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CONTO(TERROR): ATÉ COMEÇARMOS A MORDER

O peito de Jessy subia e descia, sua respiração era ruidosa e, de repente, de um momento para o outro, a noite havia se transformado em um pesadelo aterrorizante. 

Ela apenas havia marcado um encontro com um estranho por um chat de relacionamentos, e de repente aquele homem se transformou em um maníaco. 

Jessy gritava, mas ninguém poderia ouvi-la naquela parte sórdida da cidade. Sua ingenuidade a levou a confiar em marcar o encontro em um bar frequentado apenas pela escória da sociedade e foi tarde quando ela se deu conta do erro terrível que cometera. Apenas o som estrondoso de antigas canções de rock ecoavam de dentro do bar. 

O maníaco estava bem atrás de Jessy, com aquela faca afiada, pronto para rasgar suas roupas e possuir seu corpo. 

2

Jessy corria, mas apenas olhos de mendigos e delinquentes a fitavam dos becos escuros, mais interessado em roubá-la do que ajudá-la.

Nuvens opressoras cobriam o céu como um véu espesso, anunciando uma tempestade. 

Gotas gélidas caíam, como alfinetes, no rosto de Jessy que começava a perder as forças, sendo, por fim, alcançada pelo maníaco de olhar pervertido.

Ele a jogou no chão, atacando-a de forma selvagem. Havia fome em seus olhos perversos enquanto em seus lábios um sorriso de escárnio se formava. 

Jessy não possuía mais forças para gritar, estava zonza, sem fôlego, quando de repente a lua, majestosa, surgiu por entre as nuvens escuras, jorrando sua luz prateada sobre os becos imundos. Jessy exalou um rugido feroz, enquanto todo seu corpo começou a sofrer uma metamorfose. 

3

O tarado cambaleou para trás tomado por súbito e inesperado horror, incapaz de compreender o que seus olhos fitavam.

Jessy, de repente, se transformou em uma animalesca besta-fera, um lobisomem faminto, que pulou no pescoço do tarado, começando a mordê-lo de forma insana e voraz. 

Somos o que somos e as máscaras caem quando a hora chega.  

Uma música antiga surgiu, ecoando pelos becos, rompendo o silêncio, enquanto aquela criatura da noite se saciava com sangue e carne fresca naquele banquete no meio da noite.

A suculenta carne de assassinos parecia ter um sabor exótico devido a adrenalina do momento num misto de psicopatia, excitação e terror. 

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CONTO: OREMOS

1

Eu olhava para meu reflexo no espelho e apenas a feiura me encarava de volta.

            Meus pais queriam que eu fosse uma garota alegre, mas até meu sorriso era triste. Meus olhos expressavam uma melancolia profunda que habitava em minha alma.

            Eu cresci seguindo os passos de outras pessoas, tentando me enturmar, ser uma garota normal.

            Os garotos não gostavam de mim. Zombavam da minha pele pálida como um fantasma.

            Eu tentava me bronzear, mas o sol me queimava com seu fogo terrível.

            Nas paredes minha sombra parecia me observar.

            O soprar do vento parecia sussurrar frases sórdidas em meus ouvidos.     Mas eu tentava ignorá-las. Eu tentava ser normal na sociedade de sorrisos falsos.

            As trilhas incertas da minha vida estranha me conduziram para um convento.

            Eu me senti bem dentro do hábito, sua cor negra me agradava. Fiz meus votos e tornei-me uma freira.

            Mas as orações eram para mim um suplício. A hóstia queimava minha língua e o terço me causava alergia.

            Na parede de meu quarto a cruz pendia de lado até ficar invertida.

2

A noite as trevas pareciam possuir meu corpo, brincando com meus desejos e fantasias proibidas.

            Mas eu lutei contra a tentação de satanás.

            Eu disse não ao diabo e seus anjos caídos.

            Eu honrei meus votos. Fui uma serva do senhor. Deixei-me ser a ovelha e fui guiada.

            Eu não sucumbi diante do pecado que profanou muitas de minhas irmãs, fazendo-as abandonar o hábito e se entregar aos prazeres da carne.

            Eu orei, mesmo que as palavras ditas queimassem meus lábios.

            Por fim o dia chegou, e no auge de meus 65 anos, uma doença fatal ceifou-me a vida.

3

Tão logo desencarnei e meu cadáver, que tombado ante a imagem do arcanjo Miguel, eu vi com mais clareza e o céu se abriu diante de mim, fazendo sua luz brilhante cegar-me.

            Dos céus um anjo desceu ante o som das trombetas e clarins e arrebatou-me em espírito com vossa luz radiante.

            Fui levada ao céu dos eleitos onde jardins inefáveis se estendiam vastamente.

            Mas diante da presença de Deus fui dizimada por sua luz terrível, e então, enquanto minha alma era desintegrada, eu soube que aquele não era um lugar para mim.

            Eu compreendi em meu tormento pavoroso que eu era um ser das trevas que reneguei minha essência sombria.

            Agora era tarde demais para arrependimentos, afinal a luz, que tanto busquei para mim, não representava minha salvação, e sim a perdição eterna uma vez que quando as trevas se tornam luz, sua essência é completamente perdida…   

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CONTO(TERROR): AMPUTAÇÃO

Jerby estava apreensivo quando ouviu o doutor chamar seu nome, levantou-se do banco de madeira em que assentava e deixou a sala de espera para adentrar o consultório com sua mão e braço direito enfaixados.

-Vejamos aqui, seu caso é amputação da mão direita, certo? – Falou o Dr. Breegas, um sujeito gordo com um rosto rosado e cabeça calva. Usava óculos de grau e um jaleco branco encardido.

-Sim doutor, essa mão é maligna. – Confessou Jerby assustado. O pequeno e magro rapaz tentava controlar seu braço direito que tremia compulsivamente dentro das faixas bem apertadas.

-Deite-se aqui meu jovem. – Falou o Dr. indicando uma maca enferrujada que ficava no centro daquele cubículo abarrotado de quinquilharias médicas que o denunciavam como uma clínica clandestina.

O Dr. Breegas aplicou a anestesia local no braço de Jerby e retirou as faixas bem apertadas. Enquanto executava essa ação ele arfava que nem um porco, suor lhe escorria da testa redonda. O ambiente era quente e abafado, o pequeno ventilador ao lado de um computador velho zumbia frenético.

-Sua mão parece boa meu jovem, tem certeza de que não quer deixá-la comigo? Eu daria um bom uso para ela.

-Não. Ela é má, precisa ser cortada e incinerada. Ela me obriga a fazer coisas…

-Tudo bem, então relaxe e me deixe cortá-la num minuto.

Um arrepio gelou o sangue nas veias de Jerby quando o Dr. Breegas começou a serrar seu pulso, decepando sua mão. Não havia dor, apenas a incômoda sensação de inércia do braço anestesiado e o ranger do osso sendo serrado.

Os nervos de Jerby estavam a flor da pele a medida que o Dr. serrava sua mão direita. O ruído de osso sendo cortado era repugnante.

Mas de repente a Dr. Breegas cuspiu uma maldição quando viu a mão do paciente cujo pulso já estava serrado pela metade começar a se mexer. Os dedos dançando loucamente como minhocas na terra.

Então a mão voltou sua palma aberta na direção do Dr. Breegas e avançou, enterrando os dedos nas suas órbitas.

Porém o Dr. Breegas foi hábil e a segurou pelo pulso, firmou-a sobre a bancada de metal onde fazia o procedimento, estendeu sua mão e pegou um cutelo em uma das gavetas e cortou o pulso de seu paciente, fazendo a mão insana cair no chão, onde ficou agitando seus dedos loucamente como uma aranha agonizando.

***

Alguns dias depois Jerby estava em sua casa. Era uma manhã fria e agradável. Ele trocava os curativos de seu cotoco ainda com pontos. Ele estava feliz por não ter mais aquela mão maligna que o havia colocado tantas vezes em perigo.

As lembranças amargas ainda serpenteavam por sua mente assustada.

De um dia para o outro sua mão havia se tornado má, primeiro ela se ergueu de forma involuntária e empurrou seu melhor amigo na frente dos carros quando iam atravessar a avenida fora da faixa de pedestres. Jerby se safou por pouco de mandar o amigo para a morte, conseguindo alegar um acidente.

Depois a mão quase sufocou sua namorada, quando ela lhe pagava um boquete, pressionando sua cabeça enquanto seu membro entalava em sua garganta.

E por fim, numa bela noite, ele despertou com sua mão psicótica tentando esganá-lo.

Jerby havia tomado uma decisão difícil; tornar-se um maneta! Mas pelo menos assim ele poderia ser ele novamente, um rapaz pacato que mora sozinho e trabalha em uma repartição pública.

A campainha tocou tirando Jerby de seus pensamentos amargos. Ele finalizou o curativo e caminhou até a porta de sua casa, abriu-a e o carteiro lhe saudou entregando-lhe uma caixa. Ele assinou e voltou para dentro de seus aposentos.

Jerby foi para a mesa e abriu a caixa, contente e animado ao descobrir que era a prótese que ele havia encomendado. Gastara uma pequena fortuna com a operação e com sua nova mão mecânica. Mas agora tudo seria normal novamente.

No interior da caixa estava aquela bela mão de metal revestida com silicone imitando pele humana.

Tão logo Jerby a ligou e cuidadosamente a colocou no pulso, encaixando-a firmemente, ele sentiu os dedos se mexerem contra sua vontade. Ele tentou retirar a prótese, mas esta lhe deu um bote certeiro como uma cascavel, grudando e apertando sua garganta com uma força sobre-humana.

            Naqueles míseros instantes de vida, Jerby descobriu que o mal não residia em sua mão, mas talvez, de forma ainda mais medonha, estivesse se apossado de seu braço como uma maldita célula cancerígena e agora, com uma mão mecânica possuía força suficiente para esganá-lo.

Um gemido espantoso escapou dos lábios rachados de Jerby quando sua nova mão mecânica esfrangalhou sua traqueia fazendo sua cabeça cair de lado em meio a um chafariz de sangue.

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CONTO: O PRISIONEIRO

Na calada sórdida daquela noite agourenta onde ao longe uma coruja emitia seu canto, aquele tipo estranho caminhava, meio cambaleante pelo beco imundo, de muros pinchados, que fedia a urina.

O homem gemia, rangendo os dentes enquanto sentia aquela aflição maldita que lhe corroía as entranhas. A dor era real, pesada e parecia pulsar em todo seu corpo.

Mais alguns passos e ele avistou um mendigo, sentado, solitário, tragando um rum barato. Era a imagem da decadência, mas o pobre infeliz parecia tirar proveito daquela situação desgraçada. 

O mendigo cuspiu uma maldição quando aquele tipo sórdido veio sorrateiro em meio as sombras e tomou-lhe a garrafa de rum.

Mas o ladrão de garrafas não queria um trago daquela bebida quente, pois quebrou a garrafa contra o muro. Deixando o mendigo furioso. Muitas esmolas foram gastas naquele rum.

O homem sentia-se sufocado, um rugido furioso lhe escapou da garganta enquanto ele segurava a garrafa quebrada, com cacos afiados. A garrafa havia se transformado em uma arma mortal. O mendigo temeu por sua vida miserável e deu um passo para trás.  

Era a hora, ele havia chegado no seu limite, não poderia mais suportar aquela situação opressora. Precisava ser forte, determinado, pois a dor, o ódio e a opressão o haviam deixado insano. Havia chegado a um ponto sem retorno. Ele precisava cometer um assassinato. As vozes em sua cabeça repetiam a palavra “assassinato” como uma cantiga funesta.

Então aquele tipo estranho, perturbado, ergueu a garrafa, mas ao invés de atacar o carente miserável sem teto, ele rasgou a própria garganta, fazendo seu sangue vermelho-brilhante esguichar, sujando o pobre e assustado mendigo à sua frente.

Finalmente ele sentia aquela aflição, aquela dor que pulsava em todo seu corpo fluir por seu pescoço.

Ele se sentia como um prisioneiro naquele corpo, uma prisão sem muros. E a medida que seu sangue fluía, aliviando a pressão, cessando sua dor, ele se sentia liberto à medida que sua visão ficava turva e ele se entregava aquela doce e profunda escuridão que, para sempre, o estava libertando daquela decadente prisão feita de carne e ossos.

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CONTO: ESPELHO NEGRO

No silêncio frio da mais negra das noites eu me agarrei a um pedaço fugaz de lucidez e levantei do meu leito.

            Eu cambaleei pela colina cuja névoa fria serpenteava por minhas pernas e voltei para meu lar.

            Eu olhei no espelho em busca de minha face. Mas o cristal recusou-se a mostrar meu reflexo.

            As trevas pareciam dormir no antigo espelho rústico na parede de meus aposentos.

            Onde estava meu reflexo?

            O sabor amargo da incerteza fez estremecer meu ser.

            Então os pedaços de memórias faiscaram em minha mente como fogos de artificio.

            Eu me lembrei da bela morena de olhos verdes que me beijava. Eu vi as presas crescerem rasgando suas gengivas e então ela me mordeu!

            As lembranças ainda me fazem sentir a dor da mordida em meu pescoço. A bela morena sugou meu sangue de forma faminta, roubando minhas forças e fazendo-me estremecer diante de um arrepio estranho e profundo.

            Minha vida se foi com a promessa de seu sussurro de que eu me tornaria imortal como ela.

            É por isso que o espelho não reflete minha face? Vampiros não tem reflexo?

            Mas então um novo pedaço de memória surge pela alcova de minha mente:

            No curto flash de memória borrada, eu vejo um vulto sair das sombras e cravar uma estaca no coração da vampira, para em seguida se voltar para meu corpo, que exalava os últimos suspiros!…

            Trevas, profundas e intensas tal qual a escuridão no cristal do espelho negro. Apenas isso. E não há nada mais em minha mente.

            Estremeço-me diante da fidúcia de que o caçador cravou sua estaca manchada de sangue em meu coração.

            Ergo minhas mãos translúcidas e tenho a certeza de que não sou um vampiro renascido dos mortos, mas sim um fantasma a vagar pelos meus aposentos.