Categorias
Adriano Besen Contos

CONTO: O LOBISOMEM

Eu sempre fui fascinado por histórias de lobisomens; em especial, as dos filmes e livros sobre o assunto. Mas quando eu tinha uns doze anos de idade, eu vi um lobisomem de perto; e foi uma experiência apavorante. Foi um dia que eu estava com minha família na casa de um tio; era um jantar festivo, ou algo assim. Era uma bela noite de verão, com um céu estrelado e uma imensa lua cheia brilhando. Após a refeição, os adultos ficaram conversando a mesa; e meus primos e eu, fomos para frente da casa deles. Nós nos sentamos na calçada e ficamos ali se divertindo e batendo papo.

A rua estava deserta, era quase meia noite e toda a vizinhança parecia já ter se recolhido. Foi quando nos chamou a atenção que o silêncio local se quebrou quando todos os cachorros da rua começaram a latir insistentemente ao mesmo tempo. Na esquina, vinha vindo em nossa direção, um homem. Ele parecia muito apressado e caminhava como se estivesse sentindo alguma dor; ele caminhava arqueado, cabeça baixa. Meus primos e eu ficamos mudos, olhando o homem passar por nós.

O homem não nos olhou, passou direto e rápido, como se não quisesse ser notado ou observado. Porém, nos chamou a atenção a sua camisa rasgada, pés descalços; e muito, mas muito peludo. O homem tinha muito pelo nos pés, nas mãos e nos braços e no rosto. Nunca tínhamos visto algo assim. O homem apressado entrou direto em uma casa no final da rua; meus primos comentaram que era uma atitude estranha, pois aquela casa estava abandonada.

Nesse momento, todos os cachorros da vizinhança recomeçaram a latir ferozmente. Eu comentei com meus primos que aquele homem até parecia estar prestes a se transformar em um lobisomem. Todos se empolgaram e resolvemos ir até a casa abandonada, cheios de imprudência e coragem. A cachorrada estava enlouquecida; quando de repente, eu vi algo assustador nos fundos daquela casa abandonada. No meio da escuridão, precariamente iluminada pela lua cheia, havia uma criatura coberta de longos pelos, com olhos esverdeados e brilhantes. Estava de pé nas patas traseiras e rosnou tão forte que o chão pareceu estremecer abaixo dos meus pés. Aquilo era com certeza um lobisomem, mas não nos atacou. Por quê?

Meus primos e eu, corremos consumidos pelo medo e se trancamos em casa. Ficamos em estado de choque durante algum tempo. Os adultos não acreditaram na história que contamos; acharam que tínhamos fantasiado alguma situação do cotidiano. Mesmo assim, diante do nosso evidente nervosismo, se viram obrigados a ir até a casa abandonada para checar. Levaram lanternas para inspecionar o local totalmente escuro. Os cachorros da rua não estavam latindo; um sinal de que a ameaça já não estava mais por ali. Não havia mais nada lá. Aquela horrenda criatura tinha ido embora. O lobisomem se foi; mas nunca mais esquecerei o que vi naquela noite de lua cheia.

Categorias
Adriano Besen Contos Terror

CONTO(TERROR): HISTÓRIA DA BUCHADINHA

Assim como existem as histórias de pescador, existem também as de caçador. Essa que conto agora é uma história de terror. Passando de caçador para caçador, chegou ao conhecimento do meu avô que sempre contava nas reuniões de família. As crianças morriam de medo, enquanto os adultos davam risadas. É a apavorante história de um caçador ganancioso que costumava matar todo tipo de animal que encontrava; para tirar o couro ou a pele para sua coleção pessoal.

Contam que certa vez, esse caçador saiu para caçar enquanto acampava em uma floresta e matou um pequeno macaco. Tirou o couro do pobre animal e dispensou a pouca carne que o bicho tinha juntamente com o bucho e demais entranhas. Deixou tudo jogado no chão da floresta, exceto o couro. Voltou para o acampamento, acendeu uma fogueira, comeu qualquer coisa e assim que caiu a noite, se recolheu na sua barraca; estava cansado.

Dormiu por algumas horas e durante a madrugada, acordou ouvindo uma voz estranha. Levou um susto, pois acreditava que estava em um local isolado da floresta onde não haveria ninguém mais além dele. Será que teria sido um sonho? Mesmo assim ficou intrigado, pegou a lanterna e sua espingarda e saiu da barraca para ver o que estava acontecendo. Iluminou com a lanterna em diversas direções e não via nada. Somente mata; árvores na escuridão da madrugada.

De repente, ouviu novamente a estranha voz e dessa vez, ouviu perfeitamente. A voz dizia em tom de pergunta: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” O caçador achou que aquilo só podia ser alguma brincadeira de alguém e avisou que estava armado. A voz na escuridão repetiu a pergunta: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” O caçador já assustado e sem entender nada, deu um tiro para cima.

Nesse momento ele ouviu um barulho de gravetos se quebrando atrás dele. Virou-se rapidamente e apontou a lanterna para ver o que era; não acreditou no que estava vendo. Na sua direção, vinha rastejando as entranhas gosmentas do pequeno macaco que ele havia matado algumas horas antes. Era uma mistura de carne e bucho ensanguentado que perguntava com uma voz sofrida: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” Uma cena típica de um filme de terror.

O caçador arregalou os olhos e deu um tremendo grito de pavor. Largou a espingarda e saiu correndo em estado de pânico. Dizem que nunca mais voltou à floresta. Nunca mais caçou. Segundo a história, o caçador chegou à cidade em choque e não dizia coisa com coisa. O homem enlouqueceu. Essa é a história da buchadinha.

Categorias
Adriano Besen Contos

CONTO: A CASA DA ESTRADA VELHA

Todos tinham medo de passar pela estrada velha, também conhecida pelo nome de Rua das Hortênsias. Passar por lá no meio da noite, nem pensar. É um local deserto, apesar de ser um lugar muito bonito e de uma beleza natural fantástica. Tem hortênsias em ambos os lados da estrada; em toda a sua extensão, tornando a rua um lindo corredor enfeitado de flores. Um cenário digno de ser exibido como uma pintura em um quadro.

Nessa estrada, existe uma casa abandonada com uma única árvore na frente; um pé de Cipreste, a árvore símbolo da morte. Na casa hoje abandonada e caindo aos pedaços, morou uma solitária senhora chamada Valquíria. Reza a lenda que a dona Valquíria caiu no lago que fica atrás da casa e o seu corpo jamais foi encontrado. Outro fato bastante curioso é o significado do nome Valquíria: “aquela que escolhe os que vão morrer” ou “aquela que escolhe os mortos”.

Dizem que após a morte da senhora Valquíria, a estrada velha se tornou um lugar assombrado; como se estivesse sido amaldiçoado.  As pessoas que passavam por lá afirmavam que sentiam calafrios e sensações desagradáveis. Por esse motivo, nenhuma casa foi construída naquela rua; apesar de tanta beleza no local. Nunca deixou de ser uma bonita estrada, com uma única casa antiga abandonada e com um solitário guardião na frente da residência; o pé de Cipreste.

Certo dia, um padre foi até a casa abandonada da senhora Valquíria com a intenção de fazer algumas orações nos arredores da propriedade. O religioso queria trazer a paz Divina, lançando suas bênçãos. Porém, ao circundar o macabro pé de Cipreste, a porta da frente da casa abandonada se abriu e de lá, saiu o cadáver putrefato e desfigurado de dona Valquíria, caminhando na sua direção. Uma aparição horripilante. O padre saiu em desespero e logo, a notícia do que presenciou já havia se espalhado por toda a cidade. O santo padre só confirmou o que as pessoas já desconfiavam.

Depois disso edificou-se a lenda de que, a pessoa que chegar à casa da estrada velha, Rua das Hortênsias e caminhar ao redor do pé de Cipreste, será perseguida pelo horrendo cadáver da dona Valquíria. Dizem que diversas pessoas desapareceram na região próxima a funesta propriedade. Acredita-se que a senhora Valquíria afoga suas vítimas no lago atrás da sua casa. Teriam essas pessoas, caminhado ao redor do pé de Cipreste? Teriam sido essas pessoas, vítimas do apavorante cadáver de dona Valquíria? Você teria coragem de passar pela estrada velha no meio da noite? Eu não.