que ele o abriu, viu quatro passagens aéreas, ida e volta para São Paulo, e quatro ingressos para Palmeiras X Grêmio para dali duas semanas. O garoto não sabia o que fazer de tanta alegria. Ele abraçava o pai, a mãe, a irmã, que não sabia direito o que estava acontecendo, corria pela casa gritando que ia ver o Palmeiras de perto, que iria conhecer o Allianz Parque. Sem dúvida, aquele era o dia mais feliz da sua vida.

Os dias que se sucederam foram só de alegria na família, Claudinho até ajudava nas tarefas de casa, ia para a escola sem reclamar, fazia as lições da escola e obedecia aos pais como se fosse um anjo.

Quando faltava menos de uma semana para a viagem, o pai de Claudinho chegou esgotado do trabalho — tinha feito uma perseguição a bandidos e uma série de papelada burocrática para preencher —, tirou o casaco e o coldre com a arma, colocando-os em cima da mesa e foi direto tomar banho. A mãe estava na cozinha preparando o jantar quando o garoto e a irmã viram a arma e resolveram brincar de polícia e ladrão.

— Eu sou a polícia e você é o ladrão — disse Claudinho.

— Nada disso, vamos no par ou ímpar.

— Ae, ganhei. Eu sou a policial e você o ladrão — disse a irmã de Claudinho.

Ela pegou a arma, tirou do coldre e saiu correndo pela casa, apontando a arma para o irmão. Foi então que um disparo aconteceu e Claudinho caiu no chão, ensanguentado, já sem vida. O tiro atingiu a nuca do garoto.

Os pais foram correndo em direção ao barulho e encontraram o filho morto no chão e a menina chorando com a arma aos seus pés. Todos se ajoelharam em volta do corpo sem vida do menino e choraram.

O pai foi detido pela polícia, mas logo foi liberado, ia responder ao processo em liberdade. A mãe e a irmã eram duas zumbis, não falavam, não comiam, não faziam nada. Claudinho foi cremado e as cinzas colocadas em uma urna na estante da sala.

À noite, olhando para as cinzas, o pai falou:

— Nós ainda vamos levar o Claudinho ao jogo.

— O quê? — disse a mulher

— Nós vamos levar as cinzas do Claudinho ao jogo — disse e começou a soluçar de tanto chorar.

No dia do jogo eles deixaram a filha na casa dos avós, pois agora não tinha mais sentido levá-la, afinal, não era nenhuma comemoração e ela estava muito abalada com o que tinha acontecido. A menina não tinha falado uma palavra sequer desde aquele fatídico dia. Eles embarcaram no avião e partiram rumo a São Paulo. Chegando ao estádio, colocaram as cinzas do filho dentro de um saco plástico e o pai o colocou dentro da cueca, para passar pela revista. Quando estava para começar, o pai pegou o saco, foi o mais próximo que pôde do gramado e espalhou as cinzas do filho no Allianz Parque, o lugar que o filho mais quis conhecer em vida, mas que agora ia viver na eternidade.

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Adam Mattos Dica de Livro Opinião

DICA DE LIVRO: O REFORMATÓRIO NICKEL

“Até na morte os garotos eram um problema”
É com essa frase que Colson Whitehead começa o livro ganhador do prêmio Pulitzer 2020. E é uma escolha muito feliz, para nos preparar para o que vem a seguir. Em “O Reformatório Nickel” o autor conta a história de Elwood, um garoto negro, morador da cidade de Tallahassee na Flórida da década de 60, em meio às ações afirmativas dos negros em busca de direitos fundamentais. Como por exemplo: frequentar os cinemas, sentar em qualquer lugar nos ônibus, e frequentar restaurantes. O garoto, fã do Dr. Martin Luther King, o escuta frequentemente em sua vitrola e sonha com dias melhores. Até que o Reformatório Nickel entra em sua vida a transformando para sempre. O Livro é dividido em três partes igualmente tensas e revoltantes. É um livro atualíssimo e que mesmo passando-se à décadas, traz os sonhos do garoto e do próprio reverendo King fazendo eco às ações de hoje, como a “Black Lives Matter”, contra a violência policial. Aquela luta infelizmente, ainda está longe de acabar. Outra importante mensagem que o livro deixa é que vale a pena lutar. Aquelas pessoas que foram mortas ou presas pela polícia na década de 60 são responsáveis pelos direitos que os negros tem hoje. Da mesma maneira que os mortos e torturados pelos militares na mesma década aqui no Brasil, são responsáveis pela liberdade que temos hoje. Mesmo que no momento, frágil.
Apesar de denso, o livro é curto e de fácil leitura. E para fechar com chave de ouro, tem um final tragicamente lindo que ninguém está esperando.
Se prepare para se emocionar, se revoltar e principalmente, ler um retrato cru do que os negros passaram pós escravidão, e não se engane, continuam passando até hoje. Um tapa na cara dos brancos privilegiados que negam o racismo(apesar de que esses não lerão).
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️