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Contos Crônica Ulisses Andrade

CARTA AOS MEUS BISNETOS

Olá! Quem vos escreve é seu bisavô. Provavelmente vocês não me conheceram, estou aqui em 2020 escrevendo para lhes contar algumas coisas. Eu também não conheci meus bisavós! E um dos meus avôs morreu antes de eu nascer. Só vi uma foto dele quando eu já tinha completado 45 anos. As coisas eram bem diferentes no passado, não havia muitas fotografias, registros, internet, quase nada em termos de memórias. Alguns tinham televisão, mas nem era o caso dele, talvez. Enfim, vou falar de mim: eu estou levando uma vida de conduta lícita, moral e ética, pensando em vocês. Nossa atualidade é bem interessante e complexa, as comunicações são feitas em tempo real, sabemos o que acontece no mundo todo em alguns minutos. Vivemos tempos difíceis, vemos nosso País ser sucateado, a pobreza aumenta a cada dia (há vários anos seguidos); não vi tempos tão difíceis em toda a minha vida (estou com 50 anos hoje). Falta saúde pública para as pessoas, não se tem amor à vida, ao próximo e a quase nada, a não ser ao dinheiro. A corrupção tomou conta de tudo, todo mundo quer levar vantagem, pobre povo que o faz para perder menos. Existem pessoas em condições subumanas de vida e quase ninguém liga! Pessoas passando necessidades básicas, morrendo em corredores de hospitais à espera de tratamentos. Existe uma classe culpada de tudo isso, ela se chama “políticos”. Mas pasmem, são eleitos por nós mesmos, à custa de falsas promessas. Em sua maioria, quase absoluta, são seres que não devem ter se originado em nossa terra, tratam-se de pessoas sem escrúpulos que roubam a cada dia o sonho da vida, de uma vida mais justa. Embrenham-se em viagens luxuosas com regalias de sheiks. Esbaldam-se em bebidas e comidas importadas, festas, carros extravagantes, mulheres e por ai afora. Banham-se em piscinas com maravilhosas cascatas cristalinas enquanto muitos não têm água potável para beber. O consumismo tomou conta do mundo. Poucos desfilam com altíssimas riquezas e muitos o fazem com suas riquezas falsificadas. Não há ética, desde o gari de rua que cobra propina para levar um material tóxico ao primeiro terreno baldio que encontrar até as grandes empresas que compram as leis e a (des)ordem. É o País da carteirada (forma de se apresentar mostrando algum documento que dê autoridade para se burlar as leis), da famosa frase “você sabe com quem está falando?” e da lei da vantagem. Não importa se alguém será prejudicado, importa em levar vantagem de alguma forma, qualquer que seja. Na minha humildade e simplicidade caminho alternando em usar a mesma calça por dias seguidos e lavá-la somente aos finais de semana. Não é importante. Mas sigo de arma em punho (no caso minha caneta – ou melhor, o teclado do meu computador) lutando por um País melhor. Mesmo que em desvantagem, não abro mão da ética. Nem dos meus valores. Sigo os bons princípios morais a mim ensinados. Estudo algumas horas todos os dias. Sou passado pra trás muitas vezes, mas isso não muda minha trajetória. Prezo o meio ambiente e defendo as minorias. Defendo os animais e toda a forma de vida. Mas somos poucos. A grande maioria fala, mas não age. Como se diz no meu tempo (talvez por ai no futuro ainda restem alguns bordões do passado) “falar até papagaio fala”. Aliás, vou explicar “papagaio”: Uma ave verdinha, muito bacana, domesticada. Vítima de tráfico de animais, provavelmente vocês não a conhecerão, talvez só por fotos, pois vamos destruir quase toda a natureza e as espécies. E sabe por quê? Tudo pelo dinheiro. Já desmatamos grande parte do planeta e acreditem, todos por aqui sabem que necessitamos das árvores para respirar. Temos uma área que é considerada “o pulmão do mundo”, mas aos governos (daqui) não interessam preservá-la. Destruí-la, em nome do progresso é mais rentável. E traz muitos mais votos. Amazônia é como a chamamos, talvez a vejam em mapas aí no tempo de vocês. Provavelmente impressos com papéis vindos dela, serão as últimas lembranças… Afinal, os prédios e as piscinas necessitam de espaço. As churrasqueiras de carvão. E nosso bel prazer de carne, seja ela de qualquer espécie. Um dos motivos para devastar a Amazônia, envergonhado, lhes digo: espaço para criar cada vez maiores rebanhos de gado e continuarmos a carnificina da qual somos orgulhosamente (?) um dos líderes mundiais – a matança cruel, desnecessária e indiscriminada de animais, que padecem dia após dia, até a hora de seu descanso final. Quanto mais rara for a carne, mais cara. Praticamos crueldades com gansos (outra ave que talvez não venham a conhecer) – os engordamos exaustivamente para produzir uma iguaria intitulada de “foie gras”. Uso verbos na primeira pessoa do plural, não porque eu consuma esses produtos, mas porque faço parte dos covardes que apenas são contra. Eu não destruo árvores, pelo contrário, tenho até plantado algumas, mas nada faço para combater a destruição. Sou culpado também. O que posso escrever a vocês é sobre a minha indignação pela nossa incompetência em proteger o mundo que ficará para as futuras gerações. E pedir as mais sinceras desculpas além do perdão de vocês.

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Contos Ulisses Andrade

CONTO: LIBERDADE VIGIADA

Amanheceu e o frio tomava conta da minha alma, pois meu corpo já havia chegado ao limite da dor. A fome nem era mais tão intensa, tal tamanho meu estômago fora reduzido. Naquele momento dei conta que era hora de partir. Talvez fosse hora de chegar, mas para se chegar necessita um onde. E nós não temos onde. Não temos porquês. Não temos nada. Caminhamos por quilômetros, revezando as poucas garrafas de água que tínhamos. A dor era o sentimento que nos unia. Pela mesma dor éramos irmãos, filhos, pais. Pela mesma dor éramos amigos. Pela mesma dor éramos psicólogos uns dos outros… E em cada ponto feito de encontro mais de nós havia. Muitos em um. Pelo caminho ficavam dezenas já que Deus resolvera quem deveria sofrer menos. Seus corpos eram largados no caminho junto à solidão. Restava-nos apenas agradecer a cessação daquele tormento. Algumas orações em tom baixo, às vezes em silêncio para poupar um pouco de saliva. Não havia lágrimas. Seria muita coragem desperdiçar qualquer estabilidade do corpo. E somos covardes, fugimos. A mente seguia lisa e insana. Emendar um pensamento em outro tornava os passos menos vulneráveis. Passos retilíneos. Passos lentos. Passos determinados. Passos em vão. Em frente, enfim, uma estação de trem. A pulsação de um coração que bate em conjunto, de pés que caminham em compasso, de vontade que vai à frente. É chegada a hora, mas não há trem. Somente olhares furiosos de soldados que cultivam o ódio pelo nada. Pela defesa da nação. Pelo ideal de um governante. Pela ignorância de um povo. Não se aprendeu nada com o horror do holocausto. Nós seguimos em frente em busca de um solo de paz onde possamos viver nossa vida, trabalhar e ganhar nosso pão e dos nossos filhos. E, quem sabe, dividir com outros que precisem mais que nós. Eu tinha um nome, mas esqueci durante o calvário. Talvez eu nem precise dele para ser enterrado como tantos outros indigentes. Eu não fiz a guerra mas me tornei um guerreiro. Pela vida. Não precisamos de sobrenome pois se o temos, depende de qual, morremos. Meu nome é homônimo de tantos outros pelo mundo: Refugiado.

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Poesia Ulisses Andrade

JANELAS DA VIDA

Da janela do quarto de hospital seu pai e amigos observam seu nascimento.

Você não pode ouvi-los nem vê-los, mas sente a presença deles.

E a vida segue.

Da janela da escola sua mãe observa seu primeiro dia de aula.

Você não pode ouvi-la, mas acena com carinho e medo.

E a vida segue.

Da janela do ônibus escolar seus amiguinhos te observam.

Você não pode ouvi-los, mas entende o gesto de cada um.

E a vida segue.

Da janela de sua faculdade você é observado por uma grande empresa.

Você não pode ouvi-la, mas ela vai te oferecer muito dinheiro e a sua vida vai mudar.

E a vida segue.

Da janela de sua suntuosa casa você observa a rua.

Do lado de fora uma criança pede pão, mas você não pode ouvi-la.

E a vida segue.

Da janela da sua sala no trabalho você observa seus funcionários.

Do lado de fora, um trabalhador pede paciência. Mas você não pode ouvi-lo.

E a vida segue.

Da janela do seu carro você observa a paisagem.

Do lado de fora pés descalços pedem piedade. Mas você não pode ouvi-los.

E a vida segue.

Da janela do avião você observa o mundo.

Do lado de fora o povo pede igualdade. Mas você não pode ouvi-los.

E a vida segue.

Da janela de seu caixão você observa as crianças, seus funcionários, os pés descalços e o povo, todos chorando sua morte, e pede perdão.

Mas eles não podem te ouvir.

E a vida segue

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Contos Ulisses Andrade

CONTO: MENINA DE RUA

Menina da rua (que não devia ali estar), dar-te-ei um chá de rosas, pra limpar a alma, com calma, já que do mundo também é a rua. E a rua é tua, mas deveria ter casa pra morar, boneca pra brincar, espelho pra se maquiar, brilho no olhar. Tudo que a dependência tirou do teu desabrochar, tu vais recuperar.

Combinamos assim: pra almoçar dou-te o pão da paz. De sobremesa tu escolhes: um sonho ou um amor fugaz, que vem bem rápido (os dois), mas o segundo, um amor como de pai, que não acaba jamais. Mudamos o teu caminhar, o pé descalço não faz mais sentido. Teu cachimbo não será mais preciso, trocaremos por um livro. Viverás rodeada deles! Servir-te-ão de apoio, de escada. De travesseiro, de mesa, de estrada. De preferência, que sejam os de poesias, aquelas que falem em harmonia e que nas horas de medo te deem abrigo (à mente, porque o corpo é conduzido por ela, geralmente).

Cantarás alegres canções e não temerás o futuro, porque a rua que tirou o teu sorriso será agora tua aliada. Mostrar-te-á encantadores entardeceres, até te preencher o escuro, onde tu farás uma oração e um novo dia despertará contigo, sem que percebas.

Mesmo que seja por um só dia. Mesmo que seja só um sonho. Mesmo que ali você continue e minha conjugação passe despercebidamente da segunda para a terceira pessoa, enquanto eu por aqui possa lhe oferecer apenas a minha oração. Sei que não posso conduzir seu corpo, tampouco a sua mente, mas, quem sabe oriente sua alma, como um barco, para outro porto…