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Allan Fear Contos Terror

CONTO(TERROR): AMPUTAÇÃO

Jerby estava apreensivo quando ouviu o doutor chamar seu nome, levantou-se do banco de madeira em que assentava e deixou a sala de espera para adentrar o consultório com sua mão e braço direito enfaixados.

-Vejamos aqui, seu caso é amputação da mão direita, certo? – Falou o Dr. Breegas, um sujeito gordo com um rosto rosado e cabeça calva. Usava óculos de grau e um jaleco branco encardido.

-Sim doutor, essa mão é maligna. – Confessou Jerby assustado. O pequeno e magro rapaz tentava controlar seu braço direito que tremia compulsivamente dentro das faixas bem apertadas.

-Deite-se aqui meu jovem. – Falou o Dr. indicando uma maca enferrujada que ficava no centro daquele cubículo abarrotado de quinquilharias médicas que o denunciavam como uma clínica clandestina.

O Dr. Breegas aplicou a anestesia local no braço de Jerby e retirou as faixas bem apertadas. Enquanto executava essa ação ele arfava que nem um porco, suor lhe escorria da testa redonda. O ambiente era quente e abafado, o pequeno ventilador ao lado de um computador velho zumbia frenético.

-Sua mão parece boa meu jovem, tem certeza de que não quer deixá-la comigo? Eu daria um bom uso para ela.

-Não. Ela é má, precisa ser cortada e incinerada. Ela me obriga a fazer coisas…

-Tudo bem, então relaxe e me deixe cortá-la num minuto.

Um arrepio gelou o sangue nas veias de Jerby quando o Dr. Breegas começou a serrar seu pulso, decepando sua mão. Não havia dor, apenas a incômoda sensação de inércia do braço anestesiado e o ranger do osso sendo serrado.

Os nervos de Jerby estavam a flor da pele a medida que o Dr. serrava sua mão direita. O ruído de osso sendo cortado era repugnante.

Mas de repente a Dr. Breegas cuspiu uma maldição quando viu a mão do paciente cujo pulso já estava serrado pela metade começar a se mexer. Os dedos dançando loucamente como minhocas na terra.

Então a mão voltou sua palma aberta na direção do Dr. Breegas e avançou, enterrando os dedos nas suas órbitas.

Porém o Dr. Breegas foi hábil e a segurou pelo pulso, firmou-a sobre a bancada de metal onde fazia o procedimento, estendeu sua mão e pegou um cutelo em uma das gavetas e cortou o pulso de seu paciente, fazendo a mão insana cair no chão, onde ficou agitando seus dedos loucamente como uma aranha agonizando.

***

Alguns dias depois Jerby estava em sua casa. Era uma manhã fria e agradável. Ele trocava os curativos de seu cotoco ainda com pontos. Ele estava feliz por não ter mais aquela mão maligna que o havia colocado tantas vezes em perigo.

As lembranças amargas ainda serpenteavam por sua mente assustada.

De um dia para o outro sua mão havia se tornado má, primeiro ela se ergueu de forma involuntária e empurrou seu melhor amigo na frente dos carros quando iam atravessar a avenida fora da faixa de pedestres. Jerby se safou por pouco de mandar o amigo para a morte, conseguindo alegar um acidente.

Depois a mão quase sufocou sua namorada, quando ela lhe pagava um boquete, pressionando sua cabeça enquanto seu membro entalava em sua garganta.

E por fim, numa bela noite, ele despertou com sua mão psicótica tentando esganá-lo.

Jerby havia tomado uma decisão difícil; tornar-se um maneta! Mas pelo menos assim ele poderia ser ele novamente, um rapaz pacato que mora sozinho e trabalha em uma repartição pública.

A campainha tocou tirando Jerby de seus pensamentos amargos. Ele finalizou o curativo e caminhou até a porta de sua casa, abriu-a e o carteiro lhe saudou entregando-lhe uma caixa. Ele assinou e voltou para dentro de seus aposentos.

Jerby foi para a mesa e abriu a caixa, contente e animado ao descobrir que era a prótese que ele havia encomendado. Gastara uma pequena fortuna com a operação e com sua nova mão mecânica. Mas agora tudo seria normal novamente.

No interior da caixa estava aquela bela mão de metal revestida com silicone imitando pele humana.

Tão logo Jerby a ligou e cuidadosamente a colocou no pulso, encaixando-a firmemente, ele sentiu os dedos se mexerem contra sua vontade. Ele tentou retirar a prótese, mas esta lhe deu um bote certeiro como uma cascavel, grudando e apertando sua garganta com uma força sobre-humana.

            Naqueles míseros instantes de vida, Jerby descobriu que o mal não residia em sua mão, mas talvez, de forma ainda mais medonha, estivesse se apossado de seu braço como uma maldita célula cancerígena e agora, com uma mão mecânica possuía força suficiente para esganá-lo.

Um gemido espantoso escapou dos lábios rachados de Jerby quando sua nova mão mecânica esfrangalhou sua traqueia fazendo sua cabeça cair de lado em meio a um chafariz de sangue.

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Adriano Besen Contos

CONTO: A CASA DA ESTRADA VELHA

Todos tinham medo de passar pela estrada velha, também conhecida pelo nome de Rua das Hortênsias. Passar por lá no meio da noite, nem pensar. É um local deserto, apesar de ser um lugar muito bonito e de uma beleza natural fantástica. Tem hortênsias em ambos os lados da estrada; em toda a sua extensão, tornando a rua um lindo corredor enfeitado de flores. Um cenário digno de ser exibido como uma pintura em um quadro.

Nessa estrada, existe uma casa abandonada com uma única árvore na frente; um pé de Cipreste, a árvore símbolo da morte. Na casa hoje abandonada e caindo aos pedaços, morou uma solitária senhora chamada Valquíria. Reza a lenda que a dona Valquíria caiu no lago que fica atrás da casa e o seu corpo jamais foi encontrado. Outro fato bastante curioso é o significado do nome Valquíria: “aquela que escolhe os que vão morrer” ou “aquela que escolhe os mortos”.

Dizem que após a morte da senhora Valquíria, a estrada velha se tornou um lugar assombrado; como se estivesse sido amaldiçoado.  As pessoas que passavam por lá afirmavam que sentiam calafrios e sensações desagradáveis. Por esse motivo, nenhuma casa foi construída naquela rua; apesar de tanta beleza no local. Nunca deixou de ser uma bonita estrada, com uma única casa antiga abandonada e com um solitário guardião na frente da residência; o pé de Cipreste.

Certo dia, um padre foi até a casa abandonada da senhora Valquíria com a intenção de fazer algumas orações nos arredores da propriedade. O religioso queria trazer a paz Divina, lançando suas bênçãos. Porém, ao circundar o macabro pé de Cipreste, a porta da frente da casa abandonada se abriu e de lá, saiu o cadáver putrefato e desfigurado de dona Valquíria, caminhando na sua direção. Uma aparição horripilante. O padre saiu em desespero e logo, a notícia do que presenciou já havia se espalhado por toda a cidade. O santo padre só confirmou o que as pessoas já desconfiavam.

Depois disso edificou-se a lenda de que, a pessoa que chegar à casa da estrada velha, Rua das Hortênsias e caminhar ao redor do pé de Cipreste, será perseguida pelo horrendo cadáver da dona Valquíria. Dizem que diversas pessoas desapareceram na região próxima a funesta propriedade. Acredita-se que a senhora Valquíria afoga suas vítimas no lago atrás da sua casa. Teriam essas pessoas, caminhado ao redor do pé de Cipreste? Teriam sido essas pessoas, vítimas do apavorante cadáver de dona Valquíria? Você teria coragem de passar pela estrada velha no meio da noite? Eu não.

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Adam Mattos Contos

CONTO: ESCURIDÃO DO INFINITO

“A escuridão se assemelha ao mais profundo breu do infinito, sem estrelas, sem brilho, sem alma.”

Abre os olhos e depara-se com aqueles olhinhos azuis olhando diretamente para os seus, ele segura o bebê por baixo dos bracinhos o deixando sentado em seu colo. A sensação que experimenta é a mais inexorável paz, daquela que é impossível sentir não estando completamente sozinho, envolto em si sem a mais ínfima das interferências exteriores. Mas olha só. Sente a mesma coisa estando com seu filho no colo. Uma conexão nunca possível sem a solidão, e mesmo assim ele está ali, em dois, como se fossem apenas um.

Não consegue parar de sorrir, olha para aquele rostinho redondo como um pedaço inteiro de queijo de fazenda e faz caretas tentando absorver qualquer resquício de sorriso que possa sair daqueles lábios rechonchudos e perfeitos – puxou da mãe -. O bebê olha para ele, balança os bracinhos para lá e para cá e sorri completo, como um belo livro de poesias, com começo, meio e fim, mesmo que não nessa ordem. Ele fica tão feliz com a interação do garotinho que começa a gargalhar debilmente. Se alguém pudesse ver a cena de fora, veria a sinestesia em que tudo acontecia. Ele sentia o gosto do sorriso do seu filho e o filho ouvia atentamente o olhar do pai. Aquilo continuou pelo que pareceu a travessia do deserto pelos hebreus, como se estivessem andando em círculos, ou seria um looping? Ele não sabia, mas não queria que acabasse nunca.

Uma mosca começa a voar, saltando de cima do batente de uma porta de madeira, voa pelo ambiente a procura de alimento, qualquer resto pútrido de comida ou animal morto seria uma iguaria. Pousou no chão. Em sua frente tinha algo molhado, era água, ou não, não dava para identificar. Chegou mais perto e arriscou sugar um pouquinho, ela não sabia, mas era uma poça de urina. Ela não gostou, decolou novamente pelo ambiente e em seus poucos dias de vida, aquilo ali podia ser o seu universo, a sua imensidão infinita da solidão. Aterrizou em algo que parecia comestível. Era vermelho, e ela soltou um pouco de saliva em cima para sugar em seguida. O que a mosca come é vômito misturado com sangue, muito sangue. Decola novamente e depara-se com algo peludo, ela nunca viu nada igual, nem podia, pois acabara de desabrochar para a vida e ainda descobria as particularidades do seu mundo. Foi andando por aquela superfície inóspita, quando de um movimento tão rápido quanto inesperado, uma mão a esmagou contra a própria cabeça deixando o cadáver da mosca incrustado em seus cabelos.

O Homem que acabara de esmagar a mosca com uma mão, com a outra segura um cadáver de bebê, roxo e endurecido, já nos primeiros estágios de putrefação. Ele volta a mão para baixo dos bracinhos imóveis do filho e ri, faz caretas e pede desesperadamente que seja correspondido, e quando a sua imaginação lhe leva para longe da realidade imensuravelmente mórbida, envolto em sua loucura, responde com aprovação quando o bebê sorri em retribuição.