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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: O DESTINO NA XÍCARA DE CHÁ

A cortina branca, o brilho claro de mais uma manhã nublada. Alice abre os olhos, e espera. Espera por uma brisa fresca, espera ouvir o som de passos, espera o ruído de preparação do café da manhã, ou do jornal matinal. Espera, espera e espera.

Particularmente, naquela manhã, antes de abrir os olhos, lembrou-se de uma tarde, vivida há muito tempo. E a força daquela lembrança a fez ver estrelas; uma infinita explosão sensorial debaixo de sua pálpebra, como uma chuva de partículas daquele passado tão… distante.

Sim, ela se lembrou da agitação das pessoas pelas ruas, o som da banda, o riso agudo das crianças e o aroma das frutas frescas. Alice adorava passear por aquela feira, comer algodão doce, cair na risada sem motivo… Fazia quanto tempo? A cigana, as cartas do tarot, a xícara de chá…

Como se emergisse do fundo de uma piscina, ela o ouviu chegando. Os passos, o tilintar de talheres, o rangido da porta abrindo. O perfil de Alain se delineou ante o negrume do corredor, e ao ver Alice desperta, sorriu. Trazia uma bandeja de café da manhã, que acomodou na cama, perto dela. Ele afofou seus travesseiros, perguntou se ela gostaria de ver TV, e em seguida, abriu as cortinas do quarto. A forte luz incomodou a vista dela, e com um muxoxo, ela virou a cabeça para o canto mal iluminado.

Com paciência, ele tirou seu pijama, e lhe vestiu algo leve, primaveril. Como uma boneca, estirada na cama, Alice deixava ele fazer o que bem entendesse com seu corpo paralisado. Depois, ele sentava ao seu lado, e lhe dava o café da manhã, na boca. Seis colheradas de mingau de aveia, chá e mamão com açúcar, seu preferido. Após esse ritual, repetido todas as manhãs, ele saía para o trabalho, e só voltava no fim da tarde.

E durante todo esse tempo, Alice ficava sozinha.

Perto da barraquinha de amendoins torrados, uma enorme tenda de tecido roxo chamava a atenção. Segurando seu algodão doce, Alice entrou na tenda. Poeira e bruma de incenso flutuavam pelo ar, e de repente, o ruído da feira lá fora pareceu desaparecer. Haviam cartas de tarot pelo chão, e muitas almofadas espalhadas. Todo o ambiente parecia um pouco caótico.

Por trás de uma cortina de miçangas, surgiu uma cigana. Nem velha, nem nova. Era nítido que usava uma peruca vagabunda, mas seus enormes olhos verdes pareciam naturais. Alice demonstrou entusiasmo, e a mulher aprovou. Puxou-a pelo braço, e a sentou diante de uma bola de cristal. Ansiosa, Alice devorava o algodão doce, enquanto a cigana se esforçava para ver um vislumbre do futuro. Ao cabo de alguns minutos desistiu da bola de cristal, e ofertou para a menina uma xícara de chá, pedindo para que assim que ela terminasse, lhe entregasse de volta para que ela pudesse ver seu futuro, nas folhas de chá do fundo.

Ao beber a última gota, Alice lhe entregou a xícara. Suas mãos formigavam de ansiedade, suas coxas suavam. A cigana fez um enorme esforço para desvendar a mística pose das folhas, e bem quando Alice deu sinais de querer ir embora, a cigana levantou o dedo, e anunciou: “Cuidado com as ironias da vida. Elas se disfarçam de golpe de sorte.”

Ao sair da tenda mágica, ainda desnorteada, Alice esbarrou em um jovem. Envergonhada por sua distração, desculpou-se e apressou o passo. No entanto, discretamente, o rapaz a seguiu. Alice saiu da ruela onde estava acontecendo a feira, e na esquina comprou um bouquet de flores do campo. Seguiu caminhando até o final dessa nova rua, e desapareceu em um hospital.

Duas horas depois, ao deixar o hospital, deu de cara com o jovem do esbarrão. Intrigada, e um pouco envaidecida, ela perguntou o que ele fazia ali. Ele alegou que ela não havia se apresentado, e que ele era Alain.

Alice comentou que viera fazer sua visita semanal ao seu avô, internado há meses. Alain demonstrou uma preocupação exagerada, mas rapidamente a moça o tranquilizou, afirmando que o quadro do avô era estável.

– – Aceitaria tomar um café comigo? Conheço um lugar ótimo por aqui…

Alice aceitou, e em seguida, o flerte aconteceu naturalmente.

Alain sorria, acrescentando bastante leite em seu café, enquanto a luz poente delineava o topo de sua cabeça, e seus cachos loiros pareciam um halo iluminado. Alice sorria também, as covinhas aparecendo, os joelhos se tocando por baixo da mesa.

– – Outro café, por gentileza! – – ela pediu.

– – Mais um café, por favor! – – ele acrescentou, uma hora depois.

“Qual seu livro preferido? Você viu o último filme daquele ator? Qual o nome dele? Aquele ruivo… Qual seu signo? Você acredita nessas coisas? Nem eu… Qual sua viagem dos sonhos? Você tem animal de estimação? Mora com seus pais? E sua bebida preferida? Tem tatuagem? Tem irmãos? Prefere praia ou montanha?”

Gentilmente, ele estendeu a mão até o braço dela. Alice sentiu os pelos se arrepiarem.

“Qual seu pior pesadelo?”

Alice não respondeu a maioria das perguntas, apenas sorriu, encabulada. Alain, se encantou por seu frescor natural, as cores vivas de seu vestido, o aroma doce que vinha de seus cachos rebeldes; tudo nela, começou a inebria-lo.

– – Vamos continuar essa conversa? – – ele perguntou. – – lá em casa? – – acrescentou, tímido.

Sem perder o encanto, Alice recusou. Alain não insistiu, apesar da louca vontade de toca-la, de poder senti-la. Ele implorou por seu telefone, e em um primeiro momento, ela hesitou. Depois cedeu, e escreveu os números na palma da mão dele.

Despediram-se em frente ao Café, e enquanto Alice se afastava pela calçada, Alain sentiu o sangue latejar nos ouvidos, e o coração bater mais forte.

– – Alô?

– – Alice? É Alain… O cara da feira, da cafeteria…

À princípio, a ligação manteve aquele tom desconfortável de uma primeira conversa. Mas logo relaxaram, e combinaram um novo encontro, um restaurante à beira-mar, às nove.

Alain chegou antes, pegou a mesa que havia reservado, e tentou manter-se calmo. A luz da lua sobre as ondas o acalmou, e ele relaxou em saber que estava tão perto da tranquilidade do oceano.

Seria o primeiro encontro oficial depois do furacão Nicole. Só de lembrar do seu nome, daqueles sete longos anos… ele sentia uma náusea mortal. Fechava os olhos e conseguia ver nitidamente o rosto pálido, o nariz aquilino, os profundos olhos negros da ex. Um rosto belo, mas que não o enfeitiçava mais. Tão diferente da pele bronzeada, da vida, da luz, das bochechas e sardas de Alice!

Então, ela chegou. O vestido preto curto que usava realçava as pernas bronzeadas, e os cachos castanhos estavam penteados em um coque no alto da cabeça.

Alice Condoïselle. Alain Guillauge. As mãos se tocaram, e uma corrente elétrica percorreu ambos. À medida que a garrafa de vinho chegava ao fim, eles sentiam-se mais próximos, íntimos, amigos de longa data. Pediram lagosta e ostras frescas. O sabor da comida, a maresia, e o perfume de Alice enfeitiçaram Alain, completamente.

Quando o garçom chegou com a conta, eles pagaram às pressas, e rumaram, excitados e felizes para o apartamento de Alain.

Com a proximidade da boca dele, o cheiro forte de vinho funcionava como um tipo estranho de afrodisíaco. Bêbado, Alain não era exatamente “sexy”, mas a quentura dos seus lábios, o odor familiar do seu hálito, acendia em Alice uma chama teimosa. Uma vontade de estar sem roupa, e sem pele.

Fizeram amor no tapete da sala de estar. Um tapete branco, imaculado, assim como as paredes e toda a decoração. Seria ele um perfeccionista? Teria TOC? Alice se lembrou da desordem do próprio apartamento, e corou.

Costas nuas, suor, risos, mais vinho. A luz fraca de um abajur mal os alcançava. O mundo estava desfocado, eles gargalhavam o tempo inteiro, estavam em uma bolha particular de uma paixão novinha em folha, até que uma pergunta quebrou a atmosfera harmônica.

“Qual o seu pior pesadelo?”

Alice não respondeu, em vez disso, levantou do tapete em busca de um copo d’água. Abriu a geladeira, abriu o armário da cozinha à procura de copos, e por fim os encontrou na bancada. O tempo inteiro, sentia o olhar de Alain em suas costas. Não havia sido a pergunta, mas o tom da pergunta…

– – Ei, volte pra cá…

Em um instante de lucidez, Alice cogitou ir embora. Sim, Alain era atraente, eles já haviam transado, mas ele ainda era um estranho. Ela ainda estava na casa de um estranho.

Como se percebesse sua hesitação, Alain se levantou e foi até ela. Seu corpo quente a envolveu. Ela largou o copo d’água e resolveu ignorar seus receios.

Quando o dia seguinte chegou, eles já eram um par. A Alice do Alain, o Alain da Alice. As transas na cozinha, no sofá, no quarto, não eram mais apenas tesão recente. Os programas em casal começaram a se tornar frequentes: cinema, pique-nique no parque, jantar romântico. O apartamento de Alain, que a primeira vista assustou Alice, agora era o ninho de amor do casal. Não sentiam vontade de se largarem. E para que se largariam?

Três meses após o primeiro encontro, Alain resolveu arriscar um novo passo. Ele estava cozinhando o almoço, enquanto Alice estava esparramada no sofá, lendo.

– – Escuta, meus pais virão à cidade mês que vem. Todo mês almoçamos juntos, e bem, eu estava pensando… gostaria de almoçar conosco? Acho que eles ficariam felizes em conhecer você… a minha… namorada.

Após lançar essa pergunta, Alain corou fortemente.

– – Eu sou sua namorada? – – fez Alice, levantando do sofá e indo até ele. Enlaçou sua cintura, e se aproximou de seus lábios, dizendo: – – se sou sua namorada, tenho que ir…

Emmanuel e Beatrice, os pais de Alain, eram um casal deveras asseado e educado. Ambos vestiam branco, usavam acessórios discretos e falavam extremamente baixo. À princípio, intimidaram Alice, que de limpa e organizada não tinha nada, mas eles acabaram aprovando um ao outro.

– – Tem certeza que ela é a menina para você, meu bem? – – perguntou Beatrice, em um sussurro para o filho, aproveitando que Alice havia ido ao banheiro.

Estavam no restaurante mais caro do bairro, onde o piso de mármore mais parecia um espelho, e o lustre devia ter sido trazido do Palácio de Versailles. A escolha do lugar, é claro, tinha sido escolha dos pais de Alain.

– – Tenho, mãe. Eu gosto dela. Acho que ela é sim a garota para mim.

Após o encontro com seus pais, Alain sentiu que Alice havia mudado. Nos dias seguintes, ela parecia distraída, meio calada.

– – Está tudo bem?

– – Sim. – – ela respondeu, baixinho.

– – Não parece! Ele replicou, impaciente. Me fala, droga! Odeio esse jogo de adivinhação! O que foi que eu fiz?

– – Nada, Alain! Você não fez nada. – – Ela respondeu, se afastando sutilmente de sua energia raivosa. O tom de voz exasperado que ele usou a surpreendeu por completo. Parecia um tanto quanto exagerado. – – É que eu acho que vi o quanto somos diferentes, é só isso.

– – O que você quer dizer? – – Alain parecia verdadeiramente confuso.

– – Alain, pelo amor de Deus! Não é possível que você não tenha percebido! Nesse exato momento você está vestindo uma camisa Lacoste, e meu vestido é de algodão barato e ainda tem um furo! – – suspirou. – – somos de mundos diferentes.

– – Está me dizendo que é uma questão de classe? – – sua voz se abrandou e ele relaxou. – – Alice, não me importa que você tenha uma fortuna ou um barraco! Não me preocupo com o quanto você ganha, mas com o quanto você gosta de mim!

Alice sorriu, e ele acariciou seu rosto.

– – Eu nunca vou te deixar, Alice. Eu prometo.

No embalo daquela madrugada, Alice não conseguia dormir. No negrume do quarto, não conseguia ver se Alain dormia ou não. Sentia-se sufocada, engolfada por uma angústia enorme.

De repente ficou difícil de respirar, e ela correu para o banheiro.

No luxuoso banheiro, ela sentou na beira da hidromassagem, e tentou acalmar a respiração. Só aquele banheiro era maior do que o seu apartamento, e pensar sobre isso a deixou mais nervosa ainda.

– – Alice? – – Alain bateu na porta. – – Alice, você está bem?

Alice abriu a porta, e sem que ele entendesse, o abraçou muito forte.

– – Meu bem, o que está acontecendo…?

Ainda com o rosto enfiado em seu ombro, ela balbuciou:

– – Há coisas que eu preciso contar.

Já era quase seis da manhã quando terminaram de conversar. A terna luz da aurora já corria pela persiana quando eles sentiram o corpo amolecer de sono e exaustão.

– – Nunca tive nada, e já passei fome. – – Ela confessou, sem olhar para ele. – – Quando eu era bem criança, via minha mãe em vários trabalhos, sem mal conseguir alimentar a mim e ao meu irmão. Não era raro ela deixar de comer pra nos alimentar, ou deixar de comprar um casaco, para nos comprar um cobertor. Um cobertor era tudo o que tínhamos no inverno, e uma poça de água gelada era tudo o que tínhamos no verão. Meu pai nunca existiu. Pelo menos, eu nunca o vi, e ninguém nunca falou dele. Na casa ao lado, morava um velho do qual gostávamos muito, e que em pouco tempo, nós começamos a chamar de avô. Ele ajudou a cuidar de nós enquanto mamãe saía para tentar fazer grana. Você sabe, ele está internado hoje em dia, câncer de próstata. Há alguns anos, meu irmão faleceu, mas eu não quero falar sobre isso. Quando eu cresci mais, comecei a me virar, servindo mesas, passeando com cachorros, essas coisas. Mamãe não aguentou a pressão e fugiu com um sujeito barbudo, que eu não sei nem o nome. – – Concluiu, sem jeito: – – bem, é isso. Precisei contar tudo isso, pois quero que você entenda minha dificuldade em me sentir à vontade aqui, usando um fogão que custa o mesmo que um carro, e dormindo em uma cama de colchão holandês sob medida.

– – É que eu tenho problema de coluna. – – Alain comentou, brincando. – – obrigado por ter dividido isso comigo. Obrigado por dividir comigo, todos os dias, a sua vida.

Alice secou rapidamente uma lágrima que escapou.

– – Sinto muito por todo o aperto que você passou, querida. Sinto mesmo. Mas essa é sua vida agora, ok?

Eles não fizeram amor, mas adormeceram, nos braços um do outro, quando o dia raiou.

Alice estava na sala, quando Alain chegou esbaforido do trabalho.

– – Misericórdia, quase uma hora preso naquele maldito engarrafamento! – – ele guinchou, arrancando a gravata, e atirando os sapatos no tapete felpudo.

Alice deixou de lado a revista que lia, e se aproximou para beija-lo.

– – Senti sua falta, meu bem. – – ele sussurrou em seu ouvido. – – que tal uma noite especial, hãn? Tem um vinho importado na adega, e eu posso cozinhar algo bem bacana para nós…

– – Meu querido, já passamos todas as noites juntos… Essa noite eu pensei em ver minhas amigas.

Alice deu um passo para trás quando a fisionomia de Alain passou de apaixonada para contrariada.

– – Amigas? Que amigas? Eu pensei que você queria ficar comigo! Eu planejei uma noite romântica e…

– – Alain, não tem nada de errado eu querer rever minhas amigas. Eu tenho estado enfurnada aqui, nesse apartamento com você, há meses. Não faço outra coisa a não ser te esperar, estar com você, viver pra você! Até meu emprego eu larguei!

– – Emprego? Que emprego? Chama aquele cargo ridículo de emprego? Você servia mesa, pelo amor de Deus!

O olhar de Alice se estreitou, e seu semblante se fechou.

– – Não desmereça meu trabalho, e nem meu estilo de vida. Só porque eu não ganho milhões como você, não quer dizer que eu não tenha vida e dignidade!

– – Eu estou te dando uma vida! Eu estou te dando do bom e do melhor! Olhe pra você! Quando eu esbarrei contigo, naquela feira, você era apenas uma caipira! Olhe pra você, agora! Unhas feitas, roupa de marca, cabelo impecável…! Se não fosse por mim você ainda estaria naquela vida miserável! E tudo o que eu peço é um pouco de atenção e dedicação de sua parte!

Alice abriu a boca para falar, mas não foi capaz de exprimir nenhuma palavra. Em seu peito, um ódio quente borbulhava, e ela sentiu o nó dos dedos se apertarem.

– – Vamos, esqueça essa briga, meu bem! Que tal um banho juntos?

Alice serrou os dentes, e concordou.

Todas as noites, depois que eles faziam amor vigorosamente, Alain virava para o lado e imergia em um sono pesadíssimo, enquanto Alice permanecia com os olhos arregalados, olhando para o teto.

Pensamentos dolorosos, recordações de um parco passado, de inúmeras provações, lhe deixavam aflita. Ainda parecia inacreditável que agora ela dormia em um jogo de cama de seda pura, almoçando salmão e usando jóias.

Na escuridão da madrugada, o brilho da rua se projetava pela persiana semi aberta, delineando o perfil adormecido de Alain. Ela o amava? Não. Mas não deixava de gostar sim, de sua pessoa. Havia o medo de partir e de perder aquela nova vida de privilégios, e de ficar e não ter nenhuma vida.

Se ela tivesse que aguentar demonstrações machistas e possessivas para continuar a vestir grifes italianas, então ela aguentaria.

Contudo, ela não aguentou. E o ápice de seu dilema foi quando Alain apareceu em casa com duas passagens para a Grécia.

Ao ver os bilhetes, Alice pulou em cima de Alain, beijando-o e gritando de felicidade, esquecendo imediatamente o inferno que ele fazia em sua vida. Ela nunca havia entrado em um avião, sequer estado em um aeroporto.

– – Uma semana de descanso em Míkonos, hãm? Infelizmente não posso demorar mais, agora que sou o novo sócio da firma… – – Vamos, faça suas malas!

Sobrevoando a costa de água cristalina, Alice não conteve a emoção. Fechou os olhos, e lembrou-se da esteira de palha que sua mãe havia posto em casa, a fim de que não pisassem diretamente no chão de barro. Ela ainda podia sentir o ruído de fome no estômago, o eterno frio nos ossos, o tédio de incontáveis horas brincando com uma boneca sem braço e sem perna. A miséria ainda andava com ela. Estava em sua cola. Um descuido, apenas um descuido, e ela poderia cair de novo no buraco da fome.

– – Meu bem, – – fez Alain. – – para você.

Alice pegou um embrulho de veludo escuro, e o abriu. Dentro de um estojo, ela se deparou com um colar estupendo de águas-marinhas.

– – Pensei que você poderia usar na nossa primeira noite grega.

O jantar à luz de velas, defronte para um mar iluminado por uma lua cheia, foi incomparável. Alain havia reservado um espaço separado no restaurante. Privado, apenas para os dois.

“Ele não mede esforços para me afastar do mundo”, Alice pensou, enquanto mastigava ostras frescas. Após a sobremesa, retornaram para o luxuoso Resort onde estavam hospedados, e contra sua vontade, Alice fez amor.

Outra madrugada insone. Dessa vez, diante de um oceano novo. Na sacada, próximo das duas da manhã, ela acendeu um cigarro. O brilho da pequena chama em seus lábios era a única claridade da noite, já que a lua havia se escondido por trás de pesadas nuvens. Ela olhou para dentro do quarto, e acompanhou o tórax de Alain descendo e subindo em sua respiração, com seus ruídos.

“Qual o seu pior pesadelo?”

Alice lembrou-se da pergunta que ele tanto lhe impusera, há alguns meses, e respondeu para si mesma: isso.

Às onze, depois de um café da manhã reforçado, e um jogo de tênis que, obviamente, Alice perdera, chegaram à praia, em frente ao Resort.

Alice mergulhou os pés na água, e inclinou a cabeça para trás, deixando o calor do sol queimar seu rosto. Alain estava mais distante, na areia, protegido por um enorme guarda-sol. Mas, mesmo àquela pequena distância, ele a vigiava.

Depois de mergulhar, Alice se afastou até uma barraquinha na areia que vendia picolés.

– – Um de uva, por favor.

As sardas, o biquini azul colado, as madeixas molhadas colando nas costas, não foram indiferentes aos olhos do vendedor.

– – Tenho apenas de maracujá, pode ser?

Alice concordou, e ele lhe entregou o sorvete na mesma hora que ela entregou o dinheiro, e os dois riram.

– – Combinadinho! – – ela se apressou em dizer. – – Só mesmo um picolé para deixar esse paraíso perfeito!

– – Você não é daqui?

– – Que nada! Eu sou uma caipira!

Cinco minutos depois, ela voltou para debaixo da barraca de Alain, sorridente e com metade do picolé.

Antes mesmo que pudesse dizer alguma coisa, caiu de cara na areia, com a força do tapa inesperado que ele lhe deu.

– – Pensa que eu não vi? Eu vi perfeitamente! Você flertando com aquele Zé Ninguém! Você está comigo, vadia! Comigo, e mais ninguém, entendeu!?

Sem conseguir responder, ou mesmo olhar para ele, Alice segurava um pano com gelo no lado esquerdo do rosto, sem conseguir acreditar na ironia de sua sorte, seu destino visto na xícara de chá.

O resto da viagem correu nos mesmos termos: restaurantes caríssimos, tapas, jóias, transas não consensuais, lágrimas, insônia e mar.

Enquanto retornavam, algo acendeu dentro de Alice. Uma fúria, uma indignação, algo que ela sabia que não seria passageiro, tampouco controlável. Ali mesmo, no jatinho particular de volta pra casa, ela decidiu o que iria fazer.

– – Quantos gramas será necessário?

– – Difícil dizer. – – respondeu o homem atarracado, atrás do balcão. – – extrato de tetrodotoxina é uma substância pouco conhecida ainda. Dependendo da quantidade pode matar ou paralisar. É caso de sorte. – – acrescentou com um risinho estranho: – – ou melhor dizendo, de azar.

Alice saiu do armazém clandestino às pressas, Alain chegaria em casa em menos de vinte minutos.

Quando ele chegou, atirando gravata e sapato para todo lado, ouviu Alice cantarolando na sala de jantar.

– – Minha nossa, você deve estar de bom humor! – – ele gracejou, abraçando-a pela cintura.

– – É claro! Hoje faz um ano desde que nos esbarramos na saída daquela feira, lembra? Pensei que era a ocasião de comemorarmos!

Não era a data exata, claro, mas Alice pensou que ele não se lembraria. E de fato, a constatar por seus olhos brilhando de felicidade, ele não se lembrava.

Jantaram filé mignon, legumes e sopa de cogumelos. Alain comia com prazer, e de tempos em tempos, lhe acariciava a mão, demonstrando gratidão e ternura. Por dentro, Alice explodia em nervosismo, mas sua voz não delatou nada quando ela perguntou:

– – Gostaria de um pouco de vinho branco?

– – Eu adoraria. – – ele respondeu, com um sorriso.

Uma vez sozinha na bancada da cozinha, Alice puxou do bolso da calça um saquinho plástico com o extrato de tetrodotoxina. Com os dedos trêmulos, despejou tudo na taça que serviria à Alain. Suando frio, retornou para a sala de jantar.

Já era quase sete da noite, quando Alain bateu na porta do quarto de Alice. Na televisão, um programa sobre pesca submarina mostrava à seus telespectadores como funcionava a rotina de alguns animais marinhos:

“Ocorre também na pele de salamandras aquáticas, bodião, sapo Atelopus, determinados polvos, estrela-do-mar, anjo-do-mar, porco-espinho e caranguejo xantídeo. Nenhuma alga foi identificada como responsável por essa produção e até recentemente a tetrodotoxina foi considerada como um produto metabólico do hospedeiro, cuja substância é capaz de matar, ou mesmo provocar em sua vítima uma paraplegia sem reversão.”

Lágrimas rolaram pelo rosto de Alice, enquanto Alain lhe presenteava com mais um estojo de jóias.

– Eu lhe disse, meu bem, eu nunca vou deixa-la.

Fim.

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Contos Paula Nogueira Terror

CONTO DE TERROR: ESCURIDÃO

Acordei no meio da noite e como de costume coloquei a cabeça pra fora do beliche para conferir se meu irmão mais novo ainda estava na cama, e para minha alegria ele estava. Nosso trato era que quem acordasse primeiro dormia do lado de nossa mãe no quarto dos nossos pais. Desci a escada do beliche tomando o maior cuidado para não acordá-lo, só o fato de conseguir o lugar ao lado da minha mãe no dia do meu aniversário era muito gratificante, não que meu pai fosse uma pessoa ruim, ele até mimava demais a gente, é que nada se compara ao calor de uma mãe, a forma como ela nos aconchega em seus braços, a gente se sente seguro de verdade.

E na pontinha do pé eu fui até a porta, o quarto iluminado pela luz de um abajur era aconchegante, mas eu não via a hora de estar na cama dos meus pais, então sem pensar muito sai do quarto, quase me arrependi na mesma hora, a escuridão que me cercava era claustrofóbica, pesada, o silêncio absurdo preencheu cada parte do meu corpo, mesmo assim decidi seguir o corredor, me segurando nas paredes até a porta do quarto dos meus pais. 

Estava fazendo um frio absurdo, meus pés descalços tocavam com cautela o piso frio, nem mesmo o breu impedia que eu visualizasse minha respiração saindo pela boca como uma fumaça. “Psiu”, meu corpo travou, eu só consegui pensar que devia estar com muito sono, ignorei o barulho e apertei o passo até o quarto dos meus pais. Antes mesmo de colocar a mão na maçaneta ouvi um novo chamado, agora um pouco mais alto. Nossa cozinha ficava de frente para a porta, e mais ao fundo ficava a lavanderia, o barulho vinha de lá. 

Meu desespero cresceu desenfreado, ouvi meu nome vindo de dentro da escuridão, minha garganta secou e com força segurei a maçaneta da porta, mas antes de conseguir fazer qualquer outro movimento ouvi meu nome, em alto e bom som, meu corpo paralisou, “ Paula, tenho um presente pra você”, a voz parecia ser de mil almas falando ao mesmo tempo, em volumes e tons diferentes, “ estou aqui por você”. Entrei em choque, meus olhos não piscavam, e em meio a escuridão eu vi, tremi diante do ser que se arrastava na minha direção, meu corpo num transe sufocante, não conseguia tirar os olhos daquilo, era grande, e cada vez que tentava se levantar ficava ainda maior, o escuro já não era mais tão escuro quanto aquilo que se aproximava de mim. 

Meu corpo suava e tremia inteiro, tentei abrir a porta mas nada aconteceu, entrei em pânico quando percebi que estava trancada. Minha respiração que até o momento era totalmente irregular agora travou em minha garganta, meu medo cresceu a limites extremos quando a criatura abriu os olhos, um tom amarelo vivo me hipnotizou, “ não fuja de mim criança, tenho algo pra você”.

Um cheiro insuportável de enxofre misturado com carne podre invadiu o ambiente, minhas narinas arderam como brasa. A criatura pareceu começar a cantar, um canto demoníaco, meu corpo amoleceu, uma tristeza absurda me inundou, fui tomada por um sentimento de desistência absurda, não senti mais esperanças de que a porta atrás de mim pudesse se abrir e minha mãe me puxar pra dentro, naquele momento só existia eu e aquela criatura a minha frente, aqueles malditos olhos amarelos. Chorei calada, ainda em transe pelo movimento gatuno daquela criatura, o corredor diminuindo cada vez mais, senti meu braço amolecer e soltar da maçaneta, pendendo ao lado do meu corpo. Era impossível desviar os olhos, minha atenção se fincou no andar lento da criatura que clamava pelo meu nome em um milhão de vozes. Meu coração gelou ao sentir o toque asqueroso em meu calcanhar e em segundos me levou ao chão, me puxando para perto dela. O canto se transformou em gritos malditos e o medo disparou meu coração, como se ele fosse explodir dentro do peito, seus gritos alcançavam tons cada vez maiores, fazendo meus ouvidos sangrarem, o suor escorrendo e se fundindo as minhas lágrimas, as mãos da criatura subindo pelas minhas pernas.

“Meu amor, não tenha medo”, paralisei ao ouvir a voz de minha mãe, olhei para trás e vi meus pais saindo da escuridão, parando no batente da porta. Soltei gritos desesperados de socorro mas me calei quase de imediato quando vi seus olhos amarelos, como as da criatura a minha frente. “A gente está aqui com você”, disse meu pai, ambos exibiam um sorriso tão grande que quase rasgava os cantos de suas bocas, uma felicidade doentia, e lá do fundo de suas gargantas começava uma gargalhada ácida. 

Eu sabia que não adiantava mais lutar, me rendi ao abraço da criatura, o hálito quente e fedido enchia meu rosto, e ao abrir a boca senti uma pressão descer pela minha garganta, a criatura mantinha a boca aberta perto da minha, e sem aguentar mais vomitei uma bile negra, o mesmo cheiro de azedo da criatura agora também emanava de mim.

“Agora você é minha”, a criatura enfiou sua mão gelada dentro do meu peito e retirou meu coração como se não fosse nada, uma dor sufocante eletrizou todo o meu corpo e cai de joelhos diante dela, ela que agora seguiria sem saber o porque. A criatura mastigava meu coração, a carne fresca em suas mãos, pingando sangue, o meu sangue, no topo da minha cabeça. Palavras que eu não compreendia saiam da boca dela enquanto entregava os restos de carne para meus pais, que devoraram como se fosse a maça do jardim do Éden. 

Ouvi os gritos de meu irmão abafados pelo choro, eu me perguntei porque ainda estava consciente, mas apenas da mente, porque me vi encaminhando em direção ao meu quarto e dividindo a carne do coração de meu irmão junto com meus pais.

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Contos Gabriela Leão

CONTO: TEMPESTADE

A chuva está vindo.

Não faço nada no momento. Deito no chão, sob o tapete que colocamos no meio da sala e fico olhando pela janela. Esperando. Desse ângulo, não consigo ver prédios, nem postes, nem fios, nem nada que me lembre do resto da humanidade. Deitada assim, só o que consigo enxergar pela janela é um pedaço céu. 

Está escurecendo. 

O azul está ficando escuro, a nuvem negra se aproxima. Trovão. Parece que vai ser pesada. Melhor assim, chuva leve não me diz nada. Chuva leve é aquela que não atrapalha quando precisamos fazer alguma coisa banal, como: comprar pão, levar o cachorro para passear ou pegar ônibus. É normal, de todo dia. A chuva pesada não se deixa ignorar. 

Os primeiros pingos batem no vidro. 

Eu tinha fechado a janela. Ficou abafado. Mais um trovão. O som me envolve e o barulho da chuva chega com força. No último temporal, estávamos deitados juntos. Mas não tenho tantas memórias assim de você na chuva. Não são várias cenas que chegam à minha mente com nós dois debaixo d’água. Não é por isso que penso em você. 

É que sempre gostei de dias de chuva, mas tem que ser daquelas chuvas fortes, que dominam tudo. 

A água me abraça, mesmo que eu esteja protegida por um teto. O barulho, os pingos no vidro da janela, nas folhas da árvore que chega até o nosso andar. Os trovões. Todos eles me preenchem, e, se respirar profundo por um momento, desapareço. Sumo, e chego em casa. Não o apartamento onde estou, outro lugar, outro lar. 

Tento alcançar o vidro.

Do chão, onde estou, não consigo nem com o braço esticado. A luz é embaçada do lado de fora, alaranjada, cortesia dos poucos postes da rua. As nuvens negras controlam todo o céu que posso ver. Mas está longe, não é suficiente. Preciso de mais. Em dias comuns, que te vi e sei que verei novamente no dia seguinte, posso só olhar a chuva. Recentemente ficamos tão ocupados. Cada um com suas próprias tarefas.  

Abro a janela.

Coloco as mãos para fora, ficam encharcadas em poucos segundos. Venta, e a água acaricia meu rosto. Invade a sala, mas o pior que vai acontecer é molhar o tapete. Eu preciso do contato, do abraço ainda mais forte e carinhoso. Preciso escutar mais alto. Apoio no parapeito da janela, o rosto inclinado para fora, só um pouquinho. Eu ignoro a vertigem, vale a pena ignorar vertigem. 

Uma trovoada. 

Chuva forte é algo que merece ser admirado. Os pingos batem ainda mais pesados em tudo que encontram pelo seu caminho, bagunçam meu cabelo, o barulho me preenche, e nada passa pela minha mente, só sinto. Inspiro fundo seguidamente. Por alguns segundos não escuto nada além da água. Fecho os olhos, não estou mais aqui. É por isso, ela me leva até você. 

A chuva.

O vento forte, bate gentil no rosto. No fim de tudo, somos apenas pingos de chuva para o universo, mas somos. A chuva me diz que faço parte disso. Está me dizendo que pertenço, que aqui é meu lugar. 

E por isso me lembro de você. O seu abraço, encostar a cabeça no seu peito, respirar fundo, sentir o seu perfume, seus braços me apertando de volta.  Estar em casa. 

Com a tempestade.

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Adam Mattos Contos

CONTO: PAULO E LIZA

Paulo estava andando pela rua, cabisbaixo, pensando nas perdas que sofreu na vida. Primeiro, quando criança, seu cachorro Pitty fugiu de casa, causando-lhe um sofrimento igualável a perda de um familiar, depois, quando era um pouco mais velho, tinha uns dezessete anos, seu pai o abandonou, deixando-o sozinho com sua mãe. Quando adulto, morava sozinho e tinha a sua independência — um bom emprego, uma namorada que amava — sua mãe faleceu abruptamente, de um ataque cardíaco fulminante, deixando-o praticamente órfão. E Meses depois, em um dia que estava com uma enxaqueca lancinante, saiu mais cedo do trabalho e encontrou a namorada na cama com outro homem. Sua reação foi apenas de chorar ao ver os dois se vestirem e saírem da casa, nesse dia a namorada saiu para sempre da sua vida. Dois anos depois, quando já tinha quarenta e dois anos, depois de uma crise arrebatadora que assolou o país, ele foi demitido por conta da contenção de despesas. E era nessa situação em que Paulo se encontrava agora, andando pela rua, sem perspectiva e pensando em como a vida tinha sido injusta com ele até então. Ele precisava do que os americanos chamam de um break, uma pausa, que algo bom acontecesse para que a vida voltasse a ter sentido.

Distraído, ele acabou trombando com uma mulher que vinha apressada na direção oposta carregando uma pilha de papéis, derrubando-os no chão. Paulo imediatamente pediu desculpas e começou a ajudar a moça a recolhê-los, foi então que seus olhos se encontram e eles pararam de súbito. Algo aconteceu ali, nem ele e nem ela sabiam explicar, mas era como se já se conhecessem há muito tempo. Quando terminaram de recolher todos os papéis, ele prontamente se apresentou:

— Me chamo Paulo, muito prazer.

— Sou Elizabete, mas pode me chamar de Liza. O prazer é meu.

— Olha, me desculpe o atrevimento, mas isso não acontece comigo com frequência. Você poderia me passar o número do seu telefone?

Liza sorriu e prontamente pegou o celular dele, anotou o dela e disse:

— Me ligue. Vamos sair qualquer hora para tomar uma cerveja.

Paulo se despediu e continuou andando, ouvindo os passarinhos cantarem. A vida parecia bela novamente, tudo aquilo que vinha o deprimindo agora parecia apenas uma lembrança longínqua de um passado distante. Ele era feliz novamente. Uma mulher linda, que aparentava ter uns vinte e poucos anos, tinha se interessado por ele. Ele não via a hora de ligar e marcar para sair com ela.

A semana correu normalmente, Paulo não tinha muito o que fazer, já que estava desempregado. Mas isso não o deprimia mais, ele não via a hora de chegar quinta-feira para ligar para Liza. Chegando o dia, ele ligou:

— Alô?

— Alô, Liza?

— Isso, quem fala?

— É o Paulo. A gente se esbarrou na rua, tá lembrada?

— Ah! Oi, Paulo, claro que sim. Tudo bem? Achei que não ia me ligar mais.

— Desculpe, é que a semana foi corrida. Mas, e aí? Topa aquela cervejinha no sábado?

— Claro, topo sim. Para onde você quer ir?

— Tem um barzinho no Batel, o Shadow, que eu gosto muito. Conhece? 

— Conheço sim, já fui algumas vezes, também gosto de lá.

— Que tal a gente se encontrar lá às sete da noite? O que acha?

— Por mim está ótimo.

— Maravilha, marcado então. Um beijo e até lá!

— Um beijo. Até.

Paulo desligou o telefone e mal podia se conter de tanta alegria, tinha conseguido um encontro com uma mulher linda, depois de tanto tempo.

Sexta-feira foi ao cabeleireiro para cortar o cabelo e fazer a barba, saindo de lá foi direto ao shopping comprar uma roupa nova para o encontro. Ele comprou uma calça de sarja branca e uma camisa social preta para combinar com o seu sapato, gastou quase toda a sua economia, mas valeria a pena.

Chegando o grande dia, ele se arrumou, passou o perfume Carolina Herrera 212 quase no final, e foi para o bar às seis da tarde para ir tomando umas cervejas, assim, quando ela chegasse, ele estaria um pouco mais desinibido.

Às sete e quinze da noite Liza chegou ao Shadow e já o avistou de longe.

Meu Deus, como ela é linda, ele pensou. A sensação de que já a conhecia se tornou mais forte. Era o destino falando mais alto, só podia ser.

Eles se sentaram à mesa e começaram uma conversa, que fluía como se já fossem velhos amigos. Ela contou que era advogada recém-formada e estava trabalhando em uma firma de renome em Curitiba. Paulo não teve coragem de dizer que estava desempregado, não ainda, afinal, ele queria conquistá-la primeiro, por isso disse que ainda estava trabalhando em seu antigo emprego, fora isso foi supersincero com ela, pois parecia que podia confiar naquela estranha completamente. Dessa vez o cupido tinha agido da maneira correta e ele achava que finalmente tinha achado a mulher certa.

Eles ficaram no bar até uma da madrugada, quando ele a convidou para ir ao apartamento dele, convite esse que foi prontamente aceito. Lá chegando, abriram uma garrafa de vinho e começaram a se beijar. Ela relutou por um instante dizendo que nunca tinha ido para a cama com alguém na primeira noite, mas que aquele não era um encontro comum, ela sentia algo diferente e sabia que ele também sentia. A coisa foi esquentando e foram para a cama, fizeram amor e, no final, ele arriscou um “Eu te amo” para ela, que, assustada, retribuiu a gargalhadas “Eu também te amo”. Os dois estavam vivendo a história de amor da vida deles.

De manhã, quando ela estava tomando banho, ele viu a carteira dela aberta em cima criado-mudo ao lado da cama e deu para ver o RG. Algo que ele não sabia ao certo o que era o fez pegar o documento dela. Seu coração parou por um segundo quando viu o nome do pai dela, Joarez Silvério Stroberg de Azevedo, foi então que entendeu imediatamente o motivo de tanta afinidade. Ela era a sua irmã.

Conto que integrará o livro: Devaneios de uma mente perturbada”

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Adriano Besen Contos Terror

CONTO: FLORESTA NEGRA

Assombrosa Floresta Negra, diluída em sua névoa. Uma fonte do oculto, dos mistérios, da criatividade, da produtividade, da inspiração. Habitei durante anos suas entranhas; percorri seus inacessíveis vales na companhia do meu pinscher selvagem. Não sabia se era dia ou noite; e isso não importava. A floresta não reconhece nem a luz e nem as trevas. Morada de todos os seres; da vida e da morte. Manifestações angelicais ou demoníacas habitam dentro de ti. Diga-me onde elas estão. É difícil perceber quando se está na Floresta Negra. Em meio ao labirinto sedutor dos obscuros pinheirais.

No frio do teu impiedoso clima ou no calor do traiçoeiro desejo, não é tarefa fácil distinguir verdades de mentiras, trapaças de cortesias, remédios de venenos. Está fora e dentro de mim a selvagem Floresta Negra. Quando o bem se esquiva e o mal se revela, a trilha se bifurca e a dúvida reivindica a transmutação. E agora, que caminho seguir? Lobisomens, Bruxas, Demônios e todas as criaturas monstruosas das gélidas sombras espreitam por ali. Estão famintos, sedentos, obsessivos.

De tocaia, eles aguardam por mais uma vítima inocente, uma alma indefesa; para o desfecho do sacrifício derradeiro. O Bem sempre vence o Mal; mas até que o Bem triunfe, o Mal tripudia com escárnio sobre os que sucumbem no caminho. Não há feitiço ou feiticeiro que seja capaz de oferecer salvação a quem desistiu de ser salvo. Na rigorosa Floresta Negra, os predestinados enxergarão a glória; mas somente na hora do crepúsculo. Poderão alcançar com bravura a passagem pelas regiões pantanosas e pelas calamidades impostas. A jornada será vencida, apesar das incansáveis e fulminantes ciladas das forças adversárias. 

Por entre o emaranhado de galhos das árvores da selva, os notáveis raios cintilantes da vitória, surgirão como benção Divina, como um chamado Celestial. Os Seres Elementais cantarão louvores aos destemidos vencedores. A Floresta Negra protege e amaldiçoa quem está em seu hostil território; a magia é respirada no ar, a vida é sentida na terra, o tempo e a energia fluem na água e a chama acalorada dos sentidos humanos arde no fogo da luz do sol.

A Floresta Negra me enreda em seus encantos, me arrebata nos braços do destino; no testemunho dos meus valorosos ancestrais. Nessa fantástica ampulheta da vida, o tempo me leva ao pó da sobrevivência. Enquanto eu percorria livre o escuro corredor da solidão silvestre do seu interior, era observado pelo olho do alpha e do ômega que são gerados no infinito símbolo do seu útero. O Grande Arquiteto do Universo, sempre esteve dentro de mim. Nessa quimérica fábula, eu sou; eu fui e eu sempre serei a lendária Floresta Negra.