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CONTO: FLORESTA NEGRA

Assombrosa Floresta Negra, diluída em sua névoa. Uma fonte do oculto, dos mistérios, da criatividade, da produtividade, da inspiração. Habitei durante anos suas entranhas; percorri seus inacessíveis vales na companhia do meu pinscher selvagem. Não sabia se era dia ou noite; e isso não importava. A floresta não reconhece nem a luz e nem as trevas. Morada de todos os seres; da vida e da morte. Manifestações angelicais ou demoníacas habitam dentro de ti. Diga-me onde elas estão. É difícil perceber quando se está na Floresta Negra. Em meio ao labirinto sedutor dos obscuros pinheirais.

No frio do teu impiedoso clima ou no calor do traiçoeiro desejo, não é tarefa fácil distinguir verdades de mentiras, trapaças de cortesias, remédios de venenos. Está fora e dentro de mim a selvagem Floresta Negra. Quando o bem se esquiva e o mal se revela, a trilha se bifurca e a dúvida reivindica a transmutação. E agora, que caminho seguir? Lobisomens, Bruxas, Demônios e todas as criaturas monstruosas das gélidas sombras espreitam por ali. Estão famintos, sedentos, obsessivos.

De tocaia, eles aguardam por mais uma vítima inocente, uma alma indefesa; para o desfecho do sacrifício derradeiro. O Bem sempre vence o Mal; mas até que o Bem triunfe, o Mal tripudia com escárnio sobre os que sucumbem no caminho. Não há feitiço ou feiticeiro que seja capaz de oferecer salvação a quem desistiu de ser salvo. Na rigorosa Floresta Negra, os predestinados enxergarão a glória; mas somente na hora do crepúsculo. Poderão alcançar com bravura a passagem pelas regiões pantanosas e pelas calamidades impostas. A jornada será vencida, apesar das incansáveis e fulminantes ciladas das forças adversárias. 

Por entre o emaranhado de galhos das árvores da selva, os notáveis raios cintilantes da vitória, surgirão como benção Divina, como um chamado Celestial. Os Seres Elementais cantarão louvores aos destemidos vencedores. A Floresta Negra protege e amaldiçoa quem está em seu hostil território; a magia é respirada no ar, a vida é sentida na terra, o tempo e a energia fluem na água e a chama acalorada dos sentidos humanos arde no fogo da luz do sol.

A Floresta Negra me enreda em seus encantos, me arrebata nos braços do destino; no testemunho dos meus valorosos ancestrais. Nessa fantástica ampulheta da vida, o tempo me leva ao pó da sobrevivência. Enquanto eu percorria livre o escuro corredor da solidão silvestre do seu interior, era observado pelo olho do alpha e do ômega que são gerados no infinito símbolo do seu útero. O Grande Arquiteto do Universo, sempre esteve dentro de mim. Nessa quimérica fábula, eu sou; eu fui e eu sempre serei a lendária Floresta Negra. 

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CONTO: O VELÓRIO DE DONA CACILDA

Em uma cidadezinha do interior, que prefiro não citar o nome, aconteceu algo bizarro. Uma mescla do macabro com o cômico. O assunto está relacionado ao falecimento de uma senhora, a dona Cacilda. Ela foi uma das primeiras moradoras da cidade; morava em uma casinha velha de madeira caindo aos pedaços. Dona Cacilda era uma pessoa de difícil convivência, ela era mal-humorada, rabugenta, grosseira e criava caso por qualquer coisa. Por esse motivo, não era uma pessoa muito querida na região. Não se dava bem com as pessoas e frequentemente, brigava com os vizinhos ou qualquer um que a contrariasse.

Os parentes de dona Cacilda não tinham qualquer apreço pela velha; por outro lado, ela também não fazia questão de ser paparicada pela família. Ela vivia só, amargurada e de cara sempre fechada. A velhice avançou sem piedade e um dia, de repente, dona Cacilda morreu; ela tinha 102 anos de idade. Ficou decidido que o seu corpo seria velado em sua casinha mesmo. A funerária foi acionada pela prefeitura da cidade que pagou pelo caixão. Os familiares de dona Cacilda, mesmo sem muita vontade, prepararam o velório.

O interessante foi que mesmo diante da impopularidade de dona Cacilda, praticamente todos os moradores da cidade e todos os seus parentes vieram ao velório. Desconfio que o que as pessoas queriam era ter a certeza de que a velha malcriada tinha morrido mesmo. Para velar o corpo, foram retirados todos os móveis da sala da casa e lá, no centro do recinto, sobre pedestais, foi colocado o caixão com o cadáver da dona Cacilda. Algumas velas foram acesas.

As pessoas foram chegando e se aglomerando na sala, ao redor do caixão. O lugar mais parecia uma feira, muitos conversavam alegremente, se escutava gargalhadas, outros bebiam cerveja e uísque, enquanto petiscos eram oferecidos para os presentes. Tinha até música. O velório da dona Cacilda estava mais parecendo uma comemoração; afinal, ninguém suportava aquela velha repugnante. Todas as pessoas ali presentes tinham pelo menos uma história desagradável para contar, onde haviam vivido alguma experiência de atrito com a velha.

O animado velório foi seguindo noite adentro e quando deu meia noite, algo muito estranho aconteceu; o assoalho da sala cedeu se quebrando e todas as pessoas caíram umas sobre as outras. Uma parede da sala também desmoronou sobre as pessoas, rompendo os fios da rede elétrica e deixando todos no escuro total. O caixão virou, derrubando o corpo da velha, que saiu rolando pelos escombros. As velas se apagaram ao caírem dos candelabros. Parecia que a casa ia desmoronar por completo; as pessoas se acotovelavam e se pisoteavam, e muitos caíram sobre o cadáver ou pisaram na velha morta. Foi uma gritaria generalizada; tanto os homens, quanto as mulheres e até crianças, todos estavam apavorados. Muitos choravam de medo.

O que era para ter sido um velório, na verdade, estava sendo uma espécie de festa e de repente, acabou se transformando em um show de horrores. Todos abandonaram o local às pressas, achando que alguma coisa sobrenatural estava acontecendo ali; talvez fosse uma vingança da velha morta. Alguns ousaram dizer que aquilo que estava acontecendo se tratava de um evento paranormal conhecido como Poltergeist. Todos fugiram, deixando o cadáver da velha abandonado no meio dos entulhos.

Somente no outro dia, funcionários da funerária e da prefeitura, criaram coragem para ir até o local recolher o corpo de dona Cacilda e leva-lo ao cemitério. A velha foi enterrada o mais depressa possível. Ninguém quis comparecer ao sepultamento, nem os moradores da cidade e nem os próprios parentes da velha. Todos estavam traumatizados com o que tinham vivido na noite do velório. Queriam esquecer aquela noite de terror.

A casinha de dona Cacilda, que estava quase desmoronando, anos depois, ainda continua lá. Permanece da mesma maneira que foi deixada na noite em que todos fugiram correndo do velório. Ninguém jamais teve coragem de ir morar naquele local. Mesmo os parentes que por lei herdaram a propriedade, se negam a ocupar o espaço. Pretendem vender; mas não tem quem queira comprar também. Estaria o local amaldiçoado pela velha Cacilda? Quem teria coragem de morar naquele lugar? Eu é que não vou me arriscar.

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CONTO: LUTA COM O DIABO

Uma história macabra que meu avô sempre contava com reservas, era sobre o dia que ele lutou com um demônio. Sim, meu avô dizia que lutou com o próprio Diabo. Quando meu avô era jovem, teve uma namorada e os dois decidiram morar juntos. No início, tudo no relacionamento era repleto de amor; apesar de que nem todos no bairro gostassem de sua namorada. Segundo o meu avô, algumas pessoas frequentemente afirmavam que sua namorada era uma bruxa e que praticava magia negra. Ele acreditava que aqueles boatos eram intriga da oposição; por inveja ou algo assim.

Com o passar do tempo, passou a desconfiar da namorada. Ela tinha um comportamento estranho e às vezes, sumia em determinadas noites. Ele começou a achar que estava sendo traído e resolveu que ia começar a segui-la. Ele percebeu que ela sempre sumia nas noites de sexta-feira, principalmente na lua cheia. Ele passou a ficar monitorando os passos da namorada.

Certa noite, ele ficou escondido e esperou ela sair do trabalho. Ele estava decidido a segui-la. Ela caminhou por várias ruas e entrou em uma estrada escura que parecia levar até um sítio abandonado, cercado por uma floresta. Era um lugar escuro, mas meu avô ia se escondendo atrás de árvores para não ser visto. Sua namorada continuou caminhando para a escuridão e logo, meu avô começou a ouvir vozes. Ele foi lentamente se aproximando para não ser notado.

Percebeu que havia uma fogueira e algumas pessoas reunidas perto do fogo. Todos pareciam estar em uma espécie de transe. Todos usavam roupas pretas; inclusive sua namorada. Aquele cenário sombrio era nitidamente um ritual de magia negra. Meu avô foi se aproximando devagar e viu símbolos estranhos desenhados no chão. Em um altar próximo daquelas pessoas, havia garrafas, um crânio humano, velas acesas e outras coisas que ele não soube identificar.

Viu sua namorada em um local um pouco mais distante daquelas pessoas. Ela estava dentro de um círculo desenhado no chão; estava de joelhos e de costas para a fogueira. Nessa hora, meu avô ficou irritado com o que estava vendo e resolveu ir até lá. As pessoas ali presentes pareciam não vê-lo, o que era muito estranho. Elas estavam mesmo em transe.

Ele se aproximou da namorada, que aparentava estar também em transe e quando olhou por cima do ombro dela, viu que no chão estava escrito o nome dele com um punhal cravado na terra. Meu avô ficou chocado com o que estava vendo e sem pensar, deu um chute no punhal que foi parar no meio do mato. Nessa hora a sua namorada se levantou e começou a falar com uma voz rouca e masculina. Parecia desfigurada; possuída por um espírito maligno.

Ela atacou o meu avô com extrema força e violência. Jogou meu avô no chão com uma carga energética sobre-humana. Ele tentou se defender e revidou. Aquele demônio a sua frente gritava que queria mata-lo; e dizia que a sua morte havia sido encomendada. Foi aí que meu avô apavorado deu um soco nela e gritou a frase: “Sangue de Cristo tem poder”; e ela caiu atordoada, enquanto isso ele fugiu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. Ele correu muito; a toda velocidade. Aquilo foi definitivamente inusitado e traumático para ele.

Depois desse episódio sinistro, a namorada dele sumiu misteriosamente da cidade e ele nunca mais a viu. Alguns dias depois, inconformado e curioso com o ocorrido, retornou ao sítio, onde aconteceu a luta com a namorada possuída. Dessa vez, ele foi acompanhado de um amigo policial, e não havia indícios sequer do que tinha acontecido lá; naquela terrível e assombrosa noite.

Não havia mais altar, crânio humano, garrafas, velas e nem aqueles símbolos riscados no chão; provavelmente foram todos apagados. Procuraram pelo punhal arremessado no mato e também não o encontraram. Não havia nem resquícios da enorme fogueira. Realmente, muito estranho. Desde então, tudo não passa de um grande mistério e da lembrança assombrosa do dia em que meu avô lutou com o Diabo. 

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CONTO: O LOBISOMEM

Eu sempre fui fascinado por histórias de lobisomens; em especial, as dos filmes e livros sobre o assunto. Mas quando eu tinha uns doze anos de idade, eu vi um lobisomem de perto; e foi uma experiência apavorante. Foi um dia que eu estava com minha família na casa de um tio; era um jantar festivo, ou algo assim. Era uma bela noite de verão, com um céu estrelado e uma imensa lua cheia brilhando. Após a refeição, os adultos ficaram conversando a mesa; e meus primos e eu, fomos para frente da casa deles. Nós nos sentamos na calçada e ficamos ali se divertindo e batendo papo.

A rua estava deserta, era quase meia noite e toda a vizinhança parecia já ter se recolhido. Foi quando nos chamou a atenção que o silêncio local se quebrou quando todos os cachorros da rua começaram a latir insistentemente ao mesmo tempo. Na esquina, vinha vindo em nossa direção, um homem. Ele parecia muito apressado e caminhava como se estivesse sentindo alguma dor; ele caminhava arqueado, cabeça baixa. Meus primos e eu ficamos mudos, olhando o homem passar por nós.

O homem não nos olhou, passou direto e rápido, como se não quisesse ser notado ou observado. Porém, nos chamou a atenção a sua camisa rasgada, pés descalços; e muito, mas muito peludo. O homem tinha muito pelo nos pés, nas mãos e nos braços e no rosto. Nunca tínhamos visto algo assim. O homem apressado entrou direto em uma casa no final da rua; meus primos comentaram que era uma atitude estranha, pois aquela casa estava abandonada.

Nesse momento, todos os cachorros da vizinhança recomeçaram a latir ferozmente. Eu comentei com meus primos que aquele homem até parecia estar prestes a se transformar em um lobisomem. Todos se empolgaram e resolvemos ir até a casa abandonada, cheios de imprudência e coragem. A cachorrada estava enlouquecida; quando de repente, eu vi algo assustador nos fundos daquela casa abandonada. No meio da escuridão, precariamente iluminada pela lua cheia, havia uma criatura coberta de longos pelos, com olhos esverdeados e brilhantes. Estava de pé nas patas traseiras e rosnou tão forte que o chão pareceu estremecer abaixo dos meus pés. Aquilo era com certeza um lobisomem, mas não nos atacou. Por quê?

Meus primos e eu, corremos consumidos pelo medo e se trancamos em casa. Ficamos em estado de choque durante algum tempo. Os adultos não acreditaram na história que contamos; acharam que tínhamos fantasiado alguma situação do cotidiano. Mesmo assim, diante do nosso evidente nervosismo, se viram obrigados a ir até a casa abandonada para checar. Levaram lanternas para inspecionar o local totalmente escuro. Os cachorros da rua não estavam latindo; um sinal de que a ameaça já não estava mais por ali. Não havia mais nada lá. Aquela horrenda criatura tinha ido embora. O lobisomem se foi; mas nunca mais esquecerei o que vi naquela noite de lua cheia.

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CONTO(TERROR): HISTÓRIA DA BUCHADINHA

Assim como existem as histórias de pescador, existem também as de caçador. Essa que conto agora é uma história de terror. Passando de caçador para caçador, chegou ao conhecimento do meu avô que sempre contava nas reuniões de família. As crianças morriam de medo, enquanto os adultos davam risadas. É a apavorante história de um caçador ganancioso que costumava matar todo tipo de animal que encontrava; para tirar o couro ou a pele para sua coleção pessoal.

Contam que certa vez, esse caçador saiu para caçar enquanto acampava em uma floresta e matou um pequeno macaco. Tirou o couro do pobre animal e dispensou a pouca carne que o bicho tinha juntamente com o bucho e demais entranhas. Deixou tudo jogado no chão da floresta, exceto o couro. Voltou para o acampamento, acendeu uma fogueira, comeu qualquer coisa e assim que caiu a noite, se recolheu na sua barraca; estava cansado.

Dormiu por algumas horas e durante a madrugada, acordou ouvindo uma voz estranha. Levou um susto, pois acreditava que estava em um local isolado da floresta onde não haveria ninguém mais além dele. Será que teria sido um sonho? Mesmo assim ficou intrigado, pegou a lanterna e sua espingarda e saiu da barraca para ver o que estava acontecendo. Iluminou com a lanterna em diversas direções e não via nada. Somente mata; árvores na escuridão da madrugada.

De repente, ouviu novamente a estranha voz e dessa vez, ouviu perfeitamente. A voz dizia em tom de pergunta: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” O caçador achou que aquilo só podia ser alguma brincadeira de alguém e avisou que estava armado. A voz na escuridão repetiu a pergunta: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” O caçador já assustado e sem entender nada, deu um tiro para cima.

Nesse momento ele ouviu um barulho de gravetos se quebrando atrás dele. Virou-se rapidamente e apontou a lanterna para ver o que era; não acreditou no que estava vendo. Na sua direção, vinha rastejando as entranhas gosmentas do pequeno macaco que ele havia matado algumas horas antes. Era uma mistura de carne e bucho ensanguentado que perguntava com uma voz sofrida: “Cadê o meu courinho que dói, dói, dói?” Uma cena típica de um filme de terror.

O caçador arregalou os olhos e deu um tremendo grito de pavor. Largou a espingarda e saiu correndo em estado de pânico. Dizem que nunca mais voltou à floresta. Nunca mais caçou. Segundo a história, o caçador chegou à cidade em choque e não dizia coisa com coisa. O homem enlouqueceu. Essa é a história da buchadinha.