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Poesia Ulisses Andrade

JANELAS DA VIDA

Da janela do quarto de hospital seu pai e amigos observam seu nascimento.

Você não pode ouvi-los nem vê-los, mas sente a presença deles.

E a vida segue.

Da janela da escola sua mãe observa seu primeiro dia de aula.

Você não pode ouvi-la, mas acena com carinho e medo.

E a vida segue.

Da janela do ônibus escolar seus amiguinhos te observam.

Você não pode ouvi-los, mas entende o gesto de cada um.

E a vida segue.

Da janela de sua faculdade você é observado por uma grande empresa.

Você não pode ouvi-la, mas ela vai te oferecer muito dinheiro e a sua vida vai mudar.

E a vida segue.

Da janela de sua suntuosa casa você observa a rua.

Do lado de fora uma criança pede pão, mas você não pode ouvi-la.

E a vida segue.

Da janela da sua sala no trabalho você observa seus funcionários.

Do lado de fora, um trabalhador pede paciência. Mas você não pode ouvi-lo.

E a vida segue.

Da janela do seu carro você observa a paisagem.

Do lado de fora pés descalços pedem piedade. Mas você não pode ouvi-los.

E a vida segue.

Da janela do avião você observa o mundo.

Do lado de fora o povo pede igualdade. Mas você não pode ouvi-los.

E a vida segue.

Da janela de seu caixão você observa as crianças, seus funcionários, os pés descalços e o povo, todos chorando sua morte, e pede perdão.

Mas eles não podem te ouvir.

E a vida segue

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Contos Ulisses Andrade

CONTO: MENINA DE RUA

Menina da rua (que não devia ali estar), dar-te-ei um chá de rosas, pra limpar a alma, com calma, já que do mundo também é a rua. E a rua é tua, mas deveria ter casa pra morar, boneca pra brincar, espelho pra se maquiar, brilho no olhar. Tudo que a dependência tirou do teu desabrochar, tu vais recuperar.

Combinamos assim: pra almoçar dou-te o pão da paz. De sobremesa tu escolhes: um sonho ou um amor fugaz, que vem bem rápido (os dois), mas o segundo, um amor como de pai, que não acaba jamais. Mudamos o teu caminhar, o pé descalço não faz mais sentido. Teu cachimbo não será mais preciso, trocaremos por um livro. Viverás rodeada deles! Servir-te-ão de apoio, de escada. De travesseiro, de mesa, de estrada. De preferência, que sejam os de poesias, aquelas que falem em harmonia e que nas horas de medo te deem abrigo (à mente, porque o corpo é conduzido por ela, geralmente).

Cantarás alegres canções e não temerás o futuro, porque a rua que tirou o teu sorriso será agora tua aliada. Mostrar-te-á encantadores entardeceres, até te preencher o escuro, onde tu farás uma oração e um novo dia despertará contigo, sem que percebas.

Mesmo que seja por um só dia. Mesmo que seja só um sonho. Mesmo que ali você continue e minha conjugação passe despercebidamente da segunda para a terceira pessoa, enquanto eu por aqui possa lhe oferecer apenas a minha oração. Sei que não posso conduzir seu corpo, tampouco a sua mente, mas, quem sabe oriente sua alma, como um barco, para outro porto…