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Carolina Gama Poesia

ENQUANTO DURAR

Espero que seja real. Espero que seja único e revestido de realidade, tal qual o desejo de qualquer pessoa. Enquanto durar, que seja desafiador, merecedor, distante, aproximado e próspero. Que seja o que vai e volta, a famosa via de mão dupla e não uma espécie de troca mentirosa – unilateral. 


Enquanto durar, eu quero os sonhos. Almejar o tempo de vida juntos e a história a ser construída do pensamento ao lençol. Eu quero o tamanho certo de cada coisa comprada, eu quero a fonte exata da risada que te derruba e quero a minha lama ali, entrelaçada à alma, ainda que pressuponha diferenças irreconciliáveis no final. 

Enquanto durar, eu quero que dure. Só isso. Que seja pleno o bastante pra acordar pequeno e amanhecer triplicado. Que seja sentimento suficiente pra confundir e difundir a ideia de que somos de nós mesmos, mas somos um do outro o tempo todo. 
E espero que seja real. Eu realmente espero. 

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Jessica Iancoski Poesia

POESIA: SAPATOS VELHOS

– Aos meus vans rasgados e cinzas.

Envelheço junto dos meus sapatos velhos

E exaustos

      com a sola dos anos gastos_________

E cada caminhada_____

                                        mais me assola

Ficamos mais sujos~~~~~~~~~~~~~~~~~~

E mais gastos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

                             e fora de moda.___________________________________

Seria antiquado dizer, ______________________________________________

Se não fosse verdade_______________________________________________

         que por vaidade_______________________________________________

          querem nos aposentar _________________________________________

                numa lixeira______________________________________como eles.

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Contos Lorrayne Saraiva

CONTO: OS FANTASMAS DE ELVIRA

Elvira acordou, abriu devagar os grandes olhos escuros acetinados – como seu penhoar pendurado na maçaneta da porta – e erguendo seu alquebrado corpo pela incômoda noite de sono, pisou os pés velhos no chão. Joanetes e unha encravada tocando o porcelanato frio, trouxeram um suave arrepio pelo seu corpo.

Quem era Elvira? Por que isso importa? A própria dizia que não era ninguém. “Alguém que ficou para trás”, afirmava lamuriosa. Quase não saía mais, salvo as idas ao mercado popular às segundas, pela manhã. Parou de encontrar-se com suas amigas, e em dias mais pestilentos, nem sequer abria as cortinas.

“Os fantasmas”, dizia ela em voz alta para ninguém, “os fantasmas me tomam muito tempo.” Olhava para a sala de estar e balançava a cabeça. “Eles me cansam”, reclamava para o vazio.

Toda vez que ia preparar para si um bom assado, ou mesmo um relaxante banho de banheira, era observada e vigiada por eles – os fantasmas. Ficava louca! Aborrecida, arremessava vasos de porcelana na parede. Dias e dias se passavam até que ela tivesse a disposição de varrer os cacos. “Tudo culpa de vocês!” Praguejava no auge de sua irritação.

As vezes, chorava. E para cada lagrima derramada, havia um fantasma para lhe trazer o consolo. “Não quero falar com vocês”, dizia dengosa, mas depois já estava usando o corpo translúcido de um deles como lenço. 

Naquela manhã específica, estranhou a quietude e serenidade da casa. Nenhum fantasma cantarolava, dançava, ou fazia qualquer tipo de artimanha. E Elvira, que tanto reclamava da falta de sossego, sem seus queridos amigos incorpóreos, sentiu-se horrivelmente sozinha.

Foi até o pátio, e observou o balanço; este movia-se lentamente pelo toque de uma cálida brisa. Não era porque o traseiro de um fantasma o balançava, era apenas o vento, concluiu desanimada. Entrou novamente em casa, e caminhou pelo corredor que ligava os quartos e banheiros. Continuou avançando até encontrar-se novamente na sala de estar. Fitou o piano que ficava no canto esquerdo da sala, próximo do abajur de cúpula em forma de colmeia, e da pequena estante de ferro. Nenhuma tecla se moveu. Nenhuma nota ecoou. 

Preocupada com o sumiço dos fantasmas, Elvira exclamou sua dúvida com as mãos para cima. Mas ninguém respondeu, tudo o mais parecia adormecido.

Exausta e inteiramente só, com um peso do que parecia ser uma derrota nas costas, deitou-se no sofá e logo caiu em sono profundo. Em meio ao cenário enevoado que surgiu debaixo de suas pálpebras, viu que estava no topo plano de uma montanha, com grama verde e uma ou outra árvore magra. Diante de si, um penhasco se estendia, e do outro lado, podia se avistar um outro topo de montanha, exatamente igual ao que ela estava; com seus amigos fantasmas acenando.

“Venha! Pule, você consegue!” Um deles gritou. Os outros uivavam, e balançavam os braços finos, transparentes. Confusa, mas feliz por revê-los, Elvira lamentou que um derradeiro precipício os separasse.

“Venha! Junte-se a nos! Pule!” Eles continuavam dizendo. E quando estava prestes a saltar, Elvira recuou, e eles ficaram a observá-la. O vento fazia seu cabelo chicotear em sua face, e mesmo sob a ameaça de jamais se juntar à eles novamente, Elvira sabia que, havia um motivo para que ela estivesse do lado oposto ao deles.

“Adeus”, disse Elvira. Os fantasmas com suas peles de vidro ainda a observando. “Adeus!”

Quando finalmente abriu os olhos daquele cochilo, a hora do almoço se aproximava. “Esqueci que estava viva!” Pensou outra vez em voz alta. “Esqueci da vida!”

O som alto da campainha, a fez saltar de susto. Com passos de senhorinha, rumou até a porta, e ao abri-la, soltou um suspiro de alívio; era Rita sua amiga e vizinha, Morta há mais de vinte anos.

“Amiga querida!” Exclamou. “Entre, tenho tanta coisa para lhe contar…”

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Jeane Tertuliano Poesia

POESIA DAS ERAS

É um desafio diário abraçar

o eu que habita o âmago

e permitir que a sua essência

flua l i v r e m e n t e.

Entretanto,

ser ferida pelos espinhos

é algo efêmero

quando comparado ao deleite

de rimar à flor da pele,

sentindo o lirismo

que a natureza

sopra no andarilhar

de cada verso

ecoado de mim

para mim mesma.

Eu acredito piamente

que A Poesia das Eras

nos privará

do Hediondo Findar

que nos aguarda

à espreita

de um amanhã

em iminente

desabrochar.

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Hanna Carpeso Poesia

POESIA: EU SONHO O MUNDO E JOGO EM CAMPO ABERTO

Eu sou o Mundo.

Vago orbe – sem limite

         Adentrado em campo estrelado

         Mar de ar me reveste com cuidado 

Giro na roda do fogo

Rodopio entre dia e noite

         No tapete escuro sideral

         Sou bola azul, a jogar no gramado espacial.

Acredito ser único – planeta vivo

Apartado o céu da terra – delineado

         Driblando  livre pelo firmamento 

         Onde encontro assento

         Num jogo  de avassaladores

Sou  um mundo particular – do eu

Sou um  mundo universal- do seu

         Sei que o jogo é  marcado pelo  tempo

         A escoar na  ampulheta  cósmica

         Mesmo com atividades sísmicas

Sou um mundo jogador

O que  veio para  mudar e ficou

         Faço meu jogo bem pensado

         Pois são dois tempos  bem marcados

Sair de rotas programadas

 Quebrar regras alinhadas

         Passar dos 45 minutos solar

         Terminar nos 45  minutos luar

Colidir   com um cometa

Para subtrair sua proeza

Riscar o céu com a certeza

De se tornar vencedor

         Enquanto um tiro de meta

         Desobedece ao  juiz

Desafio  de um corpo celeste apagado

Na busca de brilho  ousado

         Corro pela lateral em busca

         De um buraco negro

         E nele meter um gol

 Ser um mundo destacado

 Pelo universo invejado

          Arremetido ao pódio 

          E ser cantado por trombetas

         Eis o sinal da vitória

E na glória de ser o rei

Em sol se transformar