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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: TOALHA DE MESA

Por que as pessoas cobrem suas mesas com grandes pedaços de tecidos, encobrindo assim toda a beleza de sua mobília?

Normalmente, de fazenda simplória e estampas banais, frutas, legumes ou galinhas; outras lisas, finas, de linho branco; umas vezes já rotas de tão usadas que foram; outras manchadas de macarrão ou pelo tempo que ficaram guardadas em uma gaveta, aguardando o momento ideal para serem usadas. Independente de como estejam, o fim é o mesmo: cobrir a madeira, o ferro, o plástico, a fórmica ou o vidro, preparando-o para receber alguma refeição.

Cobre-se o vidro riscado, a madeira lascada, a ferrugem, a fórmica quebrada e o plástico encardido. Envergonhados de seus defeitos, as pessoas tentam, assim, escondê-los, sem perceber que também escondem seu brilho, seus detalhes mais formosos, escondem sua beleza, sua essência.

Da mesma maneira, vestimos máscaras a todo o tempo, conforme o local em que nos encontramos, ou a companhia que temos no momento. Escondemos nossos sentimentos, nossas frustrações, procuramos disfarçar nossos defeitos e acabamos por camuflar também nossas qualidades e nosso âmago. Por vezes, o fim é o de proteger, para não macular, não machucar, mas ao esconder seus atributos– bons e ruins -, o que o outro verá será simplesmente um pedaço de pano a encobrir tudo e a todos.

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Ana Rosenrot Contos

CONTO: DENTE-DE-LEÃO

Eu estava com muita pressa, tinha centenas de coisas para fazer, inúmeros clientes para visitar e pouquíssimo tempo, andava pelas ruas quase correndo, lutando para me movimentar rápido em meio ao enorme fluxo de pessoas, o coração acelerado e a cabeça doendo devido ao estresse – o grande mal da vida moderna −; quando o vento, que espalhava poeira por todos os lados, fez pousar em meus óculos algo muito interessante: sementes de dente-de-leão.

Peguei uma delas e ao ver aquela sementinha tão linda e aerodinâmica, a penugem branquinha e incrivelmente leve, recordei imediatamente de minha infância, quando colhia uma daquelas bolas brancas e um simples assopro desfazia-se em dezenas de paraquedas imaginários, prontos para viverem incríveis aventuras pelos quatro cantos da Terra.

Pensando bem, somos como as sementes de dente-de-leão, nascemos protegidos por nossa “planta” mãe e pouco a pouco vamos nos desenvolvendo, tentando sair do invólucro natural que nos mantém afastados das intempéries da vida, loucos para expor-se completamente à luz do sol e todos vão se preparando o melhor possível, até o grande momento de alçar voo e dar o máximo de si para pegar os melhores ventos e buscar um local adequado para germinar e crescer; muitas caem no asfalto duro, na terra infértil, sobre os arranha-céus, ficam grudados nas roupas – ou óculos – de alguém, podendo ser novamente levadas pelo vento se forem persistentes, ou simplesmente ficam presas nos desvãos da rua até secarem; poucas encontram o lugar e as condições ideais para se desenvolver com plenitude.

Nós, seres humanos, também somos assim, uns se esforçam e vencem na vida, outros não. O problema é que, ao contrário da semente de dente-de-leão, quando finalmente atingimos nossos objetivos, em vez de florescermos, parece fazer parte da natureza humana o oposto: vamos murchando, perdendo o interesse, ficando estagnados. Eu mesmo, que lutei tanto para alcançar o sucesso e agora vivo estressado por ter tantos clientes e não saber administrar bem meu tempo; estou sempre irritado, nervoso, vazio, sem coragem para tomar novas iniciativas. Mas estranhamente, as sementes que grudaram em meus óculos, reacenderam a chama, o desejo de ir mais longe, de recomeçar, de procurar novos caminhos.

Não é à-toa que no Nordeste Brasileiro essa planta é chamada de “esperança” e deu origem a um sábio dito popular:

“Abre as janelas e deixa a “esperança” entrar na tua casa trazida pelo vento da tarde”.

Devemos deixar que essa semente germine em nossos corações e reinicie seu ciclo natural, para podermos alçar voos cada vez mais longos, mais altos, infinitos, cheios de…esperança.

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Jeane Tertuliano Poesia

POESIA: UNAMO-NOS

Nós, mulheres, viemos a esse mundo

destinadas a viver em sofrimento.

Independente da localização, no fundo,

experienciamos um fatídico lamento.

Índia, negra, mulata, branca ou amarela,

nós somos estrelas luzentes no céu das eras.

Em nome das que foram lançadas à fogueira,

resistiremos, pois há fogo em nossas veias!

Irmãs feministas, unamo-nos em uma só voz!

Mostremos às nações o elo que provém de nós.

Homem nenhum compreenderá o nosso clamor,

porque da nossa peleja, irmãs, ELE foi o autor!

ELE NÃO, ELES NÃO PODERIAM NOS AJUDAR!

Afinal de contas, quando estiveram em nosso lugar?

Quando foram inferiorizados por serem quem são?

Não venham me dizer que por nós sentem compaixão!

Das nossas lutas, apenas nós mulheres compreendemos.

Querem nos ajudar? Pois bem, provem do vosso veneno:

sejam subjugados e condenados ao ignóbil silêncio!

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Contos Ulisses Andrade

CONTO: LIBERDADE VIGIADA

Amanheceu e o frio tomava conta da minha alma, pois meu corpo já havia chegado ao limite da dor. A fome nem era mais tão intensa, tal tamanho meu estômago fora reduzido. Naquele momento dei conta que era hora de partir. Talvez fosse hora de chegar, mas para se chegar necessita um onde. E nós não temos onde. Não temos porquês. Não temos nada. Caminhamos por quilômetros, revezando as poucas garrafas de água que tínhamos. A dor era o sentimento que nos unia. Pela mesma dor éramos irmãos, filhos, pais. Pela mesma dor éramos amigos. Pela mesma dor éramos psicólogos uns dos outros… E em cada ponto feito de encontro mais de nós havia. Muitos em um. Pelo caminho ficavam dezenas já que Deus resolvera quem deveria sofrer menos. Seus corpos eram largados no caminho junto à solidão. Restava-nos apenas agradecer a cessação daquele tormento. Algumas orações em tom baixo, às vezes em silêncio para poupar um pouco de saliva. Não havia lágrimas. Seria muita coragem desperdiçar qualquer estabilidade do corpo. E somos covardes, fugimos. A mente seguia lisa e insana. Emendar um pensamento em outro tornava os passos menos vulneráveis. Passos retilíneos. Passos lentos. Passos determinados. Passos em vão. Em frente, enfim, uma estação de trem. A pulsação de um coração que bate em conjunto, de pés que caminham em compasso, de vontade que vai à frente. É chegada a hora, mas não há trem. Somente olhares furiosos de soldados que cultivam o ódio pelo nada. Pela defesa da nação. Pelo ideal de um governante. Pela ignorância de um povo. Não se aprendeu nada com o horror do holocausto. Nós seguimos em frente em busca de um solo de paz onde possamos viver nossa vida, trabalhar e ganhar nosso pão e dos nossos filhos. E, quem sabe, dividir com outros que precisem mais que nós. Eu tinha um nome, mas esqueci durante o calvário. Talvez eu nem precise dele para ser enterrado como tantos outros indigentes. Eu não fiz a guerra mas me tornei um guerreiro. Pela vida. Não precisamos de sobrenome pois se o temos, depende de qual, morremos. Meu nome é homônimo de tantos outros pelo mundo: Refugiado.

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Ernane Catroli Poesia

POESIA: – À DERIVA –

Esparsas

               sombras se alongam

Não demora a noite

Esta chuva fina

                          e este vento

                                            não continuam

Tudo é teia

                  insidiosa

Matéria rediviva                            Memória