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Crônica Sandra Modesto

CRÔNICA: ALGUMA COISA ACONTECEU NO MEU CORAÇÃO

Quando estive em São Paulo pela primeira vez, eu tinha nove anos. Eu era criança e não entendi muito bem. Meu pai reuniu família e alguns amigos numa Kombi. A gente viajou muitas horas, muita estrada e não fazia calor. A casa dos meus avós paternos. Memorizei e nunca mais esqueci:

Minha avó com os cabelos longos, pele negra, um bando de mulheres cozinhando. Não pude estender meu olhar para a cidade que nem era a minha. Quando percebi conheci garoa.

Quando voltei a São Paulo eu tinha quarenta anos.  A empresa avisou de um curso para assessores de imprensa. Fui sozinha. De avião. Pela primeira vez. E já curtia Rita Lee.

No hotel, eu sozinha. No andar acima muitos profissionais se juntaram por doze horas e o professor paulista, um sotaque estranho aos meus ouvidos percebi São Paulo. À noite fomos pra o bar no anexo do prédio.  Bebemos, rimos e o bar tinha som de barzinho. Recordo um porre, chegando ao quarto do hotel e o porre era meu. Voltei pra minha cidade. Levei um certificado e um bocado de luzes e arranha céus embaralhados nessa minha segunda vez.

A terceira vez que estive em São Paulo eu já entendia Sampa. Minha filha estava morando na cidade e fui visita- lá. Fomos eu, marido e filho. Conhecemos lugares. Avenidas, shows na rua, e da janela do apartamento da minha filha eu vi o céu ensolarado, estávamos em 2019. Eu tinha 58 anos. 

Não sei quando será minha quarta vez. Quem sabe num domingo sem atropelos e sem PSDB.

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Contos Crônica Ulisses Andrade

CARTA AOS MEUS BISNETOS

Olá! Quem vos escreve é seu bisavô. Provavelmente vocês não me conheceram, estou aqui em 2020 escrevendo para lhes contar algumas coisas. Eu também não conheci meus bisavós! E um dos meus avôs morreu antes de eu nascer. Só vi uma foto dele quando eu já tinha completado 45 anos. As coisas eram bem diferentes no passado, não havia muitas fotografias, registros, internet, quase nada em termos de memórias. Alguns tinham televisão, mas nem era o caso dele, talvez. Enfim, vou falar de mim: eu estou levando uma vida de conduta lícita, moral e ética, pensando em vocês. Nossa atualidade é bem interessante e complexa, as comunicações são feitas em tempo real, sabemos o que acontece no mundo todo em alguns minutos. Vivemos tempos difíceis, vemos nosso País ser sucateado, a pobreza aumenta a cada dia (há vários anos seguidos); não vi tempos tão difíceis em toda a minha vida (estou com 50 anos hoje). Falta saúde pública para as pessoas, não se tem amor à vida, ao próximo e a quase nada, a não ser ao dinheiro. A corrupção tomou conta de tudo, todo mundo quer levar vantagem, pobre povo que o faz para perder menos. Existem pessoas em condições subumanas de vida e quase ninguém liga! Pessoas passando necessidades básicas, morrendo em corredores de hospitais à espera de tratamentos. Existe uma classe culpada de tudo isso, ela se chama “políticos”. Mas pasmem, são eleitos por nós mesmos, à custa de falsas promessas. Em sua maioria, quase absoluta, são seres que não devem ter se originado em nossa terra, tratam-se de pessoas sem escrúpulos que roubam a cada dia o sonho da vida, de uma vida mais justa. Embrenham-se em viagens luxuosas com regalias de sheiks. Esbaldam-se em bebidas e comidas importadas, festas, carros extravagantes, mulheres e por ai afora. Banham-se em piscinas com maravilhosas cascatas cristalinas enquanto muitos não têm água potável para beber. O consumismo tomou conta do mundo. Poucos desfilam com altíssimas riquezas e muitos o fazem com suas riquezas falsificadas. Não há ética, desde o gari de rua que cobra propina para levar um material tóxico ao primeiro terreno baldio que encontrar até as grandes empresas que compram as leis e a (des)ordem. É o País da carteirada (forma de se apresentar mostrando algum documento que dê autoridade para se burlar as leis), da famosa frase “você sabe com quem está falando?” e da lei da vantagem. Não importa se alguém será prejudicado, importa em levar vantagem de alguma forma, qualquer que seja. Na minha humildade e simplicidade caminho alternando em usar a mesma calça por dias seguidos e lavá-la somente aos finais de semana. Não é importante. Mas sigo de arma em punho (no caso minha caneta – ou melhor, o teclado do meu computador) lutando por um País melhor. Mesmo que em desvantagem, não abro mão da ética. Nem dos meus valores. Sigo os bons princípios morais a mim ensinados. Estudo algumas horas todos os dias. Sou passado pra trás muitas vezes, mas isso não muda minha trajetória. Prezo o meio ambiente e defendo as minorias. Defendo os animais e toda a forma de vida. Mas somos poucos. A grande maioria fala, mas não age. Como se diz no meu tempo (talvez por ai no futuro ainda restem alguns bordões do passado) “falar até papagaio fala”. Aliás, vou explicar “papagaio”: Uma ave verdinha, muito bacana, domesticada. Vítima de tráfico de animais, provavelmente vocês não a conhecerão, talvez só por fotos, pois vamos destruir quase toda a natureza e as espécies. E sabe por quê? Tudo pelo dinheiro. Já desmatamos grande parte do planeta e acreditem, todos por aqui sabem que necessitamos das árvores para respirar. Temos uma área que é considerada “o pulmão do mundo”, mas aos governos (daqui) não interessam preservá-la. Destruí-la, em nome do progresso é mais rentável. E traz muitos mais votos. Amazônia é como a chamamos, talvez a vejam em mapas aí no tempo de vocês. Provavelmente impressos com papéis vindos dela, serão as últimas lembranças… Afinal, os prédios e as piscinas necessitam de espaço. As churrasqueiras de carvão. E nosso bel prazer de carne, seja ela de qualquer espécie. Um dos motivos para devastar a Amazônia, envergonhado, lhes digo: espaço para criar cada vez maiores rebanhos de gado e continuarmos a carnificina da qual somos orgulhosamente (?) um dos líderes mundiais – a matança cruel, desnecessária e indiscriminada de animais, que padecem dia após dia, até a hora de seu descanso final. Quanto mais rara for a carne, mais cara. Praticamos crueldades com gansos (outra ave que talvez não venham a conhecer) – os engordamos exaustivamente para produzir uma iguaria intitulada de “foie gras”. Uso verbos na primeira pessoa do plural, não porque eu consuma esses produtos, mas porque faço parte dos covardes que apenas são contra. Eu não destruo árvores, pelo contrário, tenho até plantado algumas, mas nada faço para combater a destruição. Sou culpado também. O que posso escrever a vocês é sobre a minha indignação pela nossa incompetência em proteger o mundo que ficará para as futuras gerações. E pedir as mais sinceras desculpas além do perdão de vocês.

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Crônica Victória Mendes

CRÔNICA: QUANTAS VEZES EU AINDA VOU PRECISAR PERDER?

A vida se encarrega de trazer os chacoalhões necessários quando precisamos de mudanças, e note que nem sempre as mudanças são feitas todas juntas. Você sabe quando pode mais, mas ainda sim nega. Negamos o nosso potencial, as nossas responsabilidades e atribuições porque temos medo e somos cercados por uma sociedade medrosa. Quem arrisca é louco e não tem amor às pessoas o que cercam.

E quem disse que isso é o certo?

Quem disse que você precisa continuar assim?

Aquele seu conhecido (note, conhecido, logo, não deveria ter influência alguma em sua vida) crente que fala que os teus pecados vão passar num telão no juízo final, então é preciso temer o que faz?

Aquela pessoa que não pode ver um passo seu a frente que tenta te colocar medo do fracasso?

Aquela pessoa que não suporta teu sorriso e gargalhada, e de qualquer forma tenta te colocar pra baixo?

Foi isso que gerou a pergunta “quantas vezes ainda vou precisar perder”.

Perder o brilho, perder os sonhos, perder a vida. A paz.

Precisei perder anos da minha vida com pessoas que não me agregavam nada ou eram abusivas para entender que eu deixei minha autoestima ser moldada de forma errada, e que me ensinaram a ser permissiva. 

Precisei perder um animal de estimação que amei muito para  entender que não existe sequer uma alma pura de intenção nesse mundo, mesmo os que eu mais amo, e como é duro pensar isso. A visão romantizada das pessoas nos faz acreditar que essas coisas nunca acontecerão com a gente. Mas acontecem.

Precisei perder bens materiais que muito estimava para entender que estava me cercando de lixo para me sentir segura, por causa de privações deixei que me afligissem.

Quais outros chacoalhões vamos precisar esperar para ter uma vida digna?

“O ladrão vem somente para roubar, matar, e para destruir; Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância” (João 10:10).

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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: CICATRIZES

Cicatrizes me fascinam, elas sempre me atraíram, mesmo eu não entendendo o porquê.
Hoje, talvez, eu compreenda um pouco melhor o significado de uma cicatriz, ela representa superação.
Toda a cicatriz carrega uma história consigo, uma história marcante. Às vezes triste, às vezes feliz, mas o final é sempre o mesmo, algum acontecimento forte que deixou uma marca de triunfo.
A cicatriz de uma cesariana, por exemplo, é uma enorme marca de amor.

Uma mulher que permitiu ter sua carne cortada para trazer ao mundo um novo ser, um pedacinho de si, cujo amor será eterno e incondicional.
A marca de uma queimadura representa uma grande dor sofrida, quase insuportável, mas que resultou em sobrevivência. O mesmo acontece com as cicatrizes provenientes de acidentes.
Enfim, a cicatriz está lá, nos fazendo lembrar de que em algum momento de nossas vidas vivemos uma dor, mas ela se curou e não nos permite que a esqueçamos.
As cicatrizes servem para trazer à tona todas as lembranças, as boas e as ruins.
Todos têm alguma cicatriz, de alguma cirurgia, um pequeno incidente doméstico ou um mero arranhão. Ela está lá, superficial ou profunda, clara ou escura e se a observarmos com cuidado, a enxergaremos.
E eu, como grande admiradora das cicatrizes que sempre fui e ainda sou, atrevo-me a dizer que a alma também carrega cicatrizes consigo e que são as mais belas de todas. Depois de grandes lutas, angústias e tristezas, a alma se regenera trazendo uma grande, linda, perfeita e visível cicatriz rasgada nas faces, nosso sorriso.

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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: TOALHA DE MESA

Por que as pessoas cobrem suas mesas com grandes pedaços de tecidos, encobrindo assim toda a beleza de sua mobília?

Normalmente, de fazenda simplória e estampas banais, frutas, legumes ou galinhas; outras lisas, finas, de linho branco; umas vezes já rotas de tão usadas que foram; outras manchadas de macarrão ou pelo tempo que ficaram guardadas em uma gaveta, aguardando o momento ideal para serem usadas. Independente de como estejam, o fim é o mesmo: cobrir a madeira, o ferro, o plástico, a fórmica ou o vidro, preparando-o para receber alguma refeição.

Cobre-se o vidro riscado, a madeira lascada, a ferrugem, a fórmica quebrada e o plástico encardido. Envergonhados de seus defeitos, as pessoas tentam, assim, escondê-los, sem perceber que também escondem seu brilho, seus detalhes mais formosos, escondem sua beleza, sua essência.

Da mesma maneira, vestimos máscaras a todo o tempo, conforme o local em que nos encontramos, ou a companhia que temos no momento. Escondemos nossos sentimentos, nossas frustrações, procuramos disfarçar nossos defeitos e acabamos por camuflar também nossas qualidades e nosso âmago. Por vezes, o fim é o de proteger, para não macular, não machucar, mas ao esconder seus atributos– bons e ruins -, o que o outro verá será simplesmente um pedaço de pano a encobrir tudo e a todos.