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Contos Tim Soares

CONTO: SETE VIDAS

O que é a vida?
Há quem acredite que a vida não passe de um grande laboratório para um grande ciclo posterior. Então a nossa estadia aqui na terra seria uma preparação para o que viveremos depois em algum outro lugar. Na minha mais humilde e sincera opinião, não faço a menor ideia.
Bom, meu nome é Daniel Dhundee e eu nasci com uma terrível maldição: sete vidas. Sim, como um gato. Mas tudo na vida tem um preço e essa sim é uma certeza da qual eu tenho a mais profunda convicção. N’uma espécie de brincadeira de mau gosto, fui condenado a morrer sempre que me apaixonasse.
É, eu sei, você deve estar pensando ‘então não se apaixone, idiota’.
Mas as coisas não funcionam assim. Essa parada de amor definitivamente está fora do nosso controle. Você não escolhe se apaixonar, simplesmente acontece e não há nada que se possa fazer, acredite!

Minha epopeia desastrosa começou quando conheci o meu primeiro amor, Olga, no último ano do colégio. Era uma garota legal, bonita e dois anos mais velha do que eu. Apaixonar-se pela primeira vez é experimentar o sentimento mais bizarramente profundo que já havia conhecido. Aparentemente, esse sentimento era recíproco da parte de Olga, o que tornava a coisa toda ainda mais intensa. Acontece que n’uma bela tarde, depois de leva-la para tomar um sorvete, a acompanhei até o prédio em que ela morava, e ao sair do prédio e atravessar a rua, fui atropelado por um caminhão. Morri na hora.

Minha segunda vida, perdi no México. Ah, o México! Fui para lá n’uma daquelas viagens em que tinha como intuito farrear, encher a cara e conhecer mulheres. Fui a uma festa com uns amigos e lá conheci Maitê. Nossos olhos se encontraram depois que ela terminou de entornar uma garrafa de cerveja. Um daqueles raros casos de amor à primeira vista. Cheguei chegando e mesmo com um espanhol bem mais ou menos, consegui me fazer entender. Saímos da festa e fomos até uma praia próxima dali. Conversamos, nos beijamos. Uma daquelas noites em que tudo está jogando ao nosso favor. Então decidimos tomar um banho de mar. Tudo às mil maravilhas até eu morrer afogado.

A terceira vida se foi depois que conheci Nadja. Aquela loira russa era um verdadeiro demônio do sexo. A garota mais pirada que eu já conheci. Durante uma puta chuva, resolvemos ir transar no gramado do jardim. Era um dos muitos fetiches que ela tinha. Foi uma delícia e quando eu estava voltando para dentro de casa, um raio caiu. Agora eu só tinha mais quatro.

Morri pela quarta vez no Madison Square Garden durante um show de Simon & Garfunkel. Um baita público por sinal, mas aparentemente sem nenhum médico. Eles estavam tocando “The sound of silence”, a música predileta de Jéssica, minha noiva, e uma das minhas canções prediletas também, quando eu simplesmente enfartei e morri. De novo!

Depois veio Fernanda e aqueles cachinhos. Uma adorável tagarela que sonhava descobrir onde Elvis estava escondido. A garota mais engraçada que já conheci. Passamos a semana inteira indo à uma dessas redes de fast food que estavam dando bonequinhas cabeçudas. Fernanda queria todas as bonequinhas e então na quinta-feira, depois de uma de suas muitas gracinhas que ao cair na gargalhada, me engasguei e morri sufocado com a droga de um hambúrguer.

A sexta vida, perdi depois de conhecer Rebecca, a bibliotecária da faculdade. Uma mulher linda, inteligente e elegante. Uma das paixões mais arrebatadoras que já senti. Mas ela não me quis e pela primeira vez, experimentei o pior de todos os sentimentos humanos, a rejeição. Morri de tristeza.

Estou na sétima e última vida. Já conheci uma garota legal e acho que já estou me apaixonando. É, eu sei, eu sei. Logo eu vou morrer pela última vez. Não haverá outra vida, outra chance, outra oportunidade. Eu morrerei e será o fim de uma vez por todas. Paciência!
Fico pensando nos gatos, será que eles se apaixonam por sete vezes? Se for esse o caso, felizes são os gatos.

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CONTO: DAQUELE EM QUE SUCEDEU UMA INUSITADA TRAVESSIA

Aquele barqueiro já fizera inúmeras travessias durante todo esse tempo, assassinos, advogados, todo tipo de gente ruim que possa-se imaginar. Naquele dia, tudo seguia na mais perfeita normalidade, ele fumava um daqueles cubanos quando um homem surgiu e logo indagou com rispidez:
– É você que faz a travessia?
– Sim sou eu.
– Então vamos partir logo, tenho urgência nisso.
– Urgência? O senhor por um acaso sabe aonde é que essa barca irá levá-lo?
– Sei sim, e peço que não demores e que faça o teu serviço logo.
O barqueiro achando aquilo tudo muito estranho tratou de iniciar a travessia. O sujeito era um senhor com uns quarenta anos, era gordo, branquelo, trajava roupas sociais mas totalmente desalinhado, estava nitidamente nervoso e esfregava uma mão na outra compulsivamente, até que resolveu abrir a boca de novo:
– Quanto tempo até chegarmos do outro lado?
– Uma hora.
– Uma hora? Não pode ir mais rápido?
– Lamento senhor…
– Astolfo, me chamo Astolfo de Alcântara e você?
– Já não me lembro, estou aqui faz tanto tempo que já não lembro meu nome e nem quem eu era. E a propósito como foi que o senhor desencarnou?
– Como eu o quê?
– Desencarnou.
– Como assim desencarnou?
– Eu quero saber como foi que o senhor morreu?
– E quem disse que eu morri?
– O QUÊ? O senhor está vivo?
– Completamente vivo e gozando de plena saúde, exceto por uns problemas estomacais, pressão alta e uma hérnia para a qual já marquei uma cirurgia para semana que vem.
O pobre barqueiro simplesmente não podia acreditar no que estava ouvindo, havia um homem vivo no inferno e com pressa em chegar.
– Espera aí, o senhor sabe para onde essa barca está indo?
– Mas é claro que sei!
– Mas então…
– Ouça aqui, estou indo justamente para onde preciso ir. Preciso ver o seu chefe.
– O meu chefe?
– É, o Diabo, Capeta, Belzebu…
– Você quer ver o Senhor Lúcifer?
– Exato!
– E o senhor acha que é simples assim, “Ah, vou descer ao inferno para prosear com Lúcifer”
– Prosear é o cacete! Não vim aqui prosear, tenho mais o que fazer. Vim aqui cobrar uma dívida.
– Então ele está lhe devendo?
– Está sim, fiz um acordo com aquele filho da puta e ele me enganou.
O barqueiro entendia cada vez menos tudo aquilo e quando se deu por si, já tinha concluído a travessia e o tal Astolfo já tinha pulado da barca e seguido o seu rumo. O barqueiro então sentou atordoado com tudo aquilo acendeu um cubano e pensou:
– Porra, tem um cara vivo aqui no inferno e simplesmente não existe um protocolo pra isso!