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Carolina Rieger Poesia

POESIA: FOME

O mundo é pálido e mudo

Enverga sob o peso do vazio

Nada ter

E ter essa sensação sem fim.

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POESIA: AMAR

A carne nos separa

A carne nos une

Conjugação carnal é presente

Caminho para o escape

Do ensimesmado

O si menor

Para fora de si

Num Sol maior.

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POESIA: GUETOS

Górgonas serpenteiam

Noite eterna global

Grasnam os umbrais do terceiro mundo

Sentinelas petrificadas

Gana e ganância s’enleiam

Elas rastejam, reptilianas

Em sincronia com os desejos

Das elites latinoamericanas

Que gozam em gala

Que é ser um playboy da América Latina?

Gritos são engolidos no gueto

Ou fica o nó na garganta

Ao toque do hino, o senhor se agiganta

Ordena o sacrifício do que não cala

Pretos, pobres, atirados na vala

Ao desvão

vão os que não tem pra onde ir

Segregados aqui

Onde o som da sirene perturba

Onde tememos que avancem

armados

os guardiões dessa ordem

Aqui, onde seu compatriota

se vem de farda, não tarda

para te tornar inimigo

Aqui, onde Deus se esconde

Não na virulência dos cultos

Mas nos gestos astutos

da gente

Crente, não no pastor, mas no direito ao mundo.

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POESIA: Êxtase e desfiguração – sob influência do deus Dionísio

A ribombar os tambores

Embriagam, da tarde, os ares

Elevando altos clamores

Aos tênues raios solares


Transmuta-se em fescenino

Freme e dança em frenesi

Ferino, morde, felino

Retorno ao bicho da gênese


E libamos a Dionísio

Engolidos no crepúsculo

Em mim desliza e eu deslizo

Enquanto contraí seu músculo


É a cópula primordial

Somos besta e divindade

Na consagração ritual

É passado e eternidade


Ondeando em teu quadril

Em estrondosa corrente

Desemboco no teu rio

Ah, tão caudaloso e quente!


Então o tambor silencia

Após metamorfoseados

Lá na dança que sacia

Já, a dormir transfigurados!