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Adam Mattos Poesia

POESIA: O TAMBORILAR DO CORVO

O tamborilar de algo lembra uma cantiga
Remete-me aos lúgubres vazios…
Como era mesmo aquela música antiga?
Acho que era do Vivaldi com Hugo Emil

Mas esse é um concerto de violino alegre 
E por que essa lembrança me faz tremer?
Mesmo que de tudo eu abnegue
Nunca deixarei de sofrer

Acho que finalmente entendo os corvos do holandês
Eles estão fugindo, mas sempre voltam. 
Com a mesma rapidez
Que os achaques do passado me afetam

Eles voltam por não ter escolha
Assim como nossa mente insiste no pensamento cruel
Nunca um sentimento impoluto abrolha
Como os corvos, presos para sempre por um pincel.

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Adam Mattos Poesia

POESIA DO LIVRO: ALMA EM PEDAÇOS

A distância é uma chaga que derruba

Uma pessoa saudável até então

Não há uma só que não sucumba

A terrível dor de uma separação

Quilômetros de distância são sentidos

Na alma de quem verdadeiramente ama

Essa dor a que somos submetidos

Nos deixa doentes, às vezes até de cama

Nem os mais fortes suportam tranquilamente

Quando quem amam está tão distante

E se pegam esperando ansiosamente

O reencontro espetacularmente excitante

Pois quando este finalmente acontece

Uma explosão se espalha pela mente

E uma fagulha de paixão enaltece

Todos os nossos sentidos plenamente


“Um Deus sensivel

«Manda repouso á dor que te devora

«D’estas saudades immortaes.

«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»”

O Corvo – Edgar Allan Poe

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Adam Mattos Contos

CONTO: O SONHO

Claudinho tinha onze anos e sonhava ser jogador de futebol. Palmeirense fanático, não perdia um jogo sequer do Palmeiras na televisão e tinha os pôsteres emoldurados de campeão da Copa do Brasil de 2015 e o de Campeão Brasileiro de 2016 — os dois títulos que ele havia visto o time conquistar — na parede. Claudinho tinha uma irmã mais nova, de nove anos, com quem ele brincava de driblar pela casa, sob protestos dela e da mãe, que temia que ele quebrasse alguma coisa. Ele queria um dia jogar no Palmeiras, mas o seu maior sonho mesmo era conhecer o Allianz Parque, sentir a emoção da torcida, gritar “Meu Palmeiras, Meu Palmeiras” durante o Hino Nacional. E o menino não falava em outra coisa, estava inclusive juntando dinheiro em seu porquinho para ajudar a pagar a viagem.

Claudinho morava em Londrina, seu pai era policial, e a mãe médica, portanto, a falta de dinheiro não era o impeditivo para que seu sonho se concretizasse. Sempre que ele pedia aos pais, os dois prontamente diziam “um dia a gente vai, meu filho”, mas esse dia nunca chegava. Os pais não eram ligados em futebol, então não davam importância a obsessão do garoto. Com muito custo, ele os convenceu a assinar o programa mais barato de sócio torcedor do time para que ele pudesse contribuir com a sua paixão. Quando os pais, ou qualquer um, perguntava a ele de onde vinha esse amor todo pelo Palmeiras, ele costumava dizer que não escolheu o Palmeiras, mas que o Palmeiras o escolheu, e complementava com uma frase de Joelmir Beting: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”. As pessoas riam e achavam bonitinho, mas não levavam a sério o amor que ele sentia pelo time, e isso o frustrava profundamente.

Certo dia, Claudinho acordou cedo, arrumou uma trouxinha de roupas dentro da sua mochila da escola e saiu escondido, ele iria para São Paulo de carona, e chegando lá, contaria a sua história para alguém do estádio e eles o deixariam assistir a um jogo. Ele quebrou seu cofrinho, contou as moedas, tinha cento e cinquenta e três reais e alguns centavos, entrou escondido no quarto do pai, e pegou da carteira dele mais duzentos reais. Com essa quantia ele achava que dava para comprar comida e o que precisasse para chegar até lá, e se desse sorte com as caronas, poderia até, quem sabe, sobrar dinheiro para um ingresso.

Ele desceu pelo elevador com a mochila nas costas às cinco da madrugada, passou despercebido pelo porteiro, que dormia, e seguiu andando a pé em direção à avenida principal, onde iria pedir carona até a rodovia. De lá, ele tentaria, com algum caminhoneiro, ir até São Paulo. Se ninguém o levava a sério, ele iria sozinho.

Ele tinha passado uns quarenta minutos sozinho, no escuro, com o polegar em riste em busca de uma carona, quando um carro em alta velocidade veio em sua direção e parou abruptamente, quase derrapando à sua frente. Ele conhecia aquele carro. Quando o motorista desceu, ele reconheceu o seu pai se debulhando em lágrimas, seguido pela sua mãe, chorando compulsivamente. Eles correram em sua direção e o abraçaram forte, como se não o vissem há uma década.

— O que você está fazendo aqui, filho? — perguntou o pai, soluçando.

— Estou indo pra São Paulo assistir a um jogo do Palmeiras.

A mãe deu um grito de espanto, enquanto o pai começou a rir de nervoso, ainda chorando.

— Filho, não dá pra você ir pra São Paulo de carona. Você ficou maluco?

— É o único jeito. Ninguém me leva a sério, só ficam me enrolando. E se eu morresse sem nunca ter visto o Palmeiras jogar?

Aquela frase tocou o coração do pai, que ainda, sem largar o filho, fez uma promessa.

— No teu aniversário de doze anos, daqui a um mês, vamos todos pra São Paulo. Eu prometo. Vamos comemorar lá, nós quatro, assistindo a um jogo. Que tal?

— Sério??? — perguntou o menino, dando pulinhos de alegria.

— Sério — respondeu o pai.

A semana seguinte passou uma maravilha. O alívio de ter achado o filho em segurança foi tão grande, que os pais nem pensaram em puni-lo, muito pelo contrário, iam acabar de uma vez por todas com aquela obsessão que tinha se tornado conhecer o mais belo estádio do mundo, como o filho costumava se gabar.

Depois de alguns dias, o pai chegou a casa com um envelope na mão e perguntou direto para o filho:

— Sabe o que tem aqui?

— O quê?

— É o teu presente de aniversário.

Claudinho, sem se conter, correu em direção ao pai, deu um abraço e pegou o envelope da mão dele. Assim que ele o abriu, viu quatro passagens aéreas, ida e volta para São Paulo, e quatro ingressos para Palmeiras X Grêmio para dali duas semanas. O garoto não sabia o que fazer de tanta alegria. Ele abraçava o pai, a mãe, a irmã, que não sabia direito o que estava acontecendo, corria pela casa gritando que ia ver o Palmeiras de perto, que iria conhecer o Allianz Parque. Sem dúvida, aquele era o dia mais feliz da sua vida.

Os dias que se sucederam foram só de alegria na família, Claudinho até ajudava nas tarefas de casa, ia para a escola sem reclamar, fazia as lições da escola e obedecia aos pais como se fosse um anjo.

Quando faltava menos de uma semana para a viagem, o pai de Claudinho chegou esgotado do trabalho — tinha feito uma perseguição a bandidos e uma série de papelada burocrática para preencher —, tirou o casaco e o coldre com a arma, colocando-os em cima da mesa e foi direto tomar banho. A mãe estava na cozinha preparando o jantar quando o garoto e a irmã viram a arma e resolveram brincar de polícia e ladrão.

— Eu sou a polícia e você é o ladrão — disse Claudinho.

— Nada disso, vamos no par ou ímpar.

— Ae, ganhei. Eu sou a policial e você o ladrão — disse a irmã de Claudinho.

Ela pegou a arma, tirou do coldre e saiu correndo pela casa, apontando a arma para o irmão. Foi então que um disparo aconteceu e Claudinho caiu no chão, ensanguentado, já sem vida. O tiro atingiu a nuca do garoto.

Os pais foram correndo em direção ao barulho e encontraram o filho morto no chão e a menina chorando com a arma aos seus pés. Todos se ajoelharam em volta do corpo sem vida do menino e choraram.

O pai foi detido pela polícia, mas logo foi liberado, ia responder ao processo em liberdade. A mãe e a irmã eram duas zumbis, não falavam, não comiam, não faziam nada. Claudinho foi cremado e as cinzas colocadas em uma urna na estante da sala.

À noite, olhando para as cinzas, o pai falou:

— Nós ainda vamos levar o Claudinho ao jogo.

— O quê? — disse a mulher

— Nós vamos levar as cinzas do Claudinho ao jogo — disse e começou a soluçar de tanto chorar.

No dia do jogo eles deixaram a filha na casa dos avós, pois agora não tinha mais sentido levá-la, afinal, não era nenhuma comemoração e ela estava muito abalada com o que tinha acontecido. A menina não tinha falado uma palavra sequer desde aquele fatídico dia. Eles embarcaram no avião e partiram rumo a São Paulo. Chegando ao estádio, colocaram as cinzas do filho dentro de um saco plástico e o pai o colocou dentro da cueca, para passar pela revista. Quando estava para começar, o pai pegou o saco, foi o mais próximo que pôde do gramado e espalhou as cinzas do filho no Allianz Parque, o lugar que o filho mais quis conhecer em vida, mas que agora ia viver na eternidade.