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Anderson Magalhães Contos

CONTO: VISÕES DE UM CERTO NORTE

Floresta-Rio como um único ser, palavras cheias de memória. O eldorado, submerso mistério. Lendas não mentem, são mais antigas que a razão. Floresta e Rio que vieram antes de tudo e apesar de tudo ficaram depois. Pois para elas o tempo do Tempo gira sem se mover. Árvores anciãs com longas barbas e troncos de pedra subindo aos céus. O Rio Negro profundo e escuro como o fim do mundo. Os prédios altos e os casarões antigos cravados no centro contam contos de glórias e misérias, coisas de gente. Grita a cidade selvagem prestes a explodir em seu próprio caos! Grita em consonância com o grito da mata, pois o mesmo fogo que devasta uma, arde nas entranhas da outra. Falhou a civilização imposta pelos de além-mar! As ruínas do futuro assombradas pelos fantasmas da colônia. O povo de sangue de terra vive em toda parte e ainda assim é invisível. E pesar dos pesares canta e dança nas guerras dos séculos, nas guerras do dia a dia. A chuva vem, ela sempre vem, e lava tudo e leva todos. Nada escapa a chuva, nada escapa a floresta e ao rio, nada escapa a história viva… Arrebata o peito e encanta os olhos esses labirintos amazônicos feitos de preto opaco e verde translúcido. Da copa mais alta as raízes do Brasil correm veneno e mel sobre o banzeiro do Tempo.

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CONTO: A FEBRE DO RATO

Padece a sociedade. Falta às pessoas, ar respirável e justiça. Náusea, tontura, cambaleiam as pernas… O corpo social se paralisa. Greve geral! Declara a carne em definhamento. Convulsionam-se os membros e as instituições. Cai o governo, desgovernam-se. As bocas rosnam e babam insanidade. Os olhos embotados de lágrimas e horror. Espalha-se o câncer e a violência. A Ordem oprime, desvia a atenção, dispersa, falseia. Estancam-se os fluxos sanguíneos, fundem-se os órgãos em massa disforme. Desordenam-se as estruturas psíquicas e coletivas em revolução. Guerreiam as células e funções, as ideologias da vida e da morte. Regurgita-se a má consciência. Cessam-se as atividades motoras. Transpira de medo, grita e chora o corpo febril e distinto em sua auto incubação. O corpo atado pelo Poder se quebra, se desconstrói, se desmonta, se reata, se refaz. Renasce de si mesmo. Novamente corpo-ser. Atravessou a linha, o devir… O pós-humano, o pós-capitalismo. A morte do que tem que morrer é lei. Exorciza-se, extirpa-se o putrefato, arde em febre e delira até revelar a cura na doença!

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CONTO: DISTOPIA ANUNCIADA

E RESQUÍCIOS DE FICÇÃO CIENTÍFICA

Em um futuro não muito distante penso em um passado muito presente: Os seres humanos se tornam cada vez mais frágeis em seus antiquados corpos de carne, osso e dor, e cada vez mais assustados com suas gigantescas cidades de asfalto, metal e fúria. A velocidade das vias expressas oprime o pensamento, não há mais tempo para elucubrar, não há mais tempo para gozar se não com hora marcada. Quem abusar ou se desviar é vigiado e punido. Os corpos têm código de barra, controle remoto e entrada USB. As identidades são invenções do Instagram, ninguém mais pode ser infeliz agora, se não foi postado não aconteceu. As telas exigem nossa atenção e devoram nossa consciência do agora, as luzes cegam, as projeções confundem, os comprimidos de Soma anestesiam sem necessariamente aplacar a dor das almas em ameaça de extinção. As máquinas gritam e as fábricas produzem incessantemente para um futuro de fartura e calmaria que nunca chega. O trabalho nos rouba e o Tempo agora tem um soberano, um Big Brother de visão panóptica, eleito por uma maioria muda que forma filas e aguarda o abismo enquanto devora os detritos e escombros de um passado sem data, deixado por ancestrais cínicos e niilistas, que maquinaram maquiavélicos o suicídio coletivo do planeta. Vestimos armaduras automobilísticas e aceleramos queimando petróleo para não sermos alcançados. Erguemos monumentos falocêntricos para celebrar nossa impotência auto imposta e rezamos para que o deus Google diga nosso destino. Embaralhamos nossas memórias para esquecer e fingir neutralidade. Nos conectamos ao todo para que esse seja nada. Não existe mais o fora da Matrix. Reproduzimos o mesmo para que a diferença seja apenas um slogan. O vingador do futuro foi enforcado em uma fábrica no berço do capitalismo em meio a discursos de progresso infinito. Ele voltou e foi crucificado. Voltou de novo e foi fuzilado. Agora vive como indigente em uma região desolada pelo estouro de uma barragem. E assim aguardamos sentados no sofá o apocalipse e as vezes trocamos de canal para não nos entediamos com um fim tão óbvio. Enquanto isso as baratas observam o desfecho do Antropoceno, ansiosas por sua era de ouro na Terra.