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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: CICATRIZES

Cicatrizes me fascinam, elas sempre me atraíram, mesmo eu não entendendo o porquê.
Hoje, talvez, eu compreenda um pouco melhor o significado de uma cicatriz, ela representa superação.
Toda a cicatriz carrega uma história consigo, uma história marcante. Às vezes triste, às vezes feliz, mas o final é sempre o mesmo, algum acontecimento forte que deixou uma marca de triunfo.
A cicatriz de uma cesariana, por exemplo, é uma enorme marca de amor.

Uma mulher que permitiu ter sua carne cortada para trazer ao mundo um novo ser, um pedacinho de si, cujo amor será eterno e incondicional.
A marca de uma queimadura representa uma grande dor sofrida, quase insuportável, mas que resultou em sobrevivência. O mesmo acontece com as cicatrizes provenientes de acidentes.
Enfim, a cicatriz está lá, nos fazendo lembrar de que em algum momento de nossas vidas vivemos uma dor, mas ela se curou e não nos permite que a esqueçamos.
As cicatrizes servem para trazer à tona todas as lembranças, as boas e as ruins.
Todos têm alguma cicatriz, de alguma cirurgia, um pequeno incidente doméstico ou um mero arranhão. Ela está lá, superficial ou profunda, clara ou escura e se a observarmos com cuidado, a enxergaremos.
E eu, como grande admiradora das cicatrizes que sempre fui e ainda sou, atrevo-me a dizer que a alma também carrega cicatrizes consigo e que são as mais belas de todas. Depois de grandes lutas, angústias e tristezas, a alma se regenera trazendo uma grande, linda, perfeita e visível cicatriz rasgada nas faces, nosso sorriso.

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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: TOALHA DE MESA

Por que as pessoas cobrem suas mesas com grandes pedaços de tecidos, encobrindo assim toda a beleza de sua mobília?

Normalmente, de fazenda simplória e estampas banais, frutas, legumes ou galinhas; outras lisas, finas, de linho branco; umas vezes já rotas de tão usadas que foram; outras manchadas de macarrão ou pelo tempo que ficaram guardadas em uma gaveta, aguardando o momento ideal para serem usadas. Independente de como estejam, o fim é o mesmo: cobrir a madeira, o ferro, o plástico, a fórmica ou o vidro, preparando-o para receber alguma refeição.

Cobre-se o vidro riscado, a madeira lascada, a ferrugem, a fórmica quebrada e o plástico encardido. Envergonhados de seus defeitos, as pessoas tentam, assim, escondê-los, sem perceber que também escondem seu brilho, seus detalhes mais formosos, escondem sua beleza, sua essência.

Da mesma maneira, vestimos máscaras a todo o tempo, conforme o local em que nos encontramos, ou a companhia que temos no momento. Escondemos nossos sentimentos, nossas frustrações, procuramos disfarçar nossos defeitos e acabamos por camuflar também nossas qualidades e nosso âmago. Por vezes, o fim é o de proteger, para não macular, não machucar, mas ao esconder seus atributos– bons e ruins -, o que o outro verá será simplesmente um pedaço de pano a encobrir tudo e a todos.

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Crônica Victória Mendes

CRÔNICA: HERÁCLITO E A FELICIDADE

Na Grécia antiga, em Éfeso, encontramos um filósofo chamado Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.), que tinha como uma de suas proposições a harmonia dos contrários: precisamos passar fome para mensurar corretamente o valor de uma refeição, precisamos passar sede para entendermos quão essencial é a água, e que também, precisamos de intempéries para valorizar a felicidade. Mais tarde, Aristóteles resumiu essas ideias e lançou sua conclusão: felicidade é um momento que daríamos tudo para que não acabasse. Mas, unindo os pensamentos dos dois filósofos, agora entendemos que, por mais que não queiramos que esses momentos acabem eles terminam para que valorizemos os vindouros. Talvez não tenha essa intenção, mas o faz com maestria.

Outra proposição de Heráclito, é de que um ser humano nunca repete as mesmas coisas: nunca pisa em mesmos solos, e; por consequência, nunca permanece o mesmo. Parece absurdo, mas não é. Ao repetirmos uma ação (exemplo: escrever três vezes o nome próprio), não iremos executá-la igualmente, em totalidade. O conteúdo escrito pode ser igual, mas o jeito de escrever e as letras jamais serão idênticas umas as outras. Ao pisarmos no solo, jamais pisaremos nas mesmas terras, pelo fato de que há vento e chuva; manifesto da natureza em prol da renovação. Quando entramos em um rio, lago, ou mar, saímos e entramos de novo, não estaremos nas mesmas águas. E o ser humano não permanece o mesmo por dois motivos simples: renovação biológica (cabelo cresce, pêlos crescem, seios crescem, aumentamos nossa estatura, nossa pele se renova) e a renovação psicológica (adquirimos novas experiências, novos amores, desejos, passamos a gostar de algumas coisas e deixar de gostar de outras, etc.). E o que isso tem a ver com felicidade? Ao aceitarmos que as mudanças são inerentes à vida, que nada permanece do jeito que se encontra é um grande passo a mudança de paradigmas. Felicidade e mudança são duas palavras diferentes mas que vivem juntas.

Os infortúnios da vida são como a vivência passada (nos construíram ou ainda nos constroem), e também, como as vivências futuras (nos reconstruirão a partir do que somos no momento). Eles fazem parte da nossa biografia. E biografias que só contam felicidades soam falsas, forjadas, não obstante; enfadam-nos por falta de emoção. O indivíduo só é completo quando passa por mais uma de fenômeno, um antônimo ao outro: jamais saberá o prazer de comer e analisará com calma a textura do alimento se nunca passou fome em sua vida, nem que seja por alguns minutos. Jamais saberá a sensação refrescante e aliviadora de beber um copo de água depois de um período de sede. E também, por mais doloroso que seja, jamais saberá o valor de um amor e quão efêmero pode ser se não cuidado, se não sofrer alguma decepção. Todos esses sentimentos nos ajudam a crescer. Saber lidar com a dor e transformá-la num fenômeno positivo, por mais estranho que o seja no momento em que você estiver passando, vai lhe apresentar um novo você, um novo eu, mais forte e mais experiente. Grandes tempestades são o prelúdio de lindas calmarias. Uma precisa da outra pra acontecer e ter sua proporção ideal. De falsidade, já chega o que fingimos ser e não somos, todos dias. Seria uma afronta ideológica de cunho malicioso retirar dados de nossa história de vida. Que nós aproveitemos cada momento.

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CRÔNICA DO LEITOR – UM DIA INESQUECÍVEL

Felipe Gisbert Nicoletti é publicitário, empresário e palestrante. Empreendedor nato, montou sua própria corretora de imóveis antes dos 30 anos. Amante das artes, resolveu se aventurar no mundo literáro!

Te busquei por volta das 11h da manhã. Você me mostrou seu primeiro chinelo sem elástico, que sua mãe comprou. Nos primeiros passos você parecia meio incomodada com o chinelo, que para mim era claramente seu processo de adaptação.
Despediu-se amorosamente da sua mãe, dizendo que a amava. Deu tchau para seus animais de estimação e entramos no carro do Vovô Tadeu. Passamos pela sua escolinha, e você disse: quero que volte logo as aulas.
Quando passamos por uma rua íngreme, me pediu para não subir, pois estava com medo. Mas logo no início da subida, te observando pelo retrovisor, o medo havia desaparecido do seu semblante, dando lugar a uma expressão de aventura e diverção. Já na descida levantou os braços em uma mistura de alegria e alívio.
Chegando na garagem do prédio do Vovô Tadeu, você me perguntou por que estava tão escuro, e após estacionar o carro e te tirar da sua cadeirinha, você ficou brevemente amedrontada.
Após ouvir a voz do vovô te chamando, tomou coragem e foi sozinha até seu encontro. Coragem essa que não durou nem dois segundos. O medo a fez correr novamente para minhas pernas.
Ao subir a rampa da garagem na cadeirinha, agora da bicicleta, o sol deu sua graça e a sua alegria em saber que iríamos andar de bicicleta, tomou conta de você. Expressar as emoções de forma espontâneas e verdadeiras em situações “pequenas” como essas, só uma criança consegue fazer.
Trocamos o caminho, viemos pela rua que existia a “batata gigante” e que alguém a comeu dali. Pegamos um rua com um novo teste de ciclovia em frente à Rodoviária, em que brincamos com os desenhos de um ciclista nas placas de sinalização. Passamos por baixo do viaduto, e finalmente chegamos no apartamento do papai.
Novamente, sua respiração fica mais ofegante ao entrar na garagem, descer da cadeirinha, esperar que eu guardasse a bicicleta, e ir em direção ao elevador. Tudo por “medo do monstrãoquepodeterescondidoemalgumlugar”.
Sua alegria em pular na minha cama era contagiante, e cada vez você pulava mais forte do que o pulo anterior.

Encheu muitos copos de água para darmos às nossas plantinhas.
Você desenhou enquanto eu fazia nosso almoço ao som de Bob Marley. Te contei que ele é maior de todos e você dançava com movimentos únicos, puros e criativos.
Me disse para não ter medo de fazer o suco de laranja na máquina, pois você estava ao meu lado. Comemos super bem.
Não quis descansar depois do almoço, pois queria brincar com o papai. Esgotou um pote de álcool gel, espalhando em seu corpo, no meu, da sua boneca, na sua neneca e no apartamento todo. Que bagunça maravilhosa! Estávamos livres do Corona vírus, rs.
Descemos para ver a Tia Clá, o Tio Lu e sua prima, a Lalá. Eles estavam do outro lado da rua, e com um leve incentivo meu, você bradou: Tio Luuuuuu.
Atravessamos a rua e ficamos conversando com eles, que ficaram dentro do carro. Pegamos o kit com uma máscara e faixa iguais da tia Cla e da Lalá, e tiramos uma foto. Despedimo-nos com a promessa de cantar parabéns para a prima Lala.
Fomos comer uma goiaba, e, sentados na mesa da cozinha, vc tirou sua chupeta e disse: Vou jogar, papai. Eu disse: Joga. E você jogou.
No mesmo instante que te parabenizei pela sua coragem, você começou a chorar, arrependida, dando-se conta de que havia perdido a chupeta “para sempre”. Lágrimas escorriam em seu rosto feito cachoeira (escrevo rindo esse parte, pois realmente foi muito engraçado sua mudança de expressão). Chorava a plenos pulmões, sentindo com a alma o impacto da perda de algo extremamente valioso na sua vida.
Conversamos bastante sobre as consequências de todas as nossas atitudes e lhe aconselhei a sempre pensar quantas vezes for necessário antes de tomar uma decisão grande em sua vida.
Saímos para comprar uma nova chupeta.
Era um dia de sol e o clima estava agradável para um passeio a pé. Você me pedia colo, eu dava com muito amor até meu braço pesar e te colocar no chão para descansar. Olhava você andando com seu novo chinelo sem elástico. Dez passos depois, você parava, erguia os bracinhos e pedia colo novamente. Ficamos assim por todo o trajeto no entorno do apartamento.
Andamos pelo trilho do trem, ignoramos um carro da polícia e ficamos espantados ao ver o focinho de um enorme cachorrão através de um buraco no muro.
Passamos por três garagens de prédios vizinhos, e nas três ocasiões, o medo, mesmo que muito brevemente, voltava a aparecer em você.
Ao retornar para casa, enchi uma pequena piscina de plástico que, ao invés de colocarmos água, serviu como uma barraca. Deitamos em sua cama e li alguns contos para você.
Banho sem lavar o cabelo, pijama e cozinha para fazer a janta. Enquanto o caldo de frango estava na panela, você pegou um refil de inseticida e fazia movimentos como se estivesse passando um spray-limpador de ambientes e armários, fazendo um barulho pela boca “tzi tzi”.
Sopa pronta, ficou muito apimentada e você tomou bastante água. Tive que esquentar o que tinha do almoço (macarrão com carne de churrasco).
Escovamos os dentes, arrumamos os brinquedos do seu quarto, você pulou um pouco mais na minha cama, fizemos o mamazinho, te embalei e você dormiu.
Escrevo esse texto com você ao meu lado, se remexendo e passando a neneca no rosto.
Lembrarei para sempre desse dia.
Te amo filha.

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Crônica Grazielle Pacini Segeti

CRÔNICA: POESIA DA VIDA

Vivemos uma era de ódio, ofensas e intolerância. O que estará faltando na vida das pessoas, além de educação e bom senso?

Há quem diga que alguns deveriam ter apanhado mais quando crianças, outros dizem que eles agem de determinada maneira por terem apanhado demais. Não existe uma resposta certa. A vida não é uma ciência exata, é uma ciência humana.

Ao contrário das ciências exatas onde, inquestionavelmente, dois e dois são quatro; nas ciências humanas as coisas têm brilho, vida, cor, têm humor e falta de humor, têm poesia.

A poesia é o melhor remédio para um coração partido, para o abandono, para uma comemoração; poesia é ritmo, é o nosso olhar para o mundo. Poesia é liberdade.

A cada dia compomos um poema diferente. Nosso levantar, nosso caminhar pela praia ou pelas ruas poluídas e congestionadas da cidade, nossa convivência diária, tudo é matéria para o poema que estamos traçando.

Alguns poemas são compostos na forma de um haikai, esses costumam ser mais tristes, nunca estamos preparados para uma poesia tão breve. Outros, assim como uma epopeia, levam anos para se completarem; meu avô produziu sua poesia por 94 anos, acho que meu pai parou cedo demais de escrever, encerrou aos 66 anos; ainda havia muito o que escrever.

Não precisamos buscar inspiração, a vida nos dá de presente.

Nossa poesia não precisa ser rebuscada e cheia de floreios, essas são mais chatas, as pessoas costumam não admirar muito, torna-se uma leitura cansativa. As poesias mais belas são as mais singelas, simples no vocabulário, fácil de ler e compreender. Essas são sinceras, são o espelho de nossas almas.

É crucial que nossa poesia seja repleta de amor. Não sabemos quando colocaremos nosso ponto final, mas todos os poemas o têm.

O que importa é que nosso texto permaneça vivo para que outras gerações o tomem de exemplo e apreciem sua leitura.