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Contos Paula Nogueira Terror

CONTO DE TERROR: ESCURIDÃO

Acordei no meio da noite e como de costume coloquei a cabeça pra fora do beliche para conferir se meu irmão mais novo ainda estava na cama, e para minha alegria ele estava. Nosso trato era que quem acordasse primeiro dormia do lado de nossa mãe no quarto dos nossos pais. Desci a escada do beliche tomando o maior cuidado para não acordá-lo, só o fato de conseguir o lugar ao lado da minha mãe no dia do meu aniversário era muito gratificante, não que meu pai fosse uma pessoa ruim, ele até mimava demais a gente, é que nada se compara ao calor de uma mãe, a forma como ela nos aconchega em seus braços, a gente se sente seguro de verdade.

E na pontinha do pé eu fui até a porta, o quarto iluminado pela luz de um abajur era aconchegante, mas eu não via a hora de estar na cama dos meus pais, então sem pensar muito sai do quarto, quase me arrependi na mesma hora, a escuridão que me cercava era claustrofóbica, pesada, o silêncio absurdo preencheu cada parte do meu corpo, mesmo assim decidi seguir o corredor, me segurando nas paredes até a porta do quarto dos meus pais. 

Estava fazendo um frio absurdo, meus pés descalços tocavam com cautela o piso frio, nem mesmo o breu impedia que eu visualizasse minha respiração saindo pela boca como uma fumaça. “Psiu”, meu corpo travou, eu só consegui pensar que devia estar com muito sono, ignorei o barulho e apertei o passo até o quarto dos meus pais. Antes mesmo de colocar a mão na maçaneta ouvi um novo chamado, agora um pouco mais alto. Nossa cozinha ficava de frente para a porta, e mais ao fundo ficava a lavanderia, o barulho vinha de lá. 

Meu desespero cresceu desenfreado, ouvi meu nome vindo de dentro da escuridão, minha garganta secou e com força segurei a maçaneta da porta, mas antes de conseguir fazer qualquer outro movimento ouvi meu nome, em alto e bom som, meu corpo paralisou, “ Paula, tenho um presente pra você”, a voz parecia ser de mil almas falando ao mesmo tempo, em volumes e tons diferentes, “ estou aqui por você”. Entrei em choque, meus olhos não piscavam, e em meio a escuridão eu vi, tremi diante do ser que se arrastava na minha direção, meu corpo num transe sufocante, não conseguia tirar os olhos daquilo, era grande, e cada vez que tentava se levantar ficava ainda maior, o escuro já não era mais tão escuro quanto aquilo que se aproximava de mim. 

Meu corpo suava e tremia inteiro, tentei abrir a porta mas nada aconteceu, entrei em pânico quando percebi que estava trancada. Minha respiração que até o momento era totalmente irregular agora travou em minha garganta, meu medo cresceu a limites extremos quando a criatura abriu os olhos, um tom amarelo vivo me hipnotizou, “ não fuja de mim criança, tenho algo pra você”.

Um cheiro insuportável de enxofre misturado com carne podre invadiu o ambiente, minhas narinas arderam como brasa. A criatura pareceu começar a cantar, um canto demoníaco, meu corpo amoleceu, uma tristeza absurda me inundou, fui tomada por um sentimento de desistência absurda, não senti mais esperanças de que a porta atrás de mim pudesse se abrir e minha mãe me puxar pra dentro, naquele momento só existia eu e aquela criatura a minha frente, aqueles malditos olhos amarelos. Chorei calada, ainda em transe pelo movimento gatuno daquela criatura, o corredor diminuindo cada vez mais, senti meu braço amolecer e soltar da maçaneta, pendendo ao lado do meu corpo. Era impossível desviar os olhos, minha atenção se fincou no andar lento da criatura que clamava pelo meu nome em um milhão de vozes. Meu coração gelou ao sentir o toque asqueroso em meu calcanhar e em segundos me levou ao chão, me puxando para perto dela. O canto se transformou em gritos malditos e o medo disparou meu coração, como se ele fosse explodir dentro do peito, seus gritos alcançavam tons cada vez maiores, fazendo meus ouvidos sangrarem, o suor escorrendo e se fundindo as minhas lágrimas, as mãos da criatura subindo pelas minhas pernas.

“Meu amor, não tenha medo”, paralisei ao ouvir a voz de minha mãe, olhei para trás e vi meus pais saindo da escuridão, parando no batente da porta. Soltei gritos desesperados de socorro mas me calei quase de imediato quando vi seus olhos amarelos, como as da criatura a minha frente. “A gente está aqui com você”, disse meu pai, ambos exibiam um sorriso tão grande que quase rasgava os cantos de suas bocas, uma felicidade doentia, e lá do fundo de suas gargantas começava uma gargalhada ácida. 

Eu sabia que não adiantava mais lutar, me rendi ao abraço da criatura, o hálito quente e fedido enchia meu rosto, e ao abrir a boca senti uma pressão descer pela minha garganta, a criatura mantinha a boca aberta perto da minha, e sem aguentar mais vomitei uma bile negra, o mesmo cheiro de azedo da criatura agora também emanava de mim.

“Agora você é minha”, a criatura enfiou sua mão gelada dentro do meu peito e retirou meu coração como se não fosse nada, uma dor sufocante eletrizou todo o meu corpo e cai de joelhos diante dela, ela que agora seguiria sem saber o porque. A criatura mastigava meu coração, a carne fresca em suas mãos, pingando sangue, o meu sangue, no topo da minha cabeça. Palavras que eu não compreendia saiam da boca dela enquanto entregava os restos de carne para meus pais, que devoraram como se fosse a maça do jardim do Éden. 

Ouvi os gritos de meu irmão abafados pelo choro, eu me perguntei porque ainda estava consciente, mas apenas da mente, porque me vi encaminhando em direção ao meu quarto e dividindo a carne do coração de meu irmão junto com meus pais.

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Adriano Besen Contos Terror

CONTO: FLORESTA NEGRA

Assombrosa Floresta Negra, diluída em sua névoa. Uma fonte do oculto, dos mistérios, da criatividade, da produtividade, da inspiração. Habitei durante anos suas entranhas; percorri seus inacessíveis vales na companhia do meu pinscher selvagem. Não sabia se era dia ou noite; e isso não importava. A floresta não reconhece nem a luz e nem as trevas. Morada de todos os seres; da vida e da morte. Manifestações angelicais ou demoníacas habitam dentro de ti. Diga-me onde elas estão. É difícil perceber quando se está na Floresta Negra. Em meio ao labirinto sedutor dos obscuros pinheirais.

No frio do teu impiedoso clima ou no calor do traiçoeiro desejo, não é tarefa fácil distinguir verdades de mentiras, trapaças de cortesias, remédios de venenos. Está fora e dentro de mim a selvagem Floresta Negra. Quando o bem se esquiva e o mal se revela, a trilha se bifurca e a dúvida reivindica a transmutação. E agora, que caminho seguir? Lobisomens, Bruxas, Demônios e todas as criaturas monstruosas das gélidas sombras espreitam por ali. Estão famintos, sedentos, obsessivos.

De tocaia, eles aguardam por mais uma vítima inocente, uma alma indefesa; para o desfecho do sacrifício derradeiro. O Bem sempre vence o Mal; mas até que o Bem triunfe, o Mal tripudia com escárnio sobre os que sucumbem no caminho. Não há feitiço ou feiticeiro que seja capaz de oferecer salvação a quem desistiu de ser salvo. Na rigorosa Floresta Negra, os predestinados enxergarão a glória; mas somente na hora do crepúsculo. Poderão alcançar com bravura a passagem pelas regiões pantanosas e pelas calamidades impostas. A jornada será vencida, apesar das incansáveis e fulminantes ciladas das forças adversárias. 

Por entre o emaranhado de galhos das árvores da selva, os notáveis raios cintilantes da vitória, surgirão como benção Divina, como um chamado Celestial. Os Seres Elementais cantarão louvores aos destemidos vencedores. A Floresta Negra protege e amaldiçoa quem está em seu hostil território; a magia é respirada no ar, a vida é sentida na terra, o tempo e a energia fluem na água e a chama acalorada dos sentidos humanos arde no fogo da luz do sol.

A Floresta Negra me enreda em seus encantos, me arrebata nos braços do destino; no testemunho dos meus valorosos ancestrais. Nessa fantástica ampulheta da vida, o tempo me leva ao pó da sobrevivência. Enquanto eu percorria livre o escuro corredor da solidão silvestre do seu interior, era observado pelo olho do alpha e do ômega que são gerados no infinito símbolo do seu útero. O Grande Arquiteto do Universo, sempre esteve dentro de mim. Nessa quimérica fábula, eu sou; eu fui e eu sempre serei a lendária Floresta Negra. 

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Allan Fear Contos Terror

CONTO(TERROR): ATÉ COMEÇARMOS A MORDER

O peito de Jessy subia e descia, sua respiração era ruidosa e, de repente, de um momento para o outro, a noite havia se transformado em um pesadelo aterrorizante. 

Ela apenas havia marcado um encontro com um estranho por um chat de relacionamentos, e de repente aquele homem se transformou em um maníaco. 

Jessy gritava, mas ninguém poderia ouvi-la naquela parte sórdida da cidade. Sua ingenuidade a levou a confiar em marcar o encontro em um bar frequentado apenas pela escória da sociedade e foi tarde quando ela se deu conta do erro terrível que cometera. Apenas o som estrondoso de antigas canções de rock ecoavam de dentro do bar. 

O maníaco estava bem atrás de Jessy, com aquela faca afiada, pronto para rasgar suas roupas e possuir seu corpo. 

2

Jessy corria, mas apenas olhos de mendigos e delinquentes a fitavam dos becos escuros, mais interessado em roubá-la do que ajudá-la.

Nuvens opressoras cobriam o céu como um véu espesso, anunciando uma tempestade. 

Gotas gélidas caíam, como alfinetes, no rosto de Jessy que começava a perder as forças, sendo, por fim, alcançada pelo maníaco de olhar pervertido.

Ele a jogou no chão, atacando-a de forma selvagem. Havia fome em seus olhos perversos enquanto em seus lábios um sorriso de escárnio se formava. 

Jessy não possuía mais forças para gritar, estava zonza, sem fôlego, quando de repente a lua, majestosa, surgiu por entre as nuvens escuras, jorrando sua luz prateada sobre os becos imundos. Jessy exalou um rugido feroz, enquanto todo seu corpo começou a sofrer uma metamorfose. 

3

O tarado cambaleou para trás tomado por súbito e inesperado horror, incapaz de compreender o que seus olhos fitavam.

Jessy, de repente, se transformou em uma animalesca besta-fera, um lobisomem faminto, que pulou no pescoço do tarado, começando a mordê-lo de forma insana e voraz. 

Somos o que somos e as máscaras caem quando a hora chega.  

Uma música antiga surgiu, ecoando pelos becos, rompendo o silêncio, enquanto aquela criatura da noite se saciava com sangue e carne fresca naquele banquete no meio da noite.

A suculenta carne de assassinos parecia ter um sabor exótico devido a adrenalina do momento num misto de psicopatia, excitação e terror. 

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Allan Fear Contos Terror

CONTO: OREMOS

1

Eu olhava para meu reflexo no espelho e apenas a feiura me encarava de volta.

            Meus pais queriam que eu fosse uma garota alegre, mas até meu sorriso era triste. Meus olhos expressavam uma melancolia profunda que habitava em minha alma.

            Eu cresci seguindo os passos de outras pessoas, tentando me enturmar, ser uma garota normal.

            Os garotos não gostavam de mim. Zombavam da minha pele pálida como um fantasma.

            Eu tentava me bronzear, mas o sol me queimava com seu fogo terrível.

            Nas paredes minha sombra parecia me observar.

            O soprar do vento parecia sussurrar frases sórdidas em meus ouvidos.     Mas eu tentava ignorá-las. Eu tentava ser normal na sociedade de sorrisos falsos.

            As trilhas incertas da minha vida estranha me conduziram para um convento.

            Eu me senti bem dentro do hábito, sua cor negra me agradava. Fiz meus votos e tornei-me uma freira.

            Mas as orações eram para mim um suplício. A hóstia queimava minha língua e o terço me causava alergia.

            Na parede de meu quarto a cruz pendia de lado até ficar invertida.

2

A noite as trevas pareciam possuir meu corpo, brincando com meus desejos e fantasias proibidas.

            Mas eu lutei contra a tentação de satanás.

            Eu disse não ao diabo e seus anjos caídos.

            Eu honrei meus votos. Fui uma serva do senhor. Deixei-me ser a ovelha e fui guiada.

            Eu não sucumbi diante do pecado que profanou muitas de minhas irmãs, fazendo-as abandonar o hábito e se entregar aos prazeres da carne.

            Eu orei, mesmo que as palavras ditas queimassem meus lábios.

            Por fim o dia chegou, e no auge de meus 65 anos, uma doença fatal ceifou-me a vida.

3

Tão logo desencarnei e meu cadáver, que tombado ante a imagem do arcanjo Miguel, eu vi com mais clareza e o céu se abriu diante de mim, fazendo sua luz brilhante cegar-me.

            Dos céus um anjo desceu ante o som das trombetas e clarins e arrebatou-me em espírito com vossa luz radiante.

            Fui levada ao céu dos eleitos onde jardins inefáveis se estendiam vastamente.

            Mas diante da presença de Deus fui dizimada por sua luz terrível, e então, enquanto minha alma era desintegrada, eu soube que aquele não era um lugar para mim.

            Eu compreendi em meu tormento pavoroso que eu era um ser das trevas que reneguei minha essência sombria.

            Agora era tarde demais para arrependimentos, afinal a luz, que tanto busquei para mim, não representava minha salvação, e sim a perdição eterna uma vez que quando as trevas se tornam luz, sua essência é completamente perdida…   

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Adriano Besen Contos Terror

CONTO: LUTA COM O DIABO

Uma história macabra que meu avô sempre contava com reservas, era sobre o dia que ele lutou com um demônio. Sim, meu avô dizia que lutou com o próprio Diabo. Quando meu avô era jovem, teve uma namorada e os dois decidiram morar juntos. No início, tudo no relacionamento era repleto de amor; apesar de que nem todos no bairro gostassem de sua namorada. Segundo o meu avô, algumas pessoas frequentemente afirmavam que sua namorada era uma bruxa e que praticava magia negra. Ele acreditava que aqueles boatos eram intriga da oposição; por inveja ou algo assim.

Com o passar do tempo, passou a desconfiar da namorada. Ela tinha um comportamento estranho e às vezes, sumia em determinadas noites. Ele começou a achar que estava sendo traído e resolveu que ia começar a segui-la. Ele percebeu que ela sempre sumia nas noites de sexta-feira, principalmente na lua cheia. Ele passou a ficar monitorando os passos da namorada.

Certa noite, ele ficou escondido e esperou ela sair do trabalho. Ele estava decidido a segui-la. Ela caminhou por várias ruas e entrou em uma estrada escura que parecia levar até um sítio abandonado, cercado por uma floresta. Era um lugar escuro, mas meu avô ia se escondendo atrás de árvores para não ser visto. Sua namorada continuou caminhando para a escuridão e logo, meu avô começou a ouvir vozes. Ele foi lentamente se aproximando para não ser notado.

Percebeu que havia uma fogueira e algumas pessoas reunidas perto do fogo. Todos pareciam estar em uma espécie de transe. Todos usavam roupas pretas; inclusive sua namorada. Aquele cenário sombrio era nitidamente um ritual de magia negra. Meu avô foi se aproximando devagar e viu símbolos estranhos desenhados no chão. Em um altar próximo daquelas pessoas, havia garrafas, um crânio humano, velas acesas e outras coisas que ele não soube identificar.

Viu sua namorada em um local um pouco mais distante daquelas pessoas. Ela estava dentro de um círculo desenhado no chão; estava de joelhos e de costas para a fogueira. Nessa hora, meu avô ficou irritado com o que estava vendo e resolveu ir até lá. As pessoas ali presentes pareciam não vê-lo, o que era muito estranho. Elas estavam mesmo em transe.

Ele se aproximou da namorada, que aparentava estar também em transe e quando olhou por cima do ombro dela, viu que no chão estava escrito o nome dele com um punhal cravado na terra. Meu avô ficou chocado com o que estava vendo e sem pensar, deu um chute no punhal que foi parar no meio do mato. Nessa hora a sua namorada se levantou e começou a falar com uma voz rouca e masculina. Parecia desfigurada; possuída por um espírito maligno.

Ela atacou o meu avô com extrema força e violência. Jogou meu avô no chão com uma carga energética sobre-humana. Ele tentou se defender e revidou. Aquele demônio a sua frente gritava que queria mata-lo; e dizia que a sua morte havia sido encomendada. Foi aí que meu avô apavorado deu um soco nela e gritou a frase: “Sangue de Cristo tem poder”; e ela caiu atordoada, enquanto isso ele fugiu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. Ele correu muito; a toda velocidade. Aquilo foi definitivamente inusitado e traumático para ele.

Depois desse episódio sinistro, a namorada dele sumiu misteriosamente da cidade e ele nunca mais a viu. Alguns dias depois, inconformado e curioso com o ocorrido, retornou ao sítio, onde aconteceu a luta com a namorada possuída. Dessa vez, ele foi acompanhado de um amigo policial, e não havia indícios sequer do que tinha acontecido lá; naquela terrível e assombrosa noite.

Não havia mais altar, crânio humano, garrafas, velas e nem aqueles símbolos riscados no chão; provavelmente foram todos apagados. Procuraram pelo punhal arremessado no mato e também não o encontraram. Não havia nem resquícios da enorme fogueira. Realmente, muito estranho. Desde então, tudo não passa de um grande mistério e da lembrança assombrosa do dia em que meu avô lutou com o Diabo.