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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: O DESTINO NA XÍCARA DE CHÁ

A cortina branca, o brilho claro de mais uma manhã nublada. Alice abre os olhos, e espera. Espera por uma brisa fresca, espera ouvir o som de passos, espera o ruído de preparação do café da manhã, ou do jornal matinal. Espera, espera e espera.

Particularmente, naquela manhã, antes de abrir os olhos, lembrou-se de uma tarde, vivida há muito tempo. E a força daquela lembrança a fez ver estrelas; uma infinita explosão sensorial debaixo de sua pálpebra, como uma chuva de partículas daquele passado tão… distante.

Sim, ela se lembrou da agitação das pessoas pelas ruas, o som da banda, o riso agudo das crianças e o aroma das frutas frescas. Alice adorava passear por aquela feira, comer algodão doce, cair na risada sem motivo… Fazia quanto tempo? A cigana, as cartas do tarot, a xícara de chá…

Como se emergisse do fundo de uma piscina, ela o ouviu chegando. Os passos, o tilintar de talheres, o rangido da porta abrindo. O perfil de Alain se delineou ante o negrume do corredor, e ao ver Alice desperta, sorriu. Trazia uma bandeja de café da manhã, que acomodou na cama, perto dela. Ele afofou seus travesseiros, perguntou se ela gostaria de ver TV, e em seguida, abriu as cortinas do quarto. A forte luz incomodou a vista dela, e com um muxoxo, ela virou a cabeça para o canto mal iluminado.

Com paciência, ele tirou seu pijama, e lhe vestiu algo leve, primaveril. Como uma boneca, estirada na cama, Alice deixava ele fazer o que bem entendesse com seu corpo paralisado. Depois, ele sentava ao seu lado, e lhe dava o café da manhã, na boca. Seis colheradas de mingau de aveia, chá e mamão com açúcar, seu preferido. Após esse ritual, repetido todas as manhãs, ele saía para o trabalho, e só voltava no fim da tarde.

E durante todo esse tempo, Alice ficava sozinha.

Perto da barraquinha de amendoins torrados, uma enorme tenda de tecido roxo chamava a atenção. Segurando seu algodão doce, Alice entrou na tenda. Poeira e bruma de incenso flutuavam pelo ar, e de repente, o ruído da feira lá fora pareceu desaparecer. Haviam cartas de tarot pelo chão, e muitas almofadas espalhadas. Todo o ambiente parecia um pouco caótico.

Por trás de uma cortina de miçangas, surgiu uma cigana. Nem velha, nem nova. Era nítido que usava uma peruca vagabunda, mas seus enormes olhos verdes pareciam naturais. Alice demonstrou entusiasmo, e a mulher aprovou. Puxou-a pelo braço, e a sentou diante de uma bola de cristal. Ansiosa, Alice devorava o algodão doce, enquanto a cigana se esforçava para ver um vislumbre do futuro. Ao cabo de alguns minutos desistiu da bola de cristal, e ofertou para a menina uma xícara de chá, pedindo para que assim que ela terminasse, lhe entregasse de volta para que ela pudesse ver seu futuro, nas folhas de chá do fundo.

Ao beber a última gota, Alice lhe entregou a xícara. Suas mãos formigavam de ansiedade, suas coxas suavam. A cigana fez um enorme esforço para desvendar a mística pose das folhas, e bem quando Alice deu sinais de querer ir embora, a cigana levantou o dedo, e anunciou: “Cuidado com as ironias da vida. Elas se disfarçam de golpe de sorte.”

Ao sair da tenda mágica, ainda desnorteada, Alice esbarrou em um jovem. Envergonhada por sua distração, desculpou-se e apressou o passo. No entanto, discretamente, o rapaz a seguiu. Alice saiu da ruela onde estava acontecendo a feira, e na esquina comprou um bouquet de flores do campo. Seguiu caminhando até o final dessa nova rua, e desapareceu em um hospital.

Duas horas depois, ao deixar o hospital, deu de cara com o jovem do esbarrão. Intrigada, e um pouco envaidecida, ela perguntou o que ele fazia ali. Ele alegou que ela não havia se apresentado, e que ele era Alain.

Alice comentou que viera fazer sua visita semanal ao seu avô, internado há meses. Alain demonstrou uma preocupação exagerada, mas rapidamente a moça o tranquilizou, afirmando que o quadro do avô era estável.

– – Aceitaria tomar um café comigo? Conheço um lugar ótimo por aqui…

Alice aceitou, e em seguida, o flerte aconteceu naturalmente.

Alain sorria, acrescentando bastante leite em seu café, enquanto a luz poente delineava o topo de sua cabeça, e seus cachos loiros pareciam um halo iluminado. Alice sorria também, as covinhas aparecendo, os joelhos se tocando por baixo da mesa.

– – Outro café, por gentileza! – – ela pediu.

– – Mais um café, por favor! – – ele acrescentou, uma hora depois.

“Qual seu livro preferido? Você viu o último filme daquele ator? Qual o nome dele? Aquele ruivo… Qual seu signo? Você acredita nessas coisas? Nem eu… Qual sua viagem dos sonhos? Você tem animal de estimação? Mora com seus pais? E sua bebida preferida? Tem tatuagem? Tem irmãos? Prefere praia ou montanha?”

Gentilmente, ele estendeu a mão até o braço dela. Alice sentiu os pelos se arrepiarem.

“Qual seu pior pesadelo?”

Alice não respondeu a maioria das perguntas, apenas sorriu, encabulada. Alain, se encantou por seu frescor natural, as cores vivas de seu vestido, o aroma doce que vinha de seus cachos rebeldes; tudo nela, começou a inebria-lo.

– – Vamos continuar essa conversa? – – ele perguntou. – – lá em casa? – – acrescentou, tímido.

Sem perder o encanto, Alice recusou. Alain não insistiu, apesar da louca vontade de toca-la, de poder senti-la. Ele implorou por seu telefone, e em um primeiro momento, ela hesitou. Depois cedeu, e escreveu os números na palma da mão dele.

Despediram-se em frente ao Café, e enquanto Alice se afastava pela calçada, Alain sentiu o sangue latejar nos ouvidos, e o coração bater mais forte.

– – Alô?

– – Alice? É Alain… O cara da feira, da cafeteria…

À princípio, a ligação manteve aquele tom desconfortável de uma primeira conversa. Mas logo relaxaram, e combinaram um novo encontro, um restaurante à beira-mar, às nove.

Alain chegou antes, pegou a mesa que havia reservado, e tentou manter-se calmo. A luz da lua sobre as ondas o acalmou, e ele relaxou em saber que estava tão perto da tranquilidade do oceano.

Seria o primeiro encontro oficial depois do furacão Nicole. Só de lembrar do seu nome, daqueles sete longos anos… ele sentia uma náusea mortal. Fechava os olhos e conseguia ver nitidamente o rosto pálido, o nariz aquilino, os profundos olhos negros da ex. Um rosto belo, mas que não o enfeitiçava mais. Tão diferente da pele bronzeada, da vida, da luz, das bochechas e sardas de Alice!

Então, ela chegou. O vestido preto curto que usava realçava as pernas bronzeadas, e os cachos castanhos estavam penteados em um coque no alto da cabeça.

Alice Condoïselle. Alain Guillauge. As mãos se tocaram, e uma corrente elétrica percorreu ambos. À medida que a garrafa de vinho chegava ao fim, eles sentiam-se mais próximos, íntimos, amigos de longa data. Pediram lagosta e ostras frescas. O sabor da comida, a maresia, e o perfume de Alice enfeitiçaram Alain, completamente.

Quando o garçom chegou com a conta, eles pagaram às pressas, e rumaram, excitados e felizes para o apartamento de Alain.

Com a proximidade da boca dele, o cheiro forte de vinho funcionava como um tipo estranho de afrodisíaco. Bêbado, Alain não era exatamente “sexy”, mas a quentura dos seus lábios, o odor familiar do seu hálito, acendia em Alice uma chama teimosa. Uma vontade de estar sem roupa, e sem pele.

Fizeram amor no tapete da sala de estar. Um tapete branco, imaculado, assim como as paredes e toda a decoração. Seria ele um perfeccionista? Teria TOC? Alice se lembrou da desordem do próprio apartamento, e corou.

Costas nuas, suor, risos, mais vinho. A luz fraca de um abajur mal os alcançava. O mundo estava desfocado, eles gargalhavam o tempo inteiro, estavam em uma bolha particular de uma paixão novinha em folha, até que uma pergunta quebrou a atmosfera harmônica.

“Qual o seu pior pesadelo?”

Alice não respondeu, em vez disso, levantou do tapete em busca de um copo d’água. Abriu a geladeira, abriu o armário da cozinha à procura de copos, e por fim os encontrou na bancada. O tempo inteiro, sentia o olhar de Alain em suas costas. Não havia sido a pergunta, mas o tom da pergunta…

– – Ei, volte pra cá…

Em um instante de lucidez, Alice cogitou ir embora. Sim, Alain era atraente, eles já haviam transado, mas ele ainda era um estranho. Ela ainda estava na casa de um estranho.

Como se percebesse sua hesitação, Alain se levantou e foi até ela. Seu corpo quente a envolveu. Ela largou o copo d’água e resolveu ignorar seus receios.

Quando o dia seguinte chegou, eles já eram um par. A Alice do Alain, o Alain da Alice. As transas na cozinha, no sofá, no quarto, não eram mais apenas tesão recente. Os programas em casal começaram a se tornar frequentes: cinema, pique-nique no parque, jantar romântico. O apartamento de Alain, que a primeira vista assustou Alice, agora era o ninho de amor do casal. Não sentiam vontade de se largarem. E para que se largariam?

Três meses após o primeiro encontro, Alain resolveu arriscar um novo passo. Ele estava cozinhando o almoço, enquanto Alice estava esparramada no sofá, lendo.

– – Escuta, meus pais virão à cidade mês que vem. Todo mês almoçamos juntos, e bem, eu estava pensando… gostaria de almoçar conosco? Acho que eles ficariam felizes em conhecer você… a minha… namorada.

Após lançar essa pergunta, Alain corou fortemente.

– – Eu sou sua namorada? – – fez Alice, levantando do sofá e indo até ele. Enlaçou sua cintura, e se aproximou de seus lábios, dizendo: – – se sou sua namorada, tenho que ir…

Emmanuel e Beatrice, os pais de Alain, eram um casal deveras asseado e educado. Ambos vestiam branco, usavam acessórios discretos e falavam extremamente baixo. À princípio, intimidaram Alice, que de limpa e organizada não tinha nada, mas eles acabaram aprovando um ao outro.

– – Tem certeza que ela é a menina para você, meu bem? – – perguntou Beatrice, em um sussurro para o filho, aproveitando que Alice havia ido ao banheiro.

Estavam no restaurante mais caro do bairro, onde o piso de mármore mais parecia um espelho, e o lustre devia ter sido trazido do Palácio de Versailles. A escolha do lugar, é claro, tinha sido escolha dos pais de Alain.

– – Tenho, mãe. Eu gosto dela. Acho que ela é sim a garota para mim.

Após o encontro com seus pais, Alain sentiu que Alice havia mudado. Nos dias seguintes, ela parecia distraída, meio calada.

– – Está tudo bem?

– – Sim. – – ela respondeu, baixinho.

– – Não parece! Ele replicou, impaciente. Me fala, droga! Odeio esse jogo de adivinhação! O que foi que eu fiz?

– – Nada, Alain! Você não fez nada. – – Ela respondeu, se afastando sutilmente de sua energia raivosa. O tom de voz exasperado que ele usou a surpreendeu por completo. Parecia um tanto quanto exagerado. – – É que eu acho que vi o quanto somos diferentes, é só isso.

– – O que você quer dizer? – – Alain parecia verdadeiramente confuso.

– – Alain, pelo amor de Deus! Não é possível que você não tenha percebido! Nesse exato momento você está vestindo uma camisa Lacoste, e meu vestido é de algodão barato e ainda tem um furo! – – suspirou. – – somos de mundos diferentes.

– – Está me dizendo que é uma questão de classe? – – sua voz se abrandou e ele relaxou. – – Alice, não me importa que você tenha uma fortuna ou um barraco! Não me preocupo com o quanto você ganha, mas com o quanto você gosta de mim!

Alice sorriu, e ele acariciou seu rosto.

– – Eu nunca vou te deixar, Alice. Eu prometo.

No embalo daquela madrugada, Alice não conseguia dormir. No negrume do quarto, não conseguia ver se Alain dormia ou não. Sentia-se sufocada, engolfada por uma angústia enorme.

De repente ficou difícil de respirar, e ela correu para o banheiro.

No luxuoso banheiro, ela sentou na beira da hidromassagem, e tentou acalmar a respiração. Só aquele banheiro era maior do que o seu apartamento, e pensar sobre isso a deixou mais nervosa ainda.

– – Alice? – – Alain bateu na porta. – – Alice, você está bem?

Alice abriu a porta, e sem que ele entendesse, o abraçou muito forte.

– – Meu bem, o que está acontecendo…?

Ainda com o rosto enfiado em seu ombro, ela balbuciou:

– – Há coisas que eu preciso contar.

Já era quase seis da manhã quando terminaram de conversar. A terna luz da aurora já corria pela persiana quando eles sentiram o corpo amolecer de sono e exaustão.

– – Nunca tive nada, e já passei fome. – – Ela confessou, sem olhar para ele. – – Quando eu era bem criança, via minha mãe em vários trabalhos, sem mal conseguir alimentar a mim e ao meu irmão. Não era raro ela deixar de comer pra nos alimentar, ou deixar de comprar um casaco, para nos comprar um cobertor. Um cobertor era tudo o que tínhamos no inverno, e uma poça de água gelada era tudo o que tínhamos no verão. Meu pai nunca existiu. Pelo menos, eu nunca o vi, e ninguém nunca falou dele. Na casa ao lado, morava um velho do qual gostávamos muito, e que em pouco tempo, nós começamos a chamar de avô. Ele ajudou a cuidar de nós enquanto mamãe saía para tentar fazer grana. Você sabe, ele está internado hoje em dia, câncer de próstata. Há alguns anos, meu irmão faleceu, mas eu não quero falar sobre isso. Quando eu cresci mais, comecei a me virar, servindo mesas, passeando com cachorros, essas coisas. Mamãe não aguentou a pressão e fugiu com um sujeito barbudo, que eu não sei nem o nome. – – Concluiu, sem jeito: – – bem, é isso. Precisei contar tudo isso, pois quero que você entenda minha dificuldade em me sentir à vontade aqui, usando um fogão que custa o mesmo que um carro, e dormindo em uma cama de colchão holandês sob medida.

– – É que eu tenho problema de coluna. – – Alain comentou, brincando. – – obrigado por ter dividido isso comigo. Obrigado por dividir comigo, todos os dias, a sua vida.

Alice secou rapidamente uma lágrima que escapou.

– – Sinto muito por todo o aperto que você passou, querida. Sinto mesmo. Mas essa é sua vida agora, ok?

Eles não fizeram amor, mas adormeceram, nos braços um do outro, quando o dia raiou.

Alice estava na sala, quando Alain chegou esbaforido do trabalho.

– – Misericórdia, quase uma hora preso naquele maldito engarrafamento! – – ele guinchou, arrancando a gravata, e atirando os sapatos no tapete felpudo.

Alice deixou de lado a revista que lia, e se aproximou para beija-lo.

– – Senti sua falta, meu bem. – – ele sussurrou em seu ouvido. – – que tal uma noite especial, hãn? Tem um vinho importado na adega, e eu posso cozinhar algo bem bacana para nós…

– – Meu querido, já passamos todas as noites juntos… Essa noite eu pensei em ver minhas amigas.

Alice deu um passo para trás quando a fisionomia de Alain passou de apaixonada para contrariada.

– – Amigas? Que amigas? Eu pensei que você queria ficar comigo! Eu planejei uma noite romântica e…

– – Alain, não tem nada de errado eu querer rever minhas amigas. Eu tenho estado enfurnada aqui, nesse apartamento com você, há meses. Não faço outra coisa a não ser te esperar, estar com você, viver pra você! Até meu emprego eu larguei!

– – Emprego? Que emprego? Chama aquele cargo ridículo de emprego? Você servia mesa, pelo amor de Deus!

O olhar de Alice se estreitou, e seu semblante se fechou.

– – Não desmereça meu trabalho, e nem meu estilo de vida. Só porque eu não ganho milhões como você, não quer dizer que eu não tenha vida e dignidade!

– – Eu estou te dando uma vida! Eu estou te dando do bom e do melhor! Olhe pra você! Quando eu esbarrei contigo, naquela feira, você era apenas uma caipira! Olhe pra você, agora! Unhas feitas, roupa de marca, cabelo impecável…! Se não fosse por mim você ainda estaria naquela vida miserável! E tudo o que eu peço é um pouco de atenção e dedicação de sua parte!

Alice abriu a boca para falar, mas não foi capaz de exprimir nenhuma palavra. Em seu peito, um ódio quente borbulhava, e ela sentiu o nó dos dedos se apertarem.

– – Vamos, esqueça essa briga, meu bem! Que tal um banho juntos?

Alice serrou os dentes, e concordou.

Todas as noites, depois que eles faziam amor vigorosamente, Alain virava para o lado e imergia em um sono pesadíssimo, enquanto Alice permanecia com os olhos arregalados, olhando para o teto.

Pensamentos dolorosos, recordações de um parco passado, de inúmeras provações, lhe deixavam aflita. Ainda parecia inacreditável que agora ela dormia em um jogo de cama de seda pura, almoçando salmão e usando jóias.

Na escuridão da madrugada, o brilho da rua se projetava pela persiana semi aberta, delineando o perfil adormecido de Alain. Ela o amava? Não. Mas não deixava de gostar sim, de sua pessoa. Havia o medo de partir e de perder aquela nova vida de privilégios, e de ficar e não ter nenhuma vida.

Se ela tivesse que aguentar demonstrações machistas e possessivas para continuar a vestir grifes italianas, então ela aguentaria.

Contudo, ela não aguentou. E o ápice de seu dilema foi quando Alain apareceu em casa com duas passagens para a Grécia.

Ao ver os bilhetes, Alice pulou em cima de Alain, beijando-o e gritando de felicidade, esquecendo imediatamente o inferno que ele fazia em sua vida. Ela nunca havia entrado em um avião, sequer estado em um aeroporto.

– – Uma semana de descanso em Míkonos, hãm? Infelizmente não posso demorar mais, agora que sou o novo sócio da firma… – – Vamos, faça suas malas!

Sobrevoando a costa de água cristalina, Alice não conteve a emoção. Fechou os olhos, e lembrou-se da esteira de palha que sua mãe havia posto em casa, a fim de que não pisassem diretamente no chão de barro. Ela ainda podia sentir o ruído de fome no estômago, o eterno frio nos ossos, o tédio de incontáveis horas brincando com uma boneca sem braço e sem perna. A miséria ainda andava com ela. Estava em sua cola. Um descuido, apenas um descuido, e ela poderia cair de novo no buraco da fome.

– – Meu bem, – – fez Alain. – – para você.

Alice pegou um embrulho de veludo escuro, e o abriu. Dentro de um estojo, ela se deparou com um colar estupendo de águas-marinhas.

– – Pensei que você poderia usar na nossa primeira noite grega.

O jantar à luz de velas, defronte para um mar iluminado por uma lua cheia, foi incomparável. Alain havia reservado um espaço separado no restaurante. Privado, apenas para os dois.

“Ele não mede esforços para me afastar do mundo”, Alice pensou, enquanto mastigava ostras frescas. Após a sobremesa, retornaram para o luxuoso Resort onde estavam hospedados, e contra sua vontade, Alice fez amor.

Outra madrugada insone. Dessa vez, diante de um oceano novo. Na sacada, próximo das duas da manhã, ela acendeu um cigarro. O brilho da pequena chama em seus lábios era a única claridade da noite, já que a lua havia se escondido por trás de pesadas nuvens. Ela olhou para dentro do quarto, e acompanhou o tórax de Alain descendo e subindo em sua respiração, com seus ruídos.

“Qual o seu pior pesadelo?”

Alice lembrou-se da pergunta que ele tanto lhe impusera, há alguns meses, e respondeu para si mesma: isso.

Às onze, depois de um café da manhã reforçado, e um jogo de tênis que, obviamente, Alice perdera, chegaram à praia, em frente ao Resort.

Alice mergulhou os pés na água, e inclinou a cabeça para trás, deixando o calor do sol queimar seu rosto. Alain estava mais distante, na areia, protegido por um enorme guarda-sol. Mas, mesmo àquela pequena distância, ele a vigiava.

Depois de mergulhar, Alice se afastou até uma barraquinha na areia que vendia picolés.

– – Um de uva, por favor.

As sardas, o biquini azul colado, as madeixas molhadas colando nas costas, não foram indiferentes aos olhos do vendedor.

– – Tenho apenas de maracujá, pode ser?

Alice concordou, e ele lhe entregou o sorvete na mesma hora que ela entregou o dinheiro, e os dois riram.

– – Combinadinho! – – ela se apressou em dizer. – – Só mesmo um picolé para deixar esse paraíso perfeito!

– – Você não é daqui?

– – Que nada! Eu sou uma caipira!

Cinco minutos depois, ela voltou para debaixo da barraca de Alain, sorridente e com metade do picolé.

Antes mesmo que pudesse dizer alguma coisa, caiu de cara na areia, com a força do tapa inesperado que ele lhe deu.

– – Pensa que eu não vi? Eu vi perfeitamente! Você flertando com aquele Zé Ninguém! Você está comigo, vadia! Comigo, e mais ninguém, entendeu!?

Sem conseguir responder, ou mesmo olhar para ele, Alice segurava um pano com gelo no lado esquerdo do rosto, sem conseguir acreditar na ironia de sua sorte, seu destino visto na xícara de chá.

O resto da viagem correu nos mesmos termos: restaurantes caríssimos, tapas, jóias, transas não consensuais, lágrimas, insônia e mar.

Enquanto retornavam, algo acendeu dentro de Alice. Uma fúria, uma indignação, algo que ela sabia que não seria passageiro, tampouco controlável. Ali mesmo, no jatinho particular de volta pra casa, ela decidiu o que iria fazer.

– – Quantos gramas será necessário?

– – Difícil dizer. – – respondeu o homem atarracado, atrás do balcão. – – extrato de tetrodotoxina é uma substância pouco conhecida ainda. Dependendo da quantidade pode matar ou paralisar. É caso de sorte. – – acrescentou com um risinho estranho: – – ou melhor dizendo, de azar.

Alice saiu do armazém clandestino às pressas, Alain chegaria em casa em menos de vinte minutos.

Quando ele chegou, atirando gravata e sapato para todo lado, ouviu Alice cantarolando na sala de jantar.

– – Minha nossa, você deve estar de bom humor! – – ele gracejou, abraçando-a pela cintura.

– – É claro! Hoje faz um ano desde que nos esbarramos na saída daquela feira, lembra? Pensei que era a ocasião de comemorarmos!

Não era a data exata, claro, mas Alice pensou que ele não se lembraria. E de fato, a constatar por seus olhos brilhando de felicidade, ele não se lembrava.

Jantaram filé mignon, legumes e sopa de cogumelos. Alain comia com prazer, e de tempos em tempos, lhe acariciava a mão, demonstrando gratidão e ternura. Por dentro, Alice explodia em nervosismo, mas sua voz não delatou nada quando ela perguntou:

– – Gostaria de um pouco de vinho branco?

– – Eu adoraria. – – ele respondeu, com um sorriso.

Uma vez sozinha na bancada da cozinha, Alice puxou do bolso da calça um saquinho plástico com o extrato de tetrodotoxina. Com os dedos trêmulos, despejou tudo na taça que serviria à Alain. Suando frio, retornou para a sala de jantar.

Já era quase sete da noite, quando Alain bateu na porta do quarto de Alice. Na televisão, um programa sobre pesca submarina mostrava à seus telespectadores como funcionava a rotina de alguns animais marinhos:

“Ocorre também na pele de salamandras aquáticas, bodião, sapo Atelopus, determinados polvos, estrela-do-mar, anjo-do-mar, porco-espinho e caranguejo xantídeo. Nenhuma alga foi identificada como responsável por essa produção e até recentemente a tetrodotoxina foi considerada como um produto metabólico do hospedeiro, cuja substância é capaz de matar, ou mesmo provocar em sua vítima uma paraplegia sem reversão.”

Lágrimas rolaram pelo rosto de Alice, enquanto Alain lhe presenteava com mais um estojo de jóias.

– Eu lhe disse, meu bem, eu nunca vou deixa-la.

Fim.

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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: OS FANTASMAS DE ELVIRA

Elvira acordou, abriu devagar os grandes olhos escuros acetinados – como seu penhoar pendurado na maçaneta da porta – e erguendo seu alquebrado corpo pela incômoda noite de sono, pisou os pés velhos no chão. Joanetes e unha encravada tocando o porcelanato frio, trouxeram um suave arrepio pelo seu corpo.

Quem era Elvira? Por que isso importa? A própria dizia que não era ninguém. “Alguém que ficou para trás”, afirmava lamuriosa. Quase não saía mais, salvo as idas ao mercado popular às segundas, pela manhã. Parou de encontrar-se com suas amigas, e em dias mais pestilentos, nem sequer abria as cortinas.

“Os fantasmas”, dizia ela em voz alta para ninguém, “os fantasmas me tomam muito tempo.” Olhava para a sala de estar e balançava a cabeça. “Eles me cansam”, reclamava para o vazio.

Toda vez que ia preparar para si um bom assado, ou mesmo um relaxante banho de banheira, era observada e vigiada por eles – os fantasmas. Ficava louca! Aborrecida, arremessava vasos de porcelana na parede. Dias e dias se passavam até que ela tivesse a disposição de varrer os cacos. “Tudo culpa de vocês!” Praguejava no auge de sua irritação.

As vezes, chorava. E para cada lagrima derramada, havia um fantasma para lhe trazer o consolo. “Não quero falar com vocês”, dizia dengosa, mas depois já estava usando o corpo translúcido de um deles como lenço. 

Naquela manhã específica, estranhou a quietude e serenidade da casa. Nenhum fantasma cantarolava, dançava, ou fazia qualquer tipo de artimanha. E Elvira, que tanto reclamava da falta de sossego, sem seus queridos amigos incorpóreos, sentiu-se horrivelmente sozinha.

Foi até o pátio, e observou o balanço; este movia-se lentamente pelo toque de uma cálida brisa. Não era porque o traseiro de um fantasma o balançava, era apenas o vento, concluiu desanimada. Entrou novamente em casa, e caminhou pelo corredor que ligava os quartos e banheiros. Continuou avançando até encontrar-se novamente na sala de estar. Fitou o piano que ficava no canto esquerdo da sala, próximo do abajur de cúpula em forma de colmeia, e da pequena estante de ferro. Nenhuma tecla se moveu. Nenhuma nota ecoou. 

Preocupada com o sumiço dos fantasmas, Elvira exclamou sua dúvida com as mãos para cima. Mas ninguém respondeu, tudo o mais parecia adormecido.

Exausta e inteiramente só, com um peso do que parecia ser uma derrota nas costas, deitou-se no sofá e logo caiu em sono profundo. Em meio ao cenário enevoado que surgiu debaixo de suas pálpebras, viu que estava no topo plano de uma montanha, com grama verde e uma ou outra árvore magra. Diante de si, um penhasco se estendia, e do outro lado, podia se avistar um outro topo de montanha, exatamente igual ao que ela estava; com seus amigos fantasmas acenando.

“Venha! Pule, você consegue!” Um deles gritou. Os outros uivavam, e balançavam os braços finos, transparentes. Confusa, mas feliz por revê-los, Elvira lamentou que um derradeiro precipício os separasse.

“Venha! Junte-se a nos! Pule!” Eles continuavam dizendo. E quando estava prestes a saltar, Elvira recuou, e eles ficaram a observá-la. O vento fazia seu cabelo chicotear em sua face, e mesmo sob a ameaça de jamais se juntar à eles novamente, Elvira sabia que, havia um motivo para que ela estivesse do lado oposto ao deles.

“Adeus”, disse Elvira. Os fantasmas com suas peles de vidro ainda a observando. “Adeus!”

Quando finalmente abriu os olhos daquele cochilo, a hora do almoço se aproximava. “Esqueci que estava viva!” Pensou outra vez em voz alta. “Esqueci da vida!”

O som alto da campainha, a fez saltar de susto. Com passos de senhorinha, rumou até a porta, e ao abri-la, soltou um suspiro de alívio; era Rita sua amiga e vizinha, Morta há mais de vinte anos.

“Amiga querida!” Exclamou. “Entre, tenho tanta coisa para lhe contar…”

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CONTO: A VOZ DO VENTO

O fino vidro de minha janela não é capaz de aguentar uma forte ventania. Quando o vento se põe a gritar, e a soprar violentamente árvores, muros e latas de lixo, encolhida na velha cadeira de balanço, temo que a casa inteira possa destruir-se, como se fosse feita de papel, e então sair voando pelos ares.

Mas há algo que, jamais revelei a ninguém; em parte porque estou convencida de que se trata apenas de minha imaginação, e pois temo ser considerada insana: eu converso com o vento.

Não me lembro de como começou, quem sabe em minha primeira infância onde eu alimentava meu gracioso espírito catando conchinhas na beira do mar. Sei apenas que, em dado momento, tornou-me perfeitamente compreensível a voz do vento; o que ela queria, o que dizia, do que se lamentava.

Percebi que eu era a única que poderia entender aquele idioma inumano. E isto, à princípio assustou-me. Hoje em dia, porém, me agrada de uma forma suave, e eu me sinto delicadamente especial.

Houve uma época em que, eu e o vento tínhamos agradáveis colóquios por horas. Conversávamos sobre nascimento e morte, e sobre tudo o que acontecia no meio. Eu falava sobre minhas experiências, sobre os que tinha amado, os que tinha odiado, e sobre os que haviam me ferido; doce e compreensivo como um irmão, o vento me ouvia, dispunha-se a dar-me conselhos, e até algumas piadas e anedotas me contou.

É claro que, como conversávamos amiúde, não tardou até que as primeiras brigas e discussões surgissem; mas até nossas desavenças eram calcadas em carinho e cuidado. O vento e eu sempre fomos muito cúmplices.

Mas eis que segui minha vida, arranjando emprego, um marido, e outros amigos: esses de carne, osso e carteira de identidade. E acabei por deixar o vento um pouco de lado. 

Mas sei que ele sempre esteve comigo: em meu casamento, no momento da festa, uma forte ventania quase fez voar as cadeiras e mesas da recepção. Assim também foi quando Cecília, minha primeira filha, nasceu; uma ventania quase pôs a cabo as barracas da feira em frente à maternidade. Quando consegui meu primeiro emprego foi igual: um forte vento me saudou na entrada da empresa, em meu primeiro dia.

E eram nesses momentos, onde meu velho companheiro se fazia notar, que eu sabia que apesar de nosso distanciamento inevitável e natural, ele estaria sempre ali. Sempre em minha vida. Sempre em meu caminho.

Hoje sou uma velha. Uma anciã de profundas rugas em uma tez rosada, e enormes bolsas debaixo da opacidade de meus olhos. Meu marido faleceu há muitos anos, mas Cecília vem com frequência visitar-me trazendo os meninos, meus netos.

Um dia, Daniel, o mais novo, veio sentar-se em meu colo, e com certa timidez, disse que precisava muito contar-me algo. Não me fiz de rogada, e perguntei logo o que era. “Um recado do vento para a senhora”, disse em tom de confissão, “Ele disse que já está na hora de você ir encontrá-lo pessoalmente.”

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CONTO: AS IRMÃS WILSON

Eu não sabia há quanto tempo a terra entrava dentro de mim; perfurava meus poros, invadia minhas entranhas e comia o miolo de meus olhos. Era terra molhada, rançosa, escura, da cor de chocolate amargo, e havia também pequenos restos de plantas retorcidas, esqueletos de flores.

Eu ainda segurava a mão de pó de minha irmã, ainda permanecia ao seu lado, aspirando nosso odor de morte, nosso eterno odor de morte. Mas olho para ela, e estranho: ela não parece morta. Me pareço muito mais com um cadáver do que ela, e as vezes sinto que à noite, ela levanta de nosso túmulo e sai para dançar na noite fria e iluminada.

Minha irmã sempre gostou de adornar o cabelo com ramos de flores do campo, sempre gostou de vestidos brancos, sempre se deixou queimar pelo sol. Agora que seu corpo não passa de um bando de poeira cinza, suas sardas não são mais perceptíveis, e eu já não vejo a falha de seus dentes da frente.

Ao nosso redor, a única coisa que se escuta agora é o cantar agudo dos vermes. Antigamente, ouvíamos o rádio, e todas aquelas canções bobas que faziam minha irmã rodopiar e girar a saia rodada.

Aqui debaixo da terra não há música, não há luz, não há o som do café da manhã sendo feito. Todos os dias que vivemos evaporaram no calor de um horrível fim de tarde. Nossas esperanças e sonhos foram transformados em monumentos brancos de tristeza, e agora enfeitam o suposto lugar de nosso descanso eterno.

Em nossas lápides os dizeres não dizem nada: “as irmãs Wilson, amadas pelos pais, pelos irmãos, estão protegidas debaixo da asa do Arcanjo Miguel, e descansam agora ao lado de Deus.” 

Choro de raiva, não fomos a lugar nenhum e ainda estamos aqui embaixo. 

Tento decifrar o que a atmosfera me diz, mas não compreendo as razões da morte. Assim como não compreendia as razões da vida, e vivia em uma eterna indagação sobre o mundo, e sobre tudo o que acontecia nele.. Eu acontecia todos os dias, e não me dava conta. Agora, parece que o mundo é um trem que seguiu viagem sem nós. Não sei do que fazemos parte agora, não sei de que tipo de cristal somos feitas, não sei se podemos ver o céu daqui.

Lembro com frequência do dia de Ação de Graças, e da fotografia que o velho Moe tirou de mim e de minha irmã; eu sentada em um monte de feno, ao lado dela, e de um gordo leitão sorridente. Nossas botas estavam com os cadarços desamarrados, e nossos sorrisos estavam inteiros. A fotografia deve estar amarelada, e o gordo leitão provavelmente não faz mais parte do mundo, como nós. 

O passado é uma estrada longa e deserta.

Fecho os olhos e penso no meu rosto; o contorno grosso de minhas sobrancelhas, o traço fino de meus lábios, e o azul de meus olhos parecem agora pertencer à outra pessoa. Penso no rosto de minha irmã, e no de meus pais também. A nitidez de seus traços em minha mente ainda me espanta. Tudo ainda me espanta.

Gostaria de levantar e fazer justiça, mas como ela, estou encerrada debaixo do chão; esse mesmo chão onde o monstro de barba longa caminha tranquilamente. O velho endemoniado que nos matou, passeia pelo vale como se tivesse matado formigas, e não mulheres. Meninas por dentro de corpos esguios e bem formados, meninas na mente, meninas por dentro, meninas que derramavam lágrimas salgadas à beira dos portões do paraíso.

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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: COR DE SOLIDÃO

Ninguém imagina que algo importante possa acontecer numa quinta-feira. Velórios, suicídios, batizados, casamentos, são coisas relevantes demais para pertencerem à um mero resto de semana. Todo mundo sabe que sábados são feitos para comemorar aniversários, e domingos, para lamentarmos a morte daquele tio doente, que ninguém nem lembrava mais que ainda estava vivo.

Mas não às quintas-feiras!

Eu estava acordada, naquela madrugada, quando ouvi o som estridente da ambulância perfurar o silêncio profundo daquelas horas. Em minha defesa, eu estava com insônia – e não cuidando da vida da vizinha! Sabem, eu sou uma solteirona, mas também tenho vida!

Bem, está certo, talvez eu também estivesse prestando um pouco de atenção em Hanna, a vizinha, mas eu não era a única! Todo mundo prestava atenção em Hanna, em seu longo cabelo loiro, em seu sorriso aberto, descarado, em seus olhos cor de solidão. Hanna sustentava uma perfeição milagrosamente imperfeita. E nós, moradores veteranos da vizinhança, quase nada sabíamos sobre sua vida. Exceto, que ela era meio francesa, e vivia sozinha. Sua casa era a última da rua; modesta, de tijolinhos vermelhos, ficava exatamente em frente à minha.

Hanna era um sopro de vida entre nós, e ainda que fosse bastante calada, era generosa com seus sorrisos. Via-se que bebia pouco café; os dentes imaculadamente brancos, eram um pouco tortos, mas ela parecia não se importar. 

Ela gostava de conversar com o carteiro, que com frequência lhe levava a correspondência antes de passar pelo resto da vizinhança. É claro, ele também havia sido enfeitiçado por aquela medusa nórdica. Assim como o Sr. Melvin, da casa 3. Um professor tarado que devia ver em Hanna a garotinha que ela havia sido um dia. Ah, e havia também o veterano de guerra, Hoffmann, que mesmo sem um dos braços, sempre se esgueirava e apertava sua bunda quando a via. E Nora, sua esposa, que fervia de raiva quando pegava as travessuras do marido. E, não posso me esquecer do dono da casa que ela alugava, Sr. Martin. Todos apaixonados. 

Na boca miúda, especulávamos sobre seu passado: uma enfermeira, aeromoça, aristocrata rebelde, espiã? Em nossa imaginação, Hanna havia salvado soldados nas trincheiras, inventado a cura de doenças, cruzado o Atlântico a nado. Porém, na realidade, ela chorava antes de dormir, todas as noites. 

Eu a via por minha janela, dia após dia, e por isso já a considerava uma espécie de amiga. Estava fascinada. 

Eu dizia que estava acordada quando ouvi as sirenes de ambulância. Estava preocupada desde as primeiras horas da manhã, ao notar que uma quietude estranha pairava sobre a casa de Hanna. Não a tinha visto se levantar para tomar café, e nem arrumar a cama. De repente, depois do almoço, ouvi vozes alteradas vindo de lá. Então, corri para a janela, e vi um vulto deixando a casa de Hanna. Ele saiu pela porta dos fundos, e desapareceu no quintal do lado oposto ao meu. Hanna subiu de volta para o quarto, e atirou o abajur no espelho da penteadeira. Eu o vi explodir em milhares de pedacinhos, como diamantes voando no ar, estrelas cadentes se desprendendo do firmamento. Tremendo, ela se abaixou e pegou um dos cacos do chão. E, para minha surpresa, aproximou-se da janela, e olhou diretamente para mim. Um pedido de socorro, pensei. Mas, antes que eu pudesse pensar em algo, ela fechou as cortinas, e eu me senti uma invasora descarada de privacidade.

Muitas horas depois, os paramédicos arrombaram a porta da casinha de tijolos, e a invadiram sem piedade. Havia algo de brutal naquele resgate, algo de extrema violência sobre a atmosfera mítica que pairava ao redor de Hanna. 

Ansiosa, de pé na janela, vi quando os mesmos homens de antes voltaram empurrando uma maca. Deixei escapar um grito de pavor, e não consegui conter meu pranto. A conclusão da perícia foi suicídio. Hanna foi encontrada nua na banheira, com os pulsos cortados. 

O amargor daquele evento foi tão grande para mim, que decidi me mudar. Simplesmente era muito doloroso, olhar para a sala azulada, o quartinho rosa, a caixa de correio de Hanna, e não a ver! Em um mês, arranjei outra casa, a dez quilômetros dali. 

Eu ainda pensava em Hanna todos os dias, mesmo que os vizinhos tivessem começado a esquecê-la.

Antes de ir, pensei em me despedir. Fui até sua casa, e toquei a campainha. O Sr. Martin abriu depois de um tempo, e me convidou para entrar. 

Era tudo tão estranho, como estar dentro de um programa de TV! A casa de Hanna ainda estava ali, decorada à sua maneira, com seus móveis, suas coisas. Sentei-me no sofá, enquanto Martin foi até a cozinha buscar chá para nós. Olhei para minha janela, e vista de longe, minha casa não parecia minha, e a sensação de estranheza aumentou. 

Ao voltar com nosso chá, Martin e eu jogamos uma desconfortável conversa fora. “Ela era uma ótima inquilina”, e “Sempre amável com todos.” Em pouco tempo, aquele papo nos cansou, e eu pedi para ir até seu quarto. Martin estranhou meu pedido, mas não se pôs em meu caminho. Sentindo fortemente a presença de Hanna, algo me guiou até lá. 

A singeleza do quarto me comoveu. Parecia o quarto de uma garotinha. Aos pés da cama, os restos do espelho quebrado ainda estavam lá, espalhados por toda parte refletindo o fim de Hanna. Abaixei-me e peguei um caco pontiagudo. Antes que eu me cortasse sem querer, o larguei. Mas, ao ficar de pé, vi o contorno luminescente de Hanna aparecer em cada pedacinho de espelho. Senti um forte arrepio, e uma vertigem. Sem conseguir lidar mais com aquilo, murmurei “adeus”, e deixei a casa. 

Hoje, os ecos daquela terrível quinta-feira ainda são ouvidos dentro de mim, mesmo após vinte e cinco anos. Nunca mais tive notícias de mais ninguém daquela vizinhança. Provavelmente, estão todos mortos, ou beirando os noventa anos. Sim, eu sei que estou acabada também, e que posso não me lembrar onde guardei minhas chaves, ou se tomei meu remédio, mas lembro de Hanna. Perfeitamente. Lembro de sua distante meiguice, e de seu esdrúxulo fim. Até hoje, sonho com os cacos do espelho refletindo a face de Hanna. E a face, envolta pelas brumas do meu inconsciente, mexe a boca e fala algo que não consigo ouvir. Um nome, uma acusação!

Hanna, você se calou para sempre? Oh, se eu não fosse tão velha, e tão covarde, eu poderia confessar que, na verdade, eu a matei, em um surto que não sou capaz de explicar. Me perdoe, e não me persiga mais! Há duas formas de contar uma história: falsamente e mais falsamente. Quem poderia dizer…?