Categorias
Malinga Dambo Poesia

POESIA: ENTRE GRAVIDADES

Entre três gravidades habito:

a do mundo que palpito

ser onde existo,

a do que permaneço

e a do que mereço.

Sou equilibrada peça conspícua

nesta disputa precípua

entre palpites, existências e sonhos

que, risonhos

do chão que me não existe,

da pátria que me carece,

no lacónico tempo que se me oferece

para a vida,  perdem-se

eternamente.

Categorias
Malinga Dambo Poesia

POESIA: AMOR ME DETÉM

Sacudi a mão para cima e para baixo, em pânico, vendo o vermelho tingir o chão à frente dos meus pés, escorrendo braço a baixo, escarlate por todo o lado, respingando,  gotejando.

Pausânias: o amor é bom e belo apenas quando acrescenta, quando corrobora a busca individual pela virtude. Nunca conheci essa versão de amor, querido, porque o único que você me mostrou foi esse nosso sentimento destrutivo, assassino, dilacerante. 

Click, fez o grampeador do médico, quando ele acabou de fechar o corte que eu fizera quando 

caí da escada.

Nosso amor é filho somente da Penúria, meu bem, e é feio.

Categorias
Malinga Dambo Poesia

POESIA: CRIATURA DO MISTÉRIO

Bem ali, naquela estrutura acidentada,

Elevações e curvas salientes na volúpia,

Limites macios e fossos diamantinos

Instigando o delírio da fraca carne.

Tacteio a fenda no disfarce do escuro,

Aconchegando-me ao prazer do doce mistério.

Categorias
Malinga Dambo Poesia

POESIA: P’RA QUÊ EU CHORAR PERDA?

De: Malinga Dambo

P’ra quê eu chorar perda

Se os teus olhos cintilantes

Dos mais excelsos cristais do universo

São estrelas d’outra órbita fulminantes?

P’ra quê eu chorar perda

Se teus dentes de diamantes

Trituram corações fiéis no amor

Na farsa do sorriso instigantes?

P’ra quê eu chorar perda

Se curvas no teu corpo acidentado

Contornam roseirais da fieldade

E envoltas pelos espinhos da generosidade?

P’ra quê eu chorar perda

Se as tuas fendas da solidariedade

São camufladas em sorriso na superfície

E perfurações de amargura na profundidade? P’ra quê?


“«Propheta, ou o que quer que sejas!
         «Ave ou demonio que negrejas!
Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!
         «Por esse céu que alem se estende,  «Pelo Deus que ambos adoramos, falla,

      «Dize a esta alma se é dado inda escutal-a

      «No Eden celeste a virgem que ella chora

         «Nestes retiros sepulchraes,

«Essa que ora nos ceus anjos chamam Lenora!»

         E o corvo disse: «Nunca mais.»”

O Corvo – Edgar Allan Poe