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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: AS IRMÃS WILSON

Eu não sabia há quanto tempo a terra entrava dentro de mim; perfurava meus poros, invadia minhas entranhas e comia o miolo de meus olhos. Era terra molhada, rançosa, escura, da cor de chocolate amargo, e havia também pequenos restos de plantas retorcidas, esqueletos de flores.

Eu ainda segurava a mão de pó de minha irmã, ainda permanecia ao seu lado, aspirando nosso odor de morte, nosso eterno odor de morte. Mas olho para ela, e estranho: ela não parece morta. Me pareço muito mais com um cadáver do que ela, e as vezes sinto que à noite, ela levanta de nosso túmulo e sai para dançar na noite fria e iluminada.

Minha irmã sempre gostou de adornar o cabelo com ramos de flores do campo, sempre gostou de vestidos brancos, sempre se deixou queimar pelo sol. Agora que seu corpo não passa de um bando de poeira cinza, suas sardas não são mais perceptíveis, e eu já não vejo a falha de seus dentes da frente.

Ao nosso redor, a única coisa que se escuta agora é o cantar agudo dos vermes. Antigamente, ouvíamos o rádio, e todas aquelas canções bobas que faziam minha irmã rodopiar e girar a saia rodada.

Aqui debaixo da terra não há música, não há luz, não há o som do café da manhã sendo feito. Todos os dias que vivemos evaporaram no calor de um horrível fim de tarde. Nossas esperanças e sonhos foram transformados em monumentos brancos de tristeza, e agora enfeitam o suposto lugar de nosso descanso eterno.

Em nossas lápides os dizeres não dizem nada: “as irmãs Wilson, amadas pelos pais, pelos irmãos, estão protegidas debaixo da asa do Arcanjo Miguel, e descansam agora ao lado de Deus.” 

Choro de raiva, não fomos a lugar nenhum e ainda estamos aqui embaixo. 

Tento decifrar o que a atmosfera me diz, mas não compreendo as razões da morte. Assim como não compreendia as razões da vida, e vivia em uma eterna indagação sobre o mundo, e sobre tudo o que acontecia nele.. Eu acontecia todos os dias, e não me dava conta. Agora, parece que o mundo é um trem que seguiu viagem sem nós. Não sei do que fazemos parte agora, não sei de que tipo de cristal somos feitas, não sei se podemos ver o céu daqui.

Lembro com frequência do dia de Ação de Graças, e da fotografia que o velho Moe tirou de mim e de minha irmã; eu sentada em um monte de feno, ao lado dela, e de um gordo leitão sorridente. Nossas botas estavam com os cadarços desamarrados, e nossos sorrisos estavam inteiros. A fotografia deve estar amarelada, e o gordo leitão provavelmente não faz mais parte do mundo, como nós. 

O passado é uma estrada longa e deserta.

Fecho os olhos e penso no meu rosto; o contorno grosso de minhas sobrancelhas, o traço fino de meus lábios, e o azul de meus olhos parecem agora pertencer à outra pessoa. Penso no rosto de minha irmã, e no de meus pais também. A nitidez de seus traços em minha mente ainda me espanta. Tudo ainda me espanta.

Gostaria de levantar e fazer justiça, mas como ela, estou encerrada debaixo do chão; esse mesmo chão onde o monstro de barba longa caminha tranquilamente. O velho endemoniado que nos matou, passeia pelo vale como se tivesse matado formigas, e não mulheres. Meninas por dentro de corpos esguios e bem formados, meninas na mente, meninas por dentro, meninas que derramavam lágrimas salgadas à beira dos portões do paraíso.

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CONTO: COR DE SOLIDÃO

Ninguém imagina que algo importante possa acontecer numa quinta-feira. Velórios, suicídios, batizados, casamentos, são coisas relevantes demais para pertencerem à um mero resto de semana. Todo mundo sabe que sábados são feitos para comemorar aniversários, e domingos, para lamentarmos a morte daquele tio doente, que ninguém nem lembrava mais que ainda estava vivo.

Mas não às quintas-feiras!

Eu estava acordada, naquela madrugada, quando ouvi o som estridente da ambulância perfurar o silêncio profundo daquelas horas. Em minha defesa, eu estava com insônia – e não cuidando da vida da vizinha! Sabem, eu sou uma solteirona, mas também tenho vida!

Bem, está certo, talvez eu também estivesse prestando um pouco de atenção em Hanna, a vizinha, mas eu não era a única! Todo mundo prestava atenção em Hanna, em seu longo cabelo loiro, em seu sorriso aberto, descarado, em seus olhos cor de solidão. Hanna sustentava uma perfeição milagrosamente imperfeita. E nós, moradores veteranos da vizinhança, quase nada sabíamos sobre sua vida. Exceto, que ela era meio francesa, e vivia sozinha. Sua casa era a última da rua; modesta, de tijolinhos vermelhos, ficava exatamente em frente à minha.

Hanna era um sopro de vida entre nós, e ainda que fosse bastante calada, era generosa com seus sorrisos. Via-se que bebia pouco café; os dentes imaculadamente brancos, eram um pouco tortos, mas ela parecia não se importar. 

Ela gostava de conversar com o carteiro, que com frequência lhe levava a correspondência antes de passar pelo resto da vizinhança. É claro, ele também havia sido enfeitiçado por aquela medusa nórdica. Assim como o Sr. Melvin, da casa 3. Um professor tarado que devia ver em Hanna a garotinha que ela havia sido um dia. Ah, e havia também o veterano de guerra, Hoffmann, que mesmo sem um dos braços, sempre se esgueirava e apertava sua bunda quando a via. E Nora, sua esposa, que fervia de raiva quando pegava as travessuras do marido. E, não posso me esquecer do dono da casa que ela alugava, Sr. Martin. Todos apaixonados. 

Na boca miúda, especulávamos sobre seu passado: uma enfermeira, aeromoça, aristocrata rebelde, espiã? Em nossa imaginação, Hanna havia salvado soldados nas trincheiras, inventado a cura de doenças, cruzado o Atlântico a nado. Porém, na realidade, ela chorava antes de dormir, todas as noites. 

Eu a via por minha janela, dia após dia, e por isso já a considerava uma espécie de amiga. Estava fascinada. 

Eu dizia que estava acordada quando ouvi as sirenes de ambulância. Estava preocupada desde as primeiras horas da manhã, ao notar que uma quietude estranha pairava sobre a casa de Hanna. Não a tinha visto se levantar para tomar café, e nem arrumar a cama. De repente, depois do almoço, ouvi vozes alteradas vindo de lá. Então, corri para a janela, e vi um vulto deixando a casa de Hanna. Ele saiu pela porta dos fundos, e desapareceu no quintal do lado oposto ao meu. Hanna subiu de volta para o quarto, e atirou o abajur no espelho da penteadeira. Eu o vi explodir em milhares de pedacinhos, como diamantes voando no ar, estrelas cadentes se desprendendo do firmamento. Tremendo, ela se abaixou e pegou um dos cacos do chão. E, para minha surpresa, aproximou-se da janela, e olhou diretamente para mim. Um pedido de socorro, pensei. Mas, antes que eu pudesse pensar em algo, ela fechou as cortinas, e eu me senti uma invasora descarada de privacidade.

Muitas horas depois, os paramédicos arrombaram a porta da casinha de tijolos, e a invadiram sem piedade. Havia algo de brutal naquele resgate, algo de extrema violência sobre a atmosfera mítica que pairava ao redor de Hanna. 

Ansiosa, de pé na janela, vi quando os mesmos homens de antes voltaram empurrando uma maca. Deixei escapar um grito de pavor, e não consegui conter meu pranto. A conclusão da perícia foi suicídio. Hanna foi encontrada nua na banheira, com os pulsos cortados. 

O amargor daquele evento foi tão grande para mim, que decidi me mudar. Simplesmente era muito doloroso, olhar para a sala azulada, o quartinho rosa, a caixa de correio de Hanna, e não a ver! Em um mês, arranjei outra casa, a dez quilômetros dali. 

Eu ainda pensava em Hanna todos os dias, mesmo que os vizinhos tivessem começado a esquecê-la.

Antes de ir, pensei em me despedir. Fui até sua casa, e toquei a campainha. O Sr. Martin abriu depois de um tempo, e me convidou para entrar. 

Era tudo tão estranho, como estar dentro de um programa de TV! A casa de Hanna ainda estava ali, decorada à sua maneira, com seus móveis, suas coisas. Sentei-me no sofá, enquanto Martin foi até a cozinha buscar chá para nós. Olhei para minha janela, e vista de longe, minha casa não parecia minha, e a sensação de estranheza aumentou. 

Ao voltar com nosso chá, Martin e eu jogamos uma desconfortável conversa fora. “Ela era uma ótima inquilina”, e “Sempre amável com todos.” Em pouco tempo, aquele papo nos cansou, e eu pedi para ir até seu quarto. Martin estranhou meu pedido, mas não se pôs em meu caminho. Sentindo fortemente a presença de Hanna, algo me guiou até lá. 

A singeleza do quarto me comoveu. Parecia o quarto de uma garotinha. Aos pés da cama, os restos do espelho quebrado ainda estavam lá, espalhados por toda parte refletindo o fim de Hanna. Abaixei-me e peguei um caco pontiagudo. Antes que eu me cortasse sem querer, o larguei. Mas, ao ficar de pé, vi o contorno luminescente de Hanna aparecer em cada pedacinho de espelho. Senti um forte arrepio, e uma vertigem. Sem conseguir lidar mais com aquilo, murmurei “adeus”, e deixei a casa. 

Hoje, os ecos daquela terrível quinta-feira ainda são ouvidos dentro de mim, mesmo após vinte e cinco anos. Nunca mais tive notícias de mais ninguém daquela vizinhança. Provavelmente, estão todos mortos, ou beirando os noventa anos. Sim, eu sei que estou acabada também, e que posso não me lembrar onde guardei minhas chaves, ou se tomei meu remédio, mas lembro de Hanna. Perfeitamente. Lembro de sua distante meiguice, e de seu esdrúxulo fim. Até hoje, sonho com os cacos do espelho refletindo a face de Hanna. E a face, envolta pelas brumas do meu inconsciente, mexe a boca e fala algo que não consigo ouvir. Um nome, uma acusação!

Hanna, você se calou para sempre? Oh, se eu não fosse tão velha, e tão covarde, eu poderia confessar que, na verdade, eu a matei, em um surto que não sou capaz de explicar. Me perdoe, e não me persiga mais! Há duas formas de contar uma história: falsamente e mais falsamente. Quem poderia dizer…?

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CONTO: PINTURA DE GUERRA

De: Lorrayne Saraiva

Olhei apavorada para o filete de sangue que escorria fino, como uma minhoca, pelo chão de azulejo branco e maculado do banheiro. Depois, não mais estava apavorada; era a vida, pensei resignada, quase estóica. Mulheres menstruam desde o início dos tempos, e continuarão a menstruar até que façam algo com o avanço da ciência, para reprimir seus hormônios.

Mas ainda havia algo de novo, desconcertante, e inegavelmente sedutor, na primeira marca de sangue que deixei em minha calcinha. A calcinha em questão era de algodão rosa, com uns babadinhos rentes a costura. Não era, em definitivo, uma calcinha madura para receber minha primeira menstruação, pensei aborrecida. Deveria ter acontecido em uma calcinha roxa, modelo fio dental, ou pelo menos de renda negra.

Desde que havia acontecido; o sangue, a dor fina e rasgante ao pé da barriga, o susto, a aceitação, eu escorregara para o chão do banheiro, permanecendo lá por horas. Sem razão, pensei em minha mãe: o avental alaranjado ruído de traças que ela usava no preparo de bolos, e as broncas que ela me dava por colocar o dedo sujo na massa. As botas militares de papai, e seu cinto de couro marrom, que tantas vezes – naquela semana mesmo -, marcou-me a parte interna das pernas, e lombar, por eu ter sido uma menina levada além da conta. O cheiro de chiclete de menta que saía da boca de Billy, toda vez que eu o beijava. Meu quarto e meus pôsteres de astros de cinema na parede. Os passeios semanais com Dolly, e a tonelada de milkshake de morango que consumíamos. Tudo, até então, parecia normal, nos conformes. E como eu já disse, todas as mulheres menstruam, é da natureza! Então por que, mesmo sabendo de tudo isso, para mim, aquele sangue ainda era tão assustador e grotesco como se tivesse vindo da cabeça de alguém assassinado?!

Olhei novamente para o centro de minhas pernas e com novo espanto, analisei uma pequena poça rúbea que havia se formado debaixo de mim. Parecia lama vermelha. Parecia uma cena inimaginável, como E.T.s dançando o foxtrote. Meu corpo estava produzindo sensações contraditórias, e eu me sentia em ebulição, como uma garrafa de refrigerante prestes a explodir. 

Desejei contar à Billy. Contar com os mínimos detalhes cada aspecto daquela nojeira avermelhada. Ele diria que estou inventando, e que provavelmente vi a cena em algum filme de terror. Depois diria que meninas não menstruam assim, com aquela cara de debochado, revirando os olhos. Dei um murro no azulejo de tanta raiva que fiquei de Billy, e de todos os homens que acham que entendem os mecanismos femininos!

Então, pensei em me abrir com Dolly. Dolly era mulher, entenderia. Mas pensando bem… Dolly ainda não tinha menstruado – porque aí eu saberia – e ficaria com inveja da minha nova condição.

Raios, eu teria que guardar aquele acontecimento só pra mim!

Levantei do chão, e em pé, olhei para a pequena poça carmesim.

Caminhei até o espelho, e dei de encontro com meu novo eu. Não parecia nada diferente, constatei desanimada. Eu ainda era a mesma garota franzina e amarela, exceto por… Com o dedo, toquei parte do sangue que ainda cintilava líquido em mim, e fiz duas marquinhas nas bochechas, como uma pintura de guerra. 

Minha barriga, coxas e joelhos também estavam manchados de sangue, mas julguei a cena toda tão poética que, não tive coragem de entrar no banho. Quis ficar suja de mim por mais tempo. No final das contas, aquele foi meu mais sagrado e íntimo momento antes da guerra começar.


“Assim posto, devaneando,
         Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
         Sentia o olhar que me abrazava.
      Conjecturando fui, tranquillo, a gosto,
      Com a cabeça no macio encosto

Onde os raios da lampada cahiam

         Onde as tranças angelieaes

De outra cabeça outr’ora alli se desparziam,

         E agora não se esparzem mais.”

O Corvo – Edgar Allan Poe