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Anderson Magalhães Contos

CONTO: VISÕES DE UM CERTO NORTE

Floresta-Rio como um único ser, palavras cheias de memória. O eldorado, submerso mistério. Lendas não mentem, são mais antigas que a razão. Floresta e Rio que vieram antes de tudo e apesar de tudo ficaram depois. Pois para elas o tempo do Tempo gira sem se mover. Árvores anciãs com longas barbas e troncos de pedra subindo aos céus. O Rio Negro profundo e escuro como o fim do mundo. Os prédios altos e os casarões antigos cravados no centro contam contos de glórias e misérias, coisas de gente. Grita a cidade selvagem prestes a explodir em seu próprio caos! Grita em consonância com o grito da mata, pois o mesmo fogo que devasta uma, arde nas entranhas da outra. Falhou a civilização imposta pelos de além-mar! As ruínas do futuro assombradas pelos fantasmas da colônia. O povo de sangue de terra vive em toda parte e ainda assim é invisível. E pesar dos pesares canta e dança nas guerras dos séculos, nas guerras do dia a dia. A chuva vem, ela sempre vem, e lava tudo e leva todos. Nada escapa a chuva, nada escapa a floresta e ao rio, nada escapa a história viva… Arrebata o peito e encanta os olhos esses labirintos amazônicos feitos de preto opaco e verde translúcido. Da copa mais alta as raízes do Brasil correm veneno e mel sobre o banzeiro do Tempo.

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Contos Tim Soares

CONTO: SETE VIDAS

O que é a vida?
Há quem acredite que a vida não passe de um grande laboratório para um grande ciclo posterior. Então a nossa estadia aqui na terra seria uma preparação para o que viveremos depois em algum outro lugar. Na minha mais humilde e sincera opinião, não faço a menor ideia.
Bom, meu nome é Daniel Dhundee e eu nasci com uma terrível maldição: sete vidas. Sim, como um gato. Mas tudo na vida tem um preço e essa sim é uma certeza da qual eu tenho a mais profunda convicção. N’uma espécie de brincadeira de mau gosto, fui condenado a morrer sempre que me apaixonasse.
É, eu sei, você deve estar pensando ‘então não se apaixone, idiota’.
Mas as coisas não funcionam assim. Essa parada de amor definitivamente está fora do nosso controle. Você não escolhe se apaixonar, simplesmente acontece e não há nada que se possa fazer, acredite!

Minha epopeia desastrosa começou quando conheci o meu primeiro amor, Olga, no último ano do colégio. Era uma garota legal, bonita e dois anos mais velha do que eu. Apaixonar-se pela primeira vez é experimentar o sentimento mais bizarramente profundo que já havia conhecido. Aparentemente, esse sentimento era recíproco da parte de Olga, o que tornava a coisa toda ainda mais intensa. Acontece que n’uma bela tarde, depois de leva-la para tomar um sorvete, a acompanhei até o prédio em que ela morava, e ao sair do prédio e atravessar a rua, fui atropelado por um caminhão. Morri na hora.

Minha segunda vida, perdi no México. Ah, o México! Fui para lá n’uma daquelas viagens em que tinha como intuito farrear, encher a cara e conhecer mulheres. Fui a uma festa com uns amigos e lá conheci Maitê. Nossos olhos se encontraram depois que ela terminou de entornar uma garrafa de cerveja. Um daqueles raros casos de amor à primeira vista. Cheguei chegando e mesmo com um espanhol bem mais ou menos, consegui me fazer entender. Saímos da festa e fomos até uma praia próxima dali. Conversamos, nos beijamos. Uma daquelas noites em que tudo está jogando ao nosso favor. Então decidimos tomar um banho de mar. Tudo às mil maravilhas até eu morrer afogado.

A terceira vida se foi depois que conheci Nadja. Aquela loira russa era um verdadeiro demônio do sexo. A garota mais pirada que eu já conheci. Durante uma puta chuva, resolvemos ir transar no gramado do jardim. Era um dos muitos fetiches que ela tinha. Foi uma delícia e quando eu estava voltando para dentro de casa, um raio caiu. Agora eu só tinha mais quatro.

Morri pela quarta vez no Madison Square Garden durante um show de Simon & Garfunkel. Um baita público por sinal, mas aparentemente sem nenhum médico. Eles estavam tocando “The sound of silence”, a música predileta de Jéssica, minha noiva, e uma das minhas canções prediletas também, quando eu simplesmente enfartei e morri. De novo!

Depois veio Fernanda e aqueles cachinhos. Uma adorável tagarela que sonhava descobrir onde Elvis estava escondido. A garota mais engraçada que já conheci. Passamos a semana inteira indo à uma dessas redes de fast food que estavam dando bonequinhas cabeçudas. Fernanda queria todas as bonequinhas e então na quinta-feira, depois de uma de suas muitas gracinhas que ao cair na gargalhada, me engasguei e morri sufocado com a droga de um hambúrguer.

A sexta vida, perdi depois de conhecer Rebecca, a bibliotecária da faculdade. Uma mulher linda, inteligente e elegante. Uma das paixões mais arrebatadoras que já senti. Mas ela não me quis e pela primeira vez, experimentei o pior de todos os sentimentos humanos, a rejeição. Morri de tristeza.

Estou na sétima e última vida. Já conheci uma garota legal e acho que já estou me apaixonando. É, eu sei, eu sei. Logo eu vou morrer pela última vez. Não haverá outra vida, outra chance, outra oportunidade. Eu morrerei e será o fim de uma vez por todas. Paciência!
Fico pensando nos gatos, será que eles se apaixonam por sete vezes? Se for esse o caso, felizes são os gatos.

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Contos Maria Eduarda Microconto

MICROCONTO: O AMOR, O BELO

Sacudi a mão para cima e para baixo, em pânico, vendo o vermelho tingir o chão à frente dos meus pés, escorrendo braço a baixo, escarlate por todo o lado, respingando, gotejando.

Pausânias: o amor é bom e belo apenas quando acrescenta, quando corrobora a busca individual pela virtude. Nunca conheci essa versão de amor, querido, porque o único que você me mostrou foi esse nosso sentimento destrutivo, assassino, dilacerante. 

Click, fez o grampeador do médico, quando ele acabou de fechar o corte que eu fizera quando 

caí da escada.

Nosso amor é filho somente da Penúria, meu bem, e é feio.

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Allan Fear Contos Terror

CONTO(TERROR): AMPUTAÇÃO

Jerby estava apreensivo quando ouviu o doutor chamar seu nome, levantou-se do banco de madeira em que assentava e deixou a sala de espera para adentrar o consultório com sua mão e braço direito enfaixados.

-Vejamos aqui, seu caso é amputação da mão direita, certo? – Falou o Dr. Breegas, um sujeito gordo com um rosto rosado e cabeça calva. Usava óculos de grau e um jaleco branco encardido.

-Sim doutor, essa mão é maligna. – Confessou Jerby assustado. O pequeno e magro rapaz tentava controlar seu braço direito que tremia compulsivamente dentro das faixas bem apertadas.

-Deite-se aqui meu jovem. – Falou o Dr. indicando uma maca enferrujada que ficava no centro daquele cubículo abarrotado de quinquilharias médicas que o denunciavam como uma clínica clandestina.

O Dr. Breegas aplicou a anestesia local no braço de Jerby e retirou as faixas bem apertadas. Enquanto executava essa ação ele arfava que nem um porco, suor lhe escorria da testa redonda. O ambiente era quente e abafado, o pequeno ventilador ao lado de um computador velho zumbia frenético.

-Sua mão parece boa meu jovem, tem certeza de que não quer deixá-la comigo? Eu daria um bom uso para ela.

-Não. Ela é má, precisa ser cortada e incinerada. Ela me obriga a fazer coisas…

-Tudo bem, então relaxe e me deixe cortá-la num minuto.

Um arrepio gelou o sangue nas veias de Jerby quando o Dr. Breegas começou a serrar seu pulso, decepando sua mão. Não havia dor, apenas a incômoda sensação de inércia do braço anestesiado e o ranger do osso sendo serrado.

Os nervos de Jerby estavam a flor da pele a medida que o Dr. serrava sua mão direita. O ruído de osso sendo cortado era repugnante.

Mas de repente a Dr. Breegas cuspiu uma maldição quando viu a mão do paciente cujo pulso já estava serrado pela metade começar a se mexer. Os dedos dançando loucamente como minhocas na terra.

Então a mão voltou sua palma aberta na direção do Dr. Breegas e avançou, enterrando os dedos nas suas órbitas.

Porém o Dr. Breegas foi hábil e a segurou pelo pulso, firmou-a sobre a bancada de metal onde fazia o procedimento, estendeu sua mão e pegou um cutelo em uma das gavetas e cortou o pulso de seu paciente, fazendo a mão insana cair no chão, onde ficou agitando seus dedos loucamente como uma aranha agonizando.

***

Alguns dias depois Jerby estava em sua casa. Era uma manhã fria e agradável. Ele trocava os curativos de seu cotoco ainda com pontos. Ele estava feliz por não ter mais aquela mão maligna que o havia colocado tantas vezes em perigo.

As lembranças amargas ainda serpenteavam por sua mente assustada.

De um dia para o outro sua mão havia se tornado má, primeiro ela se ergueu de forma involuntária e empurrou seu melhor amigo na frente dos carros quando iam atravessar a avenida fora da faixa de pedestres. Jerby se safou por pouco de mandar o amigo para a morte, conseguindo alegar um acidente.

Depois a mão quase sufocou sua namorada, quando ela lhe pagava um boquete, pressionando sua cabeça enquanto seu membro entalava em sua garganta.

E por fim, numa bela noite, ele despertou com sua mão psicótica tentando esganá-lo.

Jerby havia tomado uma decisão difícil; tornar-se um maneta! Mas pelo menos assim ele poderia ser ele novamente, um rapaz pacato que mora sozinho e trabalha em uma repartição pública.

A campainha tocou tirando Jerby de seus pensamentos amargos. Ele finalizou o curativo e caminhou até a porta de sua casa, abriu-a e o carteiro lhe saudou entregando-lhe uma caixa. Ele assinou e voltou para dentro de seus aposentos.

Jerby foi para a mesa e abriu a caixa, contente e animado ao descobrir que era a prótese que ele havia encomendado. Gastara uma pequena fortuna com a operação e com sua nova mão mecânica. Mas agora tudo seria normal novamente.

No interior da caixa estava aquela bela mão de metal revestida com silicone imitando pele humana.

Tão logo Jerby a ligou e cuidadosamente a colocou no pulso, encaixando-a firmemente, ele sentiu os dedos se mexerem contra sua vontade. Ele tentou retirar a prótese, mas esta lhe deu um bote certeiro como uma cascavel, grudando e apertando sua garganta com uma força sobre-humana.

            Naqueles míseros instantes de vida, Jerby descobriu que o mal não residia em sua mão, mas talvez, de forma ainda mais medonha, estivesse se apossado de seu braço como uma maldita célula cancerígena e agora, com uma mão mecânica possuía força suficiente para esganá-lo.

Um gemido espantoso escapou dos lábios rachados de Jerby quando sua nova mão mecânica esfrangalhou sua traqueia fazendo sua cabeça cair de lado em meio a um chafariz de sangue.

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Adriano Besen Contos

CONTO: O LOBISOMEM

Eu sempre fui fascinado por histórias de lobisomens; em especial, as dos filmes e livros sobre o assunto. Mas quando eu tinha uns doze anos de idade, eu vi um lobisomem de perto; e foi uma experiência apavorante. Foi um dia que eu estava com minha família na casa de um tio; era um jantar festivo, ou algo assim. Era uma bela noite de verão, com um céu estrelado e uma imensa lua cheia brilhando. Após a refeição, os adultos ficaram conversando a mesa; e meus primos e eu, fomos para frente da casa deles. Nós nos sentamos na calçada e ficamos ali se divertindo e batendo papo.

A rua estava deserta, era quase meia noite e toda a vizinhança parecia já ter se recolhido. Foi quando nos chamou a atenção que o silêncio local se quebrou quando todos os cachorros da rua começaram a latir insistentemente ao mesmo tempo. Na esquina, vinha vindo em nossa direção, um homem. Ele parecia muito apressado e caminhava como se estivesse sentindo alguma dor; ele caminhava arqueado, cabeça baixa. Meus primos e eu ficamos mudos, olhando o homem passar por nós.

O homem não nos olhou, passou direto e rápido, como se não quisesse ser notado ou observado. Porém, nos chamou a atenção a sua camisa rasgada, pés descalços; e muito, mas muito peludo. O homem tinha muito pelo nos pés, nas mãos e nos braços e no rosto. Nunca tínhamos visto algo assim. O homem apressado entrou direto em uma casa no final da rua; meus primos comentaram que era uma atitude estranha, pois aquela casa estava abandonada.

Nesse momento, todos os cachorros da vizinhança recomeçaram a latir ferozmente. Eu comentei com meus primos que aquele homem até parecia estar prestes a se transformar em um lobisomem. Todos se empolgaram e resolvemos ir até a casa abandonada, cheios de imprudência e coragem. A cachorrada estava enlouquecida; quando de repente, eu vi algo assustador nos fundos daquela casa abandonada. No meio da escuridão, precariamente iluminada pela lua cheia, havia uma criatura coberta de longos pelos, com olhos esverdeados e brilhantes. Estava de pé nas patas traseiras e rosnou tão forte que o chão pareceu estremecer abaixo dos meus pés. Aquilo era com certeza um lobisomem, mas não nos atacou. Por quê?

Meus primos e eu, corremos consumidos pelo medo e se trancamos em casa. Ficamos em estado de choque durante algum tempo. Os adultos não acreditaram na história que contamos; acharam que tínhamos fantasiado alguma situação do cotidiano. Mesmo assim, diante do nosso evidente nervosismo, se viram obrigados a ir até a casa abandonada para checar. Levaram lanternas para inspecionar o local totalmente escuro. Os cachorros da rua não estavam latindo; um sinal de que a ameaça já não estava mais por ali. Não havia mais nada lá. Aquela horrenda criatura tinha ido embora. O lobisomem se foi; mas nunca mais esquecerei o que vi naquela noite de lua cheia.