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Jessica Iancoski Poesia

POESIA: PINGAM AS ROSAS AZUIS

No criado-mudo repousam rosas azuis 

                  [respeitando a neblina do silêncio.

Um Relógio pendula o tempo, debatendo-se

Oscilam-se os lados,

hora-esquerda,

hora-direita.

Uma rósa chóve outrá  balançá

Desprende-se

e píngá ´´´´´´´´´´:

E cai nos azulejos

Pétalas de rosas deslizam como lágrimas regando 

                                              [de azul a superfície.

Então paro, me pergunto

E desabo-tou:Quantás-batídás-até-que-se-caule?_ _ _ _ _

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Déa Araujo Poesia

POESIA: TEMPO AO TEMPO

Penso que o tempo não tem tempo para mim…

O meu amor não floresce
Nenhuma noite amanhece
Meu dia não anoitece
E nenhum sonho acontece
Minha dor não adormece
Tampouco a alma se aquece
Será mesmo que o tempo não tem tempo para mim,

ou eu que não dou tempo ao tempo?

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Sem categoria

CRÔNICA DO LEITOR – UM DIA INESQUECÍVEL

Felipe Gisbert Nicoletti é publicitário, empresário e palestrante. Empreendedor nato, montou sua própria corretora de imóveis antes dos 30 anos. Amante das artes, resolveu se aventurar no mundo literáro!

Te busquei por volta das 11h da manhã. Você me mostrou seu primeiro chinelo sem elástico, que sua mãe comprou. Nos primeiros passos você parecia meio incomodada com o chinelo, que para mim era claramente seu processo de adaptação.
Despediu-se amorosamente da sua mãe, dizendo que a amava. Deu tchau para seus animais de estimação e entramos no carro do Vovô Tadeu. Passamos pela sua escolinha, e você disse: quero que volte logo as aulas.
Quando passamos por uma rua íngreme, me pediu para não subir, pois estava com medo. Mas logo no início da subida, te observando pelo retrovisor, o medo havia desaparecido do seu semblante, dando lugar a uma expressão de aventura e diverção. Já na descida levantou os braços em uma mistura de alegria e alívio.
Chegando na garagem do prédio do Vovô Tadeu, você me perguntou por que estava tão escuro, e após estacionar o carro e te tirar da sua cadeirinha, você ficou brevemente amedrontada.
Após ouvir a voz do vovô te chamando, tomou coragem e foi sozinha até seu encontro. Coragem essa que não durou nem dois segundos. O medo a fez correr novamente para minhas pernas.
Ao subir a rampa da garagem na cadeirinha, agora da bicicleta, o sol deu sua graça e a sua alegria em saber que iríamos andar de bicicleta, tomou conta de você. Expressar as emoções de forma espontâneas e verdadeiras em situações “pequenas” como essas, só uma criança consegue fazer.
Trocamos o caminho, viemos pela rua que existia a “batata gigante” e que alguém a comeu dali. Pegamos um rua com um novo teste de ciclovia em frente à Rodoviária, em que brincamos com os desenhos de um ciclista nas placas de sinalização. Passamos por baixo do viaduto, e finalmente chegamos no apartamento do papai.
Novamente, sua respiração fica mais ofegante ao entrar na garagem, descer da cadeirinha, esperar que eu guardasse a bicicleta, e ir em direção ao elevador. Tudo por “medo do monstrãoquepodeterescondidoemalgumlugar”.
Sua alegria em pular na minha cama era contagiante, e cada vez você pulava mais forte do que o pulo anterior.

Encheu muitos copos de água para darmos às nossas plantinhas.
Você desenhou enquanto eu fazia nosso almoço ao som de Bob Marley. Te contei que ele é maior de todos e você dançava com movimentos únicos, puros e criativos.
Me disse para não ter medo de fazer o suco de laranja na máquina, pois você estava ao meu lado. Comemos super bem.
Não quis descansar depois do almoço, pois queria brincar com o papai. Esgotou um pote de álcool gel, espalhando em seu corpo, no meu, da sua boneca, na sua neneca e no apartamento todo. Que bagunça maravilhosa! Estávamos livres do Corona vírus, rs.
Descemos para ver a Tia Clá, o Tio Lu e sua prima, a Lalá. Eles estavam do outro lado da rua, e com um leve incentivo meu, você bradou: Tio Luuuuuu.
Atravessamos a rua e ficamos conversando com eles, que ficaram dentro do carro. Pegamos o kit com uma máscara e faixa iguais da tia Cla e da Lalá, e tiramos uma foto. Despedimo-nos com a promessa de cantar parabéns para a prima Lala.
Fomos comer uma goiaba, e, sentados na mesa da cozinha, vc tirou sua chupeta e disse: Vou jogar, papai. Eu disse: Joga. E você jogou.
No mesmo instante que te parabenizei pela sua coragem, você começou a chorar, arrependida, dando-se conta de que havia perdido a chupeta “para sempre”. Lágrimas escorriam em seu rosto feito cachoeira (escrevo rindo esse parte, pois realmente foi muito engraçado sua mudança de expressão). Chorava a plenos pulmões, sentindo com a alma o impacto da perda de algo extremamente valioso na sua vida.
Conversamos bastante sobre as consequências de todas as nossas atitudes e lhe aconselhei a sempre pensar quantas vezes for necessário antes de tomar uma decisão grande em sua vida.
Saímos para comprar uma nova chupeta.
Era um dia de sol e o clima estava agradável para um passeio a pé. Você me pedia colo, eu dava com muito amor até meu braço pesar e te colocar no chão para descansar. Olhava você andando com seu novo chinelo sem elástico. Dez passos depois, você parava, erguia os bracinhos e pedia colo novamente. Ficamos assim por todo o trajeto no entorno do apartamento.
Andamos pelo trilho do trem, ignoramos um carro da polícia e ficamos espantados ao ver o focinho de um enorme cachorrão através de um buraco no muro.
Passamos por três garagens de prédios vizinhos, e nas três ocasiões, o medo, mesmo que muito brevemente, voltava a aparecer em você.
Ao retornar para casa, enchi uma pequena piscina de plástico que, ao invés de colocarmos água, serviu como uma barraca. Deitamos em sua cama e li alguns contos para você.
Banho sem lavar o cabelo, pijama e cozinha para fazer a janta. Enquanto o caldo de frango estava na panela, você pegou um refil de inseticida e fazia movimentos como se estivesse passando um spray-limpador de ambientes e armários, fazendo um barulho pela boca “tzi tzi”.
Sopa pronta, ficou muito apimentada e você tomou bastante água. Tive que esquentar o que tinha do almoço (macarrão com carne de churrasco).
Escovamos os dentes, arrumamos os brinquedos do seu quarto, você pulou um pouco mais na minha cama, fizemos o mamazinho, te embalei e você dormiu.
Escrevo esse texto com você ao meu lado, se remexendo e passando a neneca no rosto.
Lembrarei para sempre desse dia.
Te amo filha.

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Paulo José Brachtvogel Poesia

POESIA: QUIMERA

A madrugada está fria.


Meus pensamentos, como as nuvens, pairam sobre o mar,


Ouço sua poesia de sons…


Meu sono navega em meio às culapadas, à procura da calmaria…

Passa das três, ela deve estar dormindo


Procuro a constelação de Órion, o caçador e seus dois Cães…


As estrelas brilham cintilantes, como refletissem a beleza dos seus olhos…

Passa das três, e no balanço das ondas deixo-me levar…


no conforto do travesseiro, meu parceiro, que tudo sabe.


É ele que sopra os versos enquanto sonho…

São oito e oito. A contragosto, do sonho desperto.


Mesmo acordado, continuo enamorado,


Perco-me subitamente nas curvas do riso daquela pequena…

Sem perder-se da vigília o coração pulsa…


A razão estremecida de vaidade, ergue e revela-se:


“Acorda-te, já te perdestes de novo?


Essa alma de poeta, coloca amor e paixão em tudo…”

Olhar quimérico, complacente,


Vejo a pedra sob a cachoeira,


Impacta sobre ela a pressão das águas,


Com o tempo ela muda,


Torna-se resvaladiça, lapida-se!


Se ela pudesse, sairia dali?


Se saísse, continuaria mudando?


Voltaria a ser bruta?

“Desadormece-te poeta desta abstração!


Ama e observa a natureza,


Pertences a ela, pertences a ti…


Sente o perfume das flores,


Senta-te na sombra da figueira,


Fica aqui, no alto rodeado de verde,


Observa lá longe e sem saudade


Os muros de concreto que a humanidade tanto ama”!

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Contos Tim Soares

CONTO: SETE VIDAS

O que é a vida?
Há quem acredite que a vida não passe de um grande laboratório para um grande ciclo posterior. Então a nossa estadia aqui na terra seria uma preparação para o que viveremos depois em algum outro lugar. Na minha mais humilde e sincera opinião, não faço a menor ideia.
Bom, meu nome é Daniel Dhundee e eu nasci com uma terrível maldição: sete vidas. Sim, como um gato. Mas tudo na vida tem um preço e essa sim é uma certeza da qual eu tenho a mais profunda convicção. N’uma espécie de brincadeira de mau gosto, fui condenado a morrer sempre que me apaixonasse.
É, eu sei, você deve estar pensando ‘então não se apaixone, idiota’.
Mas as coisas não funcionam assim. Essa parada de amor definitivamente está fora do nosso controle. Você não escolhe se apaixonar, simplesmente acontece e não há nada que se possa fazer, acredite!

Minha epopeia desastrosa começou quando conheci o meu primeiro amor, Olga, no último ano do colégio. Era uma garota legal, bonita e dois anos mais velha do que eu. Apaixonar-se pela primeira vez é experimentar o sentimento mais bizarramente profundo que já havia conhecido. Aparentemente, esse sentimento era recíproco da parte de Olga, o que tornava a coisa toda ainda mais intensa. Acontece que n’uma bela tarde, depois de leva-la para tomar um sorvete, a acompanhei até o prédio em que ela morava, e ao sair do prédio e atravessar a rua, fui atropelado por um caminhão. Morri na hora.

Minha segunda vida, perdi no México. Ah, o México! Fui para lá n’uma daquelas viagens em que tinha como intuito farrear, encher a cara e conhecer mulheres. Fui a uma festa com uns amigos e lá conheci Maitê. Nossos olhos se encontraram depois que ela terminou de entornar uma garrafa de cerveja. Um daqueles raros casos de amor à primeira vista. Cheguei chegando e mesmo com um espanhol bem mais ou menos, consegui me fazer entender. Saímos da festa e fomos até uma praia próxima dali. Conversamos, nos beijamos. Uma daquelas noites em que tudo está jogando ao nosso favor. Então decidimos tomar um banho de mar. Tudo às mil maravilhas até eu morrer afogado.

A terceira vida se foi depois que conheci Nadja. Aquela loira russa era um verdadeiro demônio do sexo. A garota mais pirada que eu já conheci. Durante uma puta chuva, resolvemos ir transar no gramado do jardim. Era um dos muitos fetiches que ela tinha. Foi uma delícia e quando eu estava voltando para dentro de casa, um raio caiu. Agora eu só tinha mais quatro.

Morri pela quarta vez no Madison Square Garden durante um show de Simon & Garfunkel. Um baita público por sinal, mas aparentemente sem nenhum médico. Eles estavam tocando “The sound of silence”, a música predileta de Jéssica, minha noiva, e uma das minhas canções prediletas também, quando eu simplesmente enfartei e morri. De novo!

Depois veio Fernanda e aqueles cachinhos. Uma adorável tagarela que sonhava descobrir onde Elvis estava escondido. A garota mais engraçada que já conheci. Passamos a semana inteira indo à uma dessas redes de fast food que estavam dando bonequinhas cabeçudas. Fernanda queria todas as bonequinhas e então na quinta-feira, depois de uma de suas muitas gracinhas que ao cair na gargalhada, me engasguei e morri sufocado com a droga de um hambúrguer.

A sexta vida, perdi depois de conhecer Rebecca, a bibliotecária da faculdade. Uma mulher linda, inteligente e elegante. Uma das paixões mais arrebatadoras que já senti. Mas ela não me quis e pela primeira vez, experimentei o pior de todos os sentimentos humanos, a rejeição. Morri de tristeza.

Estou na sétima e última vida. Já conheci uma garota legal e acho que já estou me apaixonando. É, eu sei, eu sei. Logo eu vou morrer pela última vez. Não haverá outra vida, outra chance, outra oportunidade. Eu morrerei e será o fim de uma vez por todas. Paciência!
Fico pensando nos gatos, será que eles se apaixonam por sete vezes? Se for esse o caso, felizes são os gatos.