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Crônica Victória Mendes

CRÔNICA: QUANTAS VEZES EU AINDA VOU PRECISAR PERDER?

A vida se encarrega de trazer os chacoalhões necessários quando precisamos de mudanças, e note que nem sempre as mudanças são feitas todas juntas. Você sabe quando pode mais, mas ainda sim nega. Negamos o nosso potencial, as nossas responsabilidades e atribuições porque temos medo e somos cercados por uma sociedade medrosa. Quem arrisca é louco e não tem amor às pessoas o que cercam.

E quem disse que isso é o certo?

Quem disse que você precisa continuar assim?

Aquele seu conhecido (note, conhecido, logo, não deveria ter influência alguma em sua vida) crente que fala que os teus pecados vão passar num telão no juízo final, então é preciso temer o que faz?

Aquela pessoa que não pode ver um passo seu a frente que tenta te colocar medo do fracasso?

Aquela pessoa que não suporta teu sorriso e gargalhada, e de qualquer forma tenta te colocar pra baixo?

Foi isso que gerou a pergunta “quantas vezes ainda vou precisar perder”.

Perder o brilho, perder os sonhos, perder a vida. A paz.

Precisei perder anos da minha vida com pessoas que não me agregavam nada ou eram abusivas para entender que eu deixei minha autoestima ser moldada de forma errada, e que me ensinaram a ser permissiva. 

Precisei perder um animal de estimação que amei muito para  entender que não existe sequer uma alma pura de intenção nesse mundo, mesmo os que eu mais amo, e como é duro pensar isso. A visão romantizada das pessoas nos faz acreditar que essas coisas nunca acontecerão com a gente. Mas acontecem.

Precisei perder bens materiais que muito estimava para entender que estava me cercando de lixo para me sentir segura, por causa de privações deixei que me afligissem.

Quais outros chacoalhões vamos precisar esperar para ter uma vida digna?

“O ladrão vem somente para roubar, matar, e para destruir; Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância” (João 10:10).

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Crônica Victória Mendes

CRÔNICA: HERÁCLITO E A FELICIDADE

Na Grécia antiga, em Éfeso, encontramos um filósofo chamado Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.), que tinha como uma de suas proposições a harmonia dos contrários: precisamos passar fome para mensurar corretamente o valor de uma refeição, precisamos passar sede para entendermos quão essencial é a água, e que também, precisamos de intempéries para valorizar a felicidade. Mais tarde, Aristóteles resumiu essas ideias e lançou sua conclusão: felicidade é um momento que daríamos tudo para que não acabasse. Mas, unindo os pensamentos dos dois filósofos, agora entendemos que, por mais que não queiramos que esses momentos acabem eles terminam para que valorizemos os vindouros. Talvez não tenha essa intenção, mas o faz com maestria.

Outra proposição de Heráclito, é de que um ser humano nunca repete as mesmas coisas: nunca pisa em mesmos solos, e; por consequência, nunca permanece o mesmo. Parece absurdo, mas não é. Ao repetirmos uma ação (exemplo: escrever três vezes o nome próprio), não iremos executá-la igualmente, em totalidade. O conteúdo escrito pode ser igual, mas o jeito de escrever e as letras jamais serão idênticas umas as outras. Ao pisarmos no solo, jamais pisaremos nas mesmas terras, pelo fato de que há vento e chuva; manifesto da natureza em prol da renovação. Quando entramos em um rio, lago, ou mar, saímos e entramos de novo, não estaremos nas mesmas águas. E o ser humano não permanece o mesmo por dois motivos simples: renovação biológica (cabelo cresce, pêlos crescem, seios crescem, aumentamos nossa estatura, nossa pele se renova) e a renovação psicológica (adquirimos novas experiências, novos amores, desejos, passamos a gostar de algumas coisas e deixar de gostar de outras, etc.). E o que isso tem a ver com felicidade? Ao aceitarmos que as mudanças são inerentes à vida, que nada permanece do jeito que se encontra é um grande passo a mudança de paradigmas. Felicidade e mudança são duas palavras diferentes mas que vivem juntas.

Os infortúnios da vida são como a vivência passada (nos construíram ou ainda nos constroem), e também, como as vivências futuras (nos reconstruirão a partir do que somos no momento). Eles fazem parte da nossa biografia. E biografias que só contam felicidades soam falsas, forjadas, não obstante; enfadam-nos por falta de emoção. O indivíduo só é completo quando passa por mais uma de fenômeno, um antônimo ao outro: jamais saberá o prazer de comer e analisará com calma a textura do alimento se nunca passou fome em sua vida, nem que seja por alguns minutos. Jamais saberá a sensação refrescante e aliviadora de beber um copo de água depois de um período de sede. E também, por mais doloroso que seja, jamais saberá o valor de um amor e quão efêmero pode ser se não cuidado, se não sofrer alguma decepção. Todos esses sentimentos nos ajudam a crescer. Saber lidar com a dor e transformá-la num fenômeno positivo, por mais estranho que o seja no momento em que você estiver passando, vai lhe apresentar um novo você, um novo eu, mais forte e mais experiente. Grandes tempestades são o prelúdio de lindas calmarias. Uma precisa da outra pra acontecer e ter sua proporção ideal. De falsidade, já chega o que fingimos ser e não somos, todos dias. Seria uma afronta ideológica de cunho malicioso retirar dados de nossa história de vida. Que nós aproveitemos cada momento.

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Poesia Victória Mendes

POESIA: MAIS OU MENOS

Mais ou menos

A Superlativa

Poesia

Foi pelo mais que eu vivi

Os melhores momentos

Os mais intensos sentimentos

As melhores experiências

Foi pelo menos que vi

Minha felicidade indo embora

Menos vida na minha história

As mais tristes sensações

Por isso me desculpe

Se sou de(mais)

Mas o menos

Não me convence e não me atrai

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Crônica Victória Mendes

CRÔNICA: MÁRIO QUINTANA E O LAÇO

Ao amarrar os tênis, temos duas possibilidades: ou o que fazemos vira um nó, ou vira um laço. O nó segura bem e é difícil desatá-lo, mas danifica o cadarço. O laço, além de não danificá-lo, enfeita o tênis e o segura, de forma mais leve. Às vezes, com pressa, o fazemos tão rápido que ele virá nó. Outrora, o fazemos tão frouxo que na primeira pisada se desfaz.

Assim são as relações que cultivamos. Ao tratar de alguém que não seja eu mesmo, vou cobrar aquilo que não sou, ou aquilo que sou e acho que poderia melhorar. Vou apontar defeitos na área que também tenho. E ao conviver, posso fazer duas coisas: criar uma relação nó ou uma relação laço. A relação nó é aquela que prende, gruda e sufoca. Intolerante e autodestrutiva. Sufoca o amor, gruda na presença e prende com insistência. Ninguém resiste muito tempo, e quem persiste, adoece. Ela danifica o que segura um relacionamento e jamais torna a forma original. Já a relação laço é mais cuidadosa. Tem como verbo principal o “cessão”. É um constante compartilhamento e é o viver com o outro, e não para ou pelo outro. É ter ciência de que não somos donos de ninguém, precisamos deixá-lo voar, mas se ele voltar é porque gostou do lugar. Dar essa liberdade aumenta a atração, confere leveza a relação, dissipa idealizações, ameniza discussões e desobstrui traumas.

Não devemos apequenar a vida, por mais breve que ela seja, fazendo nós no cordão existencial. Talvez não dê para desatá-los. Como diria o doce Mário Quintana: “só deixa de ser nó quando virá laço”.