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Jeane Tertuliano Poesia

POESIA: NORDESTINA RAIZ

Não ousarei titubear

ante o inquietante oscilar

do teu pensamento.

Tal qual Edgar Allan Poe,

se convencida estou,

não busco convencer.

Minha gana reluzente

não se põe descontente

ao vislumbrar obstáculos,

pois ela bem sabe:

a delirante hesitação

é o prenúncio do fracasso.

Eu sou nordestina de raiz

com muito forró nos quadris!

Se o ritmo vier a mudar,

ao novo compasso

irei me adequar,

porque eu sou mulher,

nasci pronta para guerrear!

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Adam Mattos Contos

CONTO: PAULO E LIZA

Paulo estava andando pela rua, cabisbaixo, pensando nas perdas que sofreu na vida. Primeiro, quando criança, seu cachorro Pitty fugiu de casa, causando-lhe um sofrimento igualável a perda de um familiar, depois, quando era um pouco mais velho, tinha uns dezessete anos, seu pai o abandonou, deixando-o sozinho com sua mãe. Quando adulto, morava sozinho e tinha a sua independência — um bom emprego, uma namorada que amava — sua mãe faleceu abruptamente, de um ataque cardíaco fulminante, deixando-o praticamente órfão. E Meses depois, em um dia que estava com uma enxaqueca lancinante, saiu mais cedo do trabalho e encontrou a namorada na cama com outro homem. Sua reação foi apenas de chorar ao ver os dois se vestirem e saírem da casa, nesse dia a namorada saiu para sempre da sua vida. Dois anos depois, quando já tinha quarenta e dois anos, depois de uma crise arrebatadora que assolou o país, ele foi demitido por conta da contenção de despesas. E era nessa situação em que Paulo se encontrava agora, andando pela rua, sem perspectiva e pensando em como a vida tinha sido injusta com ele até então. Ele precisava do que os americanos chamam de um break, uma pausa, que algo bom acontecesse para que a vida voltasse a ter sentido.

Distraído, ele acabou trombando com uma mulher que vinha apressada na direção oposta carregando uma pilha de papéis, derrubando-os no chão. Paulo imediatamente pediu desculpas e começou a ajudar a moça a recolhê-los, foi então que seus olhos se encontram e eles pararam de súbito. Algo aconteceu ali, nem ele e nem ela sabiam explicar, mas era como se já se conhecessem há muito tempo. Quando terminaram de recolher todos os papéis, ele prontamente se apresentou:

— Me chamo Paulo, muito prazer.

— Sou Elizabete, mas pode me chamar de Liza. O prazer é meu.

— Olha, me desculpe o atrevimento, mas isso não acontece comigo com frequência. Você poderia me passar o número do seu telefone?

Liza sorriu e prontamente pegou o celular dele, anotou o dela e disse:

— Me ligue. Vamos sair qualquer hora para tomar uma cerveja.

Paulo se despediu e continuou andando, ouvindo os passarinhos cantarem. A vida parecia bela novamente, tudo aquilo que vinha o deprimindo agora parecia apenas uma lembrança longínqua de um passado distante. Ele era feliz novamente. Uma mulher linda, que aparentava ter uns vinte e poucos anos, tinha se interessado por ele. Ele não via a hora de ligar e marcar para sair com ela.

A semana correu normalmente, Paulo não tinha muito o que fazer, já que estava desempregado. Mas isso não o deprimia mais, ele não via a hora de chegar quinta-feira para ligar para Liza. Chegando o dia, ele ligou:

— Alô?

— Alô, Liza?

— Isso, quem fala?

— É o Paulo. A gente se esbarrou na rua, tá lembrada?

— Ah! Oi, Paulo, claro que sim. Tudo bem? Achei que não ia me ligar mais.

— Desculpe, é que a semana foi corrida. Mas, e aí? Topa aquela cervejinha no sábado?

— Claro, topo sim. Para onde você quer ir?

— Tem um barzinho no Batel, o Shadow, que eu gosto muito. Conhece? 

— Conheço sim, já fui algumas vezes, também gosto de lá.

— Que tal a gente se encontrar lá às sete da noite? O que acha?

— Por mim está ótimo.

— Maravilha, marcado então. Um beijo e até lá!

— Um beijo. Até.

Paulo desligou o telefone e mal podia se conter de tanta alegria, tinha conseguido um encontro com uma mulher linda, depois de tanto tempo.

Sexta-feira foi ao cabeleireiro para cortar o cabelo e fazer a barba, saindo de lá foi direto ao shopping comprar uma roupa nova para o encontro. Ele comprou uma calça de sarja branca e uma camisa social preta para combinar com o seu sapato, gastou quase toda a sua economia, mas valeria a pena.

Chegando o grande dia, ele se arrumou, passou o perfume Carolina Herrera 212 quase no final, e foi para o bar às seis da tarde para ir tomando umas cervejas, assim, quando ela chegasse, ele estaria um pouco mais desinibido.

Às sete e quinze da noite Liza chegou ao Shadow e já o avistou de longe.

Meu Deus, como ela é linda, ele pensou. A sensação de que já a conhecia se tornou mais forte. Era o destino falando mais alto, só podia ser.

Eles se sentaram à mesa e começaram uma conversa, que fluía como se já fossem velhos amigos. Ela contou que era advogada recém-formada e estava trabalhando em uma firma de renome em Curitiba. Paulo não teve coragem de dizer que estava desempregado, não ainda, afinal, ele queria conquistá-la primeiro, por isso disse que ainda estava trabalhando em seu antigo emprego, fora isso foi supersincero com ela, pois parecia que podia confiar naquela estranha completamente. Dessa vez o cupido tinha agido da maneira correta e ele achava que finalmente tinha achado a mulher certa.

Eles ficaram no bar até uma da madrugada, quando ele a convidou para ir ao apartamento dele, convite esse que foi prontamente aceito. Lá chegando, abriram uma garrafa de vinho e começaram a se beijar. Ela relutou por um instante dizendo que nunca tinha ido para a cama com alguém na primeira noite, mas que aquele não era um encontro comum, ela sentia algo diferente e sabia que ele também sentia. A coisa foi esquentando e foram para a cama, fizeram amor e, no final, ele arriscou um “Eu te amo” para ela, que, assustada, retribuiu a gargalhadas “Eu também te amo”. Os dois estavam vivendo a história de amor da vida deles.

De manhã, quando ela estava tomando banho, ele viu a carteira dela aberta em cima criado-mudo ao lado da cama e deu para ver o RG. Algo que ele não sabia ao certo o que era o fez pegar o documento dela. Seu coração parou por um segundo quando viu o nome do pai dela, Joarez Silvério Stroberg de Azevedo, foi então que entendeu imediatamente o motivo de tanta afinidade. Ela era a sua irmã.

Conto que integrará o livro: Devaneios de uma mente perturbada”

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Laura Assis Poesia

POESIA: PRELIMINAR FEBRIL

A chuva caindo fina, morna

Me observando através da vidraça

E me prendendo numa mordaça

Em ebulição o que eu sinto, entorna

Eu tiro cada peça de roupa lentamente

Observada apenas pela chuva leve

Que se caísse sob minha pele, seria neve

Desaparecendo ligeira e sutilmente

Ansiava que você me observasse

Por trás de uma cortina, de uma lente

E talvez pudesse ler a minha mente

Surgindo à minha porta, me abraçasse

E eu abandono a chuva, a janela

E me sento em frente ao espelho, reflexo

Sinto minha pele, meu corpo, o sexo

Quase nua e no som a voz de Ella

Caras e bocas me olhando, pensando

Se assim fico mais sexy ou mais bela

Fecho os olhos, te vejo numa tela

E danço pra você me insinuando

Me desmancho, me envaideço

Seus dedos percorrem meus cabelos

Tocam todos os meus pelos

E de mim, quase me esqueço

Não abro os olhos, tão covarde

E todo o seu corpo toca o meu

Como se ele ainda fosse seu

E o desejo contido arde…

Você encontra essa e muitas outras em www.veredassentimentais.com.br

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Carolina Gama Poesia

ENQUANTO DURAR

Espero que seja real. Espero que seja único e revestido de realidade, tal qual o desejo de qualquer pessoa. Enquanto durar, que seja desafiador, merecedor, distante, aproximado e próspero. Que seja o que vai e volta, a famosa via de mão dupla e não uma espécie de troca mentirosa – unilateral. 


Enquanto durar, eu quero os sonhos. Almejar o tempo de vida juntos e a história a ser construída do pensamento ao lençol. Eu quero o tamanho certo de cada coisa comprada, eu quero a fonte exata da risada que te derruba e quero a minha lama ali, entrelaçada à alma, ainda que pressuponha diferenças irreconciliáveis no final. 

Enquanto durar, eu quero que dure. Só isso. Que seja pleno o bastante pra acordar pequeno e amanhecer triplicado. Que seja sentimento suficiente pra confundir e difundir a ideia de que somos de nós mesmos, mas somos um do outro o tempo todo. 
E espero que seja real. Eu realmente espero. 

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Jessica Iancoski Poesia

POESIA: SAPATOS VELHOS

– Aos meus vans rasgados e cinzas.

Envelheço junto dos meus sapatos velhos

E exaustos

      com a sola dos anos gastos_________

E cada caminhada_____

                                        mais me assola

Ficamos mais sujos~~~~~~~~~~~~~~~~~~

E mais gastos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

                             e fora de moda.___________________________________

Seria antiquado dizer, ______________________________________________

Se não fosse verdade_______________________________________________

         que por vaidade_______________________________________________

          querem nos aposentar _________________________________________

                numa lixeira______________________________________como eles.